Atrasos em vistos colocam em risco iraquianos que ajudaram EUA

Ameaçados, intérpretes e outros funcionários contratados pelo governo americano têm dificuldade de sair do Iraque

The New York Times |

O medo do terrorismo nos Estados Unidos tem impedido a emissão de vistos para os iraquianos, mesmo aqueles que arriscaram suas vidas ajudando os americanos na guerra, tornando-os especialmente vulneráveis com a retirada militar americana de seu país.

O governo Obama exigiu nova verificação de antecedentes de segurança para os requerentes de vistos, reagindo a um caso em Kentucky na qual dois imigrantes iraquianos foram presos por supostos vínculos com um grupo de insurgentes, de acordo com oficiais americanos em Bagdá.

Há quem diga que o governo está ignorando uma diretiva do Congresso para elaborar um plano de contingência para agilizar a emissão dos vistos para iraquianos que trabalharam para o governo dos Estados Unidos, especialmente intérpretes usados pelos militares, que estarão sob maior ameaça depois que as forças americanas não estiverem mais no país.

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A família de Abu Hassan (segundo a partir da direita), que espera aprovação para deixar o Iraque

"Esta não é uma prioridade agora para ninguém no governo", disse Becca Heller, que dirige o Projeto de Assistência aos Iraquianos Refugiados no Centro de Justiça Urbana, em Nova York. "Não há pessoas suficientes no governo Obama cuidando deste assunto”.

O fluxo de iraquianos para os Estados Unidos este ano pode ser o menor desde 2007, quando o governo Bush enfrentou problemas por não lidar eficazmente com a crise dos refugiados provocada por sua própria invasão.

Nos primeiros nove meses do atual ano fiscal, menos de 7 mil iraquianos foram admitidos nos Estados Unidos. Em março, apenas sete entraram no país com um chamado visto especial de imigrantes – uma classe criada pelo Congresso para trazer rapidamente para o país os iraquianos em perigo por ter ajudado o governo americano – e em abril, apenas nove. Em alguns meses do ano passado mais de 200 iraquianos chegaram ao país com esses vistos.

O impasse colocou inúmeros iraquianos, como a família Aeisa, em uma situação potencialmente perigosa.

Sua história é, infelizmente, muito comum: um irmão foi sequestrado e torturado, e as crianças foram intimidadas no pátio da escola, acusadas de serem espiões até mesmo pelo diretor.

No mês passado eles receberam o telefonema que já não acreditavam que viria. Seus pedidos de visto foram aprovados e eles logo estariam a caminho do Arizona.

O pai largou o emprego em Zain, uma empresa de celular; as crianças deixaram a escola, a televisão; os móveis e o ar-condicionado foram vendidos; e os pertences restantes foram organizados em mais de uma dúzia de malas. A família de cinco pessoas fixou residência temporária na casa de um amigo.

Uma semana antes do voo, outro telefonema, desta vez com uma má notícia. A partida foi adiada por tempo indeterminado e sem explicação.

"Isso machuca ainda mais do que todas as ameaças que recebemos", disse o pai, que pediu para ser identificado apenas como Abu Hassan, por razões de segurança. "Estávamos esperando por isso. Este era o momento.”

A mãe, Um Hassan, cujo irmão e pai trabalharam para os militares americanos e agora vivem no Arizona, disse apenas: "Eu me sinto doente”.

Kirk Johnson, que trabalhou para a Agência de Desenvolvimento Internacional dos Estados Unidos em Fallujah em 2005 e, em seguida, fundou o Project List, um grupo sem fins lucrativos que ajuda os iraquianos que trabalharam para organizações americanas, disse: "Basicamente, acho que onde há uma maneira de atrasar o programa, há uma vontade de fazê-lo”.

O Congresso exigiu que o Pentágono coordene com os Departamentos de Estado e de Segurança Interna um relatório que apresente o número de iraquianos que trabalharam para o governo dos Estados Unidos nos últimos oito anos, bem como o número de pessoas mortas ou feridas.

As agências também devem elaborar um plano para agilizar os vistos para os casos mais urgentes, caso os insurgentes façam ameaças aos que ficarem para trás após a retirada americana. Mas nem o governo Bush nem o governo Obama cumpriram as metas estabelecidas pelo Congresso.

Os números são alarmantes: desde 2008 o Congresso ampliou o programa especial de vistos de imigrantes para incluir 25 mil iraquianos ao longo de cinco anos. Depois de quase quatro anos, o governo emitiu cerca de 7 mil vistos.

O Departamento de Defesa não conseguiu cumprir o prazo para o relatório de afiliados iraquianos em maio, e autoridades tanto do Pentágono quanto do Departamento de Estado, que deveriam contribuir com o documento, não souberam dizer quando ele será concluído.

Johnson disse que a legislação foi impulsionada pela necessidade de se evitar uma enorme crise de refugiados como a que aconteceu no Vietnã. Alguns anos atrás, depois que as forças britânicas se retiraram de Basra, a cidade portuária do sul do Iraque, os tradutores foram caçados e mortos.

Em uma entrevista em Bagdá, em maio, Eric P. Schwartz, secretário-adjunto de Estado para o Escritório de População, Refugiados e Migração, disse não ter informações sobre o relatório. "Sentimos que estamos preparados para lidar com qualquer tipo de contingência", disse ele.

Milhares de iraquianos trabalharam como intérpretes para as Forças Armadas dos Estados Unidos, traduzindo não apenas palavras, mas as tradições culturais de um país que a maioria dos soldados não conhecia.

"Passamos por muitos problemas juntos", disse o major-general Jeffrey S. Buchanan, porta-voz militar. "Temos um vínculo incrível com esses caras.”

Como muitas autoridades, ele ajudou um de seus tradutores a navegar pela burocracia. Questionado sobre o processo, Buchanan disse: "Ele chegou lá, mas levou muito tempo”.

Outro antigo intérprete o viu recentemente na televisão iraquiana e entrou em contato. "Ele foi capturado pela Al-Qaeda, torturado e mantido preso por cerca de sete meses", disse Buchanan.

O governo americano nunca manteve controle de quantos iraquianos empregava. "50 mil? 100 mil? 120 mil? Quem sabe?", disse Johnson.

O governo também nunca informou quantos funcionários iraquianos foram mortos ou feridos. Mas é claro que centenas morreram e muitos mais ficaram feridos. Um banco de dados mantido pela Titan, uma empreiteira que forneceu intérpretes no Iraque, vazou para Johnson e foi publicado no ProPublica. Em um período entre 2003 e 2008, o documento mostrou quase 300 mortes de intérpretes contratados pela Titan.

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Rana Hassan é vista ao lado das malas da família, que vive na casa de um amigo em Bagdá

Agora, com a partida dos militares, muitos dos que sobreviveram ou ainda trabalham para os americanos se sentem abandonados e traídos por um governo pelo qual arriscaram suas vidas. Um deles é Muhammad, que insistiu em ser identificado apenas pelo seu primeiro nome. Ele trabalhou como intérprete para o Exército entre 2007 e 2009.

Muhammad – apelidado de "Matt" pelos soldados com os quais trabalhou – teve seu pedido de visto negado, apesar de apresentar uma dúzia de cartas de recomendação de oficiais americanos. Uma delas dizia que ele não só tinha salvo soldados americanos de um carro em chamas e tratado os feridos, mas também que ele havia sido sequestrado em 2007 por uma milícia local e interrogado sobre como trabalhar para os americanos. Seu visto foi negado e nunca disseram o motivo.

O Iraque já não é tão violento quanto era, mas os iraquianos ainda são ameaçados pelo seu trabalho com os americanos. Ghaith Baban, 34 anos, trabalha para a Usaid e passou o mês de maio na clandestinidade depois de encontrar um bilhete em sua garagem que citava o Alcorão e ameaçava sua vida por "colaborar com os Estados Unidos". Ele entrou com o pedido de visto pela primeira vez no início de 2009 e ainda está à espera.

Quando os militares partirem, disse ele, "será o pior momento para as pessoas que trabalharam com os americanos”.

Enquanto isso, a família Aeisa aguarda seu prometido voo para o Arizona.

Eles nunca tiveram a intenção de partir. Quando seus parentes que trabalharam para os militares americanos partiram para os Estados Unidos eles pensaram que as ameaças acabariam. Mas isso não aconteceu. Seu cachorro, Spider, foi assassinado e um bilhete deixado ao lado de seu corpo dizia: "Partam, traidores. Vocês são espiões para os americanos”. Eles se mudaram várias vezes.

"Gostaríamos de ficar", disse Um Hassan. "Tínhamos uma fazenda e uma família normal. Todos os nossos sonhos foram destruídos.”

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