Ativistas do Japão tentam frustrar exibição de vencedor do Oscar

Nacionalistas opõem-se ao documentário "The Cove", que denuncia a caça de golfinhos no país e os níveis de mercúrio nos peixes

The New York Times |

"The Cove", um documentário sobre a caça de golfinhos no Japão que foi premiado com um Oscar, seria aparentemente perfeito para as salas de cinema do país, mas a distribuidora ainda não encontrou uma que esteja disposta a exibir o filme. E se Shuhei Nishimura e seus compatriotas da ala nacionalista japonesa conseguirem o que querem, ninguém jamais conseguirá exibi-lo no Japão.

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Membros de grupo nacionalista de extrema direita manifestam-se do lado de fora de cinema de Yokohama, Japão, contra documentário "The Cove"
Em um país que estremece diante de qualquer desarmonia e permanece desconfiado da história de violência da extrema direita, as manifestações barulhentas dos ativistas, suas calúnias online, telefonemas intimidadores e ameaças veladas de violência estão assustando os cinemas e fazendo com que cancelem as apresentações de "The Cove", que não apenas mostra a caça de golfinhos de um ponto de vista desfavorável, mas também adverte sobre os níveis elevados de mercúrio nos peixes, uma revelação inquietante num país apaixonado por frutos do mar.

Esse também é um exemplo gritante de como o debate público de assuntos considerados delicados  podem ser facilmente abafados por uma pequena minoria, cujos principais representantes são os cerca de 10 mil ativistas da extrema direita que defendem posições linha-dura contra os vizinhos de Tóquio.

Grupos como a Sociedade Nishimura para a Restauração da Soberania, que tem apenas alguns poucos membros em seu núcleo, recentemente adotaram como missão o combate às críticas internacionais sobre práticas como a caça a baleias e golfinhos.

Em inúmeros comícios, os membros da sociedade têm argumentado que a caça é uma tradição japonesa que deve ser protegida contra a condenação do Ocidente, e "The Cove" agora é seu principal alvo.

"The Cove" mostra cenas da caça de golfinhos na aldeia de Taiji, a sudoeste de Tóquio, muitas das quais foram filmados clandestinamente.

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Pessoas leem panfletos sobre o documentário "The Cove" antes de sua exibição em Tóquio
Um grupo de ativistas liderado por Ric O'Barry, que treinou golfinhos para a série de TV "Flipper", testemunha a violenta caça em uma lagoa isolada, onde os pescadores encurralam os animais, selecionam alguns para que sejam capturados vivos e esfaqueiam o resto até a morte.

A caça comercial foi proibida em todo o mundo desde meados da década de 1980, mas a proibição não abrange mamíferos marinhos menores como os golfinhos.

O Japão mata cerca de 13 mil golfinhos por ano, de acordo com a Fisheries Agency (Agência das Pescas) dos quais aproximadamente 1.750 são capturados em Taiji. A maioria dos mortos em Taiji são golfinhos-nariz-de-garrafa, uma espécie não ameaçada.

Defensores da liberdade de expressão japoneses encorajaram os cinemas a resistir às ameaças e exibir o documentário, feito pelo cineasta americano Louie Psihoyos. Muitos japoneses não sabem que a caça de golfinhos acontece no país, onde o consumo da carne do animal é rara, e os críticos dizem que é chegada a hora de um debate público.

Alguns cinemas estão resistindo às pressões dos nacionalistas. A companhia de serviços de internet Niwango planeja transmitir o filme online gratuitamente, ainda que para apenas 2 mil espectadores.

* Por Hiroko Tabuchi

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