Ataques em Mumbai testam se Paquistão é capaz de lidar com milícias locais

LAHORE - Cada vez mais evidências mostram uma ligação entre os ataques terroristas em Mumbai e um grupo paquistanês que representa o maior desafio do novo governo do país, questionando sua habilidade de lidar com as milícias locais.

The New York Times |

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O presidente Asif Ali Zardari afirma que seu governo não tem evidências concretas de envolvimento paquistanês nos ataques, enquanto autoridades americanas não estabelecem uma ligação direta com o governo. Mas quando a secretária de Estado Condoleezza Rice chegar ao país nesta quinta-feira, a pressão aumentará para que os paquistaneses confrontem o grupo Lashkar-e-Taiba, que oficiais indianos e americanos culpam pelos ataques em Mumbai.

Apesar de oficialmente proibido, o grupo tem agido publicamente há anos. Além disso, tem uma longa história de elos com as agências de inteligência paquistanesas. As evidências de sua participação nos ataques em Mumbai chegam de todo o mundo:

- Um antigo oficial do Departamento de Defesa de Washington, que falou sob condição de anonimato, disse que analistas de inteligência americanos suspeitam que ex-autoridades da poderosa agência de espionagem paquistanesa e seu exército ajudaram a treinar os terroristas que agiram em Mumbai. 

- De acordo com a polícia indiana, o único atirador que sobreviveu aos ataques, Mohammad Ajmal Kasab, 21, disse aos investigadores que foi treinado durante um ano e meio em pelo menos quatro campos no Paquistão e em um deles conheceu Mohammad Hafeez Saeed, líder do Lashkar-e-Taiba. 

- Segundo um oficial ocidental familiarizado com a investigação em Mumbai, outro líder do grupo, Yusuf Muzammil, que o atirador sobrevivente disse ser o responsável pela trama, recebeu ligações dos terroristas em Lahore.

Muitas das acusações contra Lashkar vêm de investigadores na Índia, que há muito rivaliza com o Paquistão. Os Estados Unidos também têm interesse em acabar com as milícias paquistanesas que representam uma ameaça a seus soldados no Afeganistão.


Soldado indiano observa destruição após ataque em estação de Mumbai/ Reuters

Hoje, o Lashkar-e-Taiba, cujo nome significa "exército dos puros", opera abertamente em Lahore. Sua ala militante, segundo autoridades ocidentais, usou campos de treinamento controlados pelo Paquistão na Cachemira e em regiões tribais do país para se tranformar de um grupo antes concentrado primariamente na região disputada com a Índia em uma organização determinada a participar da jihad global. Os ataques em Mumbai, que incluíram estrangeiros entre seus alvos, parecem servir ao propósito do grupo.

Saeed, de 63 anos, vive atualmente em um composto que inclui uma mesquita de cor creme em uma movimentada rua comercial. Uma placa do lado de fora anuncia o Centro do Qadsisiyah, uma referência triunfante ao lugar onde árabes venceram os persas no século sete.
O porta-voz de Saeed, Yaya Mujahid, negou em entrevista realizada na quarta-feira que haja qualquer envolvimento dele com os ataques em Mumbai e descreveu as exigências indianas de que o líder do grupo seja entregue juntamente com outras 19 pessoas como "propaganda".

"A Índia quer ele porque foi Saeed que expôs o país em relação à Caxemira e às reservas de água", disse Mujahid, se referindo às reclamações paquistaneses de que a Índia cortou o suprimento de água do país.

A face pública do grupo, conhecida como Jamaat-ud-Dawa, coordena escolas islâmicas e trabalhos de caridade, além de manter um campus de 31 hectares 25km ao norte de Lahore, em Muridke, ele disse. Desde o 11/9, segundo ele, "o cenário mudou e nosso relacionamento com o governo já não é tão bom".

De acordo com agentes de inteligência ocidentais, o Lashkar foi formado em 1989 com a ajuda da poderosa agência de inteligência paquistanesa Inter-Services Intelligence (ISI), com Saeed como seu principal colaborador.

A intensidade deste relacionamento hoje permanece incerta e é motivo de amplos debates, segundo autoridades ocidentais. Críticos do Paquistão e da ISI mantêm que a agência ainda protege o Lashkar.
Apesar de estabelecido como uma força representante para combater a Índia na Caxemira, o Lashkar desde então se tornou um grupo transnacional, dizem as autoridades.

Hoje ele tem células em Bangladesh, Afeganistão, regiões tribais do Paquistão e alguns de seus militantes chegaram a atuar no Iraque, dizem as autoridades.

Ainda não se sabe, no entanto, se o grupo passou a agir sob premissas da Al-Qaeda.

"Não podemos dizer que haja uma intervenção direta, mas precisamos pensar que eles aprenderam alguma coisa ou estão copiando algo e possivelmente sofrem algum tipo de influência ou contato", afirmou um oficial sênior americano. 

Por JANE PERLEZ e SOMINI SENGUPTA

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