Ataques contra cabelos e barbas causam medo em comunidade Amish nos EUA

Agressores vem de grupo renegado pela maioria dos religiosos e ações representam desrespeito a símbolos cruciais de identidade

The New York Times |

Myron Miller, 45 anos, e sua esposa, Arlene, estavam dormindo já fazia uma hora, quando sua filha de 15 anos de idade os acordou e disse que alguém estava batendo à porta. Miller, operário de obra e bispo Amish nas pacíficas fazendas do leste de Ohio, nos Estados Unidos, encontrou cinco ou seis homens esperando. Eles o agarraram e cortaram sua barba longa e negra com uma tesoura, tirando cerca de 15 centímetros. Enquanto Miller lutava com os agressores, sua esposa gritou para que os filhos ligassem para a polícia, mas os agressores fugiram.

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Marido de Arlene Miller (foto) está entre as vítimas dos recentes ataques contra comunidade Amish em Ohio, EUA

Para um homem Amish, essa foi uma violação pessoal incomensurável e ainda mais desconcertante, porque os acusados do ataque também são Amish. "Nós não necessariamente lutamos, mas a defesa foi um instinto natural", lembrou Miller.

Os agressores, segundo as autoridades, vieram de um assentamento isolado perto de Bergholz, ao sul da residência de Miller. Xerifes e líderes Amish na região, que abriga uma das maiores concentrações de Amish do país, já esperavam que o grupo Bergholz desse problemas. O local é conduzido com mão de ferro por Sam Mullet, um homem de 66 anos de idade que se afastou amargamente das comunidades Amish mais tradicionais e já teve vários confrontos com o xerife do condado de Jefferson.

Mas a humilhação violenta que os homens de seu grupo são acusados de infligir aos seus supostos inimigos, usando tesoura e máquinas de corte, vieram como um choque bizarro. Os ataques – quatro são conhecidos pelas autoridades – despertaram medo entre os Amish e resultaram na prisão, até agora, de cinco homens, incluindo três dos filhos de Mullet, por sequestro e outras acusações. As autoridades dizem que mais prisões podem acontecer em breve.

No primeiro incidente, em 6 de setembro, na cidade de Mesopotamia, um casal que havia deixado a comunidade Bergholz há quatro anos, Martin e Barbara Miller, foram atacados durante a noite por cinco de seus próprios filhos e um genro, junto a suas esposas, todos os quais tinham optado por permanecer com Mullet, de acordo com as vítimas. A quadrilha deixou o pai com uma "barba irregular", como descreve o relatório do xerife, em seguida, atacaram sua própria mãe – que é irmã de Mullet – e cortaram grandes mechas de seu cabelo.

"A barba é um símbolo-chave da identidade masculina Amish", disse Donald B. Kraybill, sociólogo e especialista em cultura Amish pela Faculdade Elizabethtown, na Pensilvânia. As mulheres veem seu cabelo comprido, mantido preso em um coque, como sua "glória" e o corte é "um ataque à sua identidade pessoal e ensino religioso", explicou Kraybill.

Os homens acusados do ataque foram libertados sob fiança. Mullet não foi acusado, embora ele continue sob investigação. "Eu sei que nada acontece, a menos que ele dê a ordem", disse Fred J. Abdalla, xerife do Condado de Jefferson.

O Ministério Público Federal está considerando se irá apresentar uma acusação federal por crimes de ódio, segundo a assessoria do FBI de Cleveland. As ações penais são incomuns porque os Amish não acreditam em vingança e preferem resolver disputas internamente. O casal de Mesopotamia, Martin e Barbara Miller, se recusaram a depor, dizendo aos oficiais que vão "dar a outra face".

Mas outros estão cooperando com a aplicação da lei. "Queremos ver essas pessoas atrás das grades para que esse culto seja encerrado antes que ele termine como a maioria", disse Myron Miller, que vive em Mechanicstown. Muitos Amish veem Mullet como um perigo para a comunidade em geral e sobretudo para os 120 moradores do seu assentamento, incluindo dezenas de crianças que crescem sob sua influência.

Miller tem agora uma barba aparada de cinco centímetros. Ele e sua esposa acreditam que o ataque foi vingança, porque anos atrás eles ajudaram um dos filhos de Mullet a deixar Bergholz. Mullet, pela porta da frente de sua grande casa branca no centro de Bergholz, se recusou a falar a um repórter na semana passada e ordenou que ele deixasse a sua propriedade.

Em uma entrevista anterior concedida à Associated Press, ele disse que os ataques recentes resultaram de "diferenças religiosas", e que ele não tinha ordenado as agressões, embora soubesse que estavam ocorrendo. As observações enfureceram outros Amish. "Não é uma questão de igreja, é simplesmente vingança", disse Arlene Miller.

Muitos Amish dizem que já não consideram Mullet como Amish ou até mesmo como um verdadeiro cristão. Embora os Amish tenham uma longa história de divisões, grupos de congregações tendem a ter laços de cooperação e o fato do grupo de Mullet não ser ligado a qualquer outro é um sinal de seu status de renegado, afirmou David McConnell, um antropólogo da Faculdade de Wooster que estuda os Amish.

Por Erik Eckholm e Daniel Lovering

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