Ataques ao WikiLeaks prejudicam imagem dos EUA na Europa

Retaliação a fundador Julian Assange e críticas ao site que divulgou documentos passam imagem de Washington insegura

The New York Times |

Para muitos europeus, a reação feroz de Washington à divulgação de uma série de documentos diplomáticos pelo site WikiLeaks revela arrogância imperial e hipocrisia, indicando uma obsessão pós-11/9 com sigilo que contradiz os próprios princípios americanos.

Embora o governo Obama não tenha feito nada nos tribunais para impedir a publicação de qualquer um dos documentos vazados, ou mesmo, até o momento, tentado acusar o fundador do WikiLeaks, Julian Assange, de qualquer crime, as autoridades e os políticos americanos têm sido amplamente condenados na mídia europeia por qualificar o vazamento de tudo, de "terrorismo" (como fez o deputado Peter T. King, republicado de Nova York) a "um ataque contra a comunidade internacional" (como fez a secretária de Estado Hillary Rodham Clinton).

AFP
Fundador do WikiLeaks, Julian Assange foi preso no Reino Unido nesta semana
O secretário da Defesa Robert M. Gates chamou a prisão preventiva de Assange por acusações separadas de estupro de uma "boa notícia", enquanto Sarah Palin pediu que ele seja caçado como um "agente antiamericano que tem sangue nas mãos". Já Mike Huckabee, ex-governador do Estado de Arkansas e candidato presidencial republicano, disse que ele deveria ser executado.

Para Seumas Milne, do jornal The Guardian de Londres, que assim como o New York Times publicou os mais recente documentos divulgados pelo WikiLeaks, a reação oficial dos Estados Unidos "se aproxima da loucura". Grande parte dos documentos vazados é composta por dossiês diplomáticos de baixo nível, observou ele, concluindo que "não há muito interesse na liberdade de informação na terra dos livres".

John Naughton, escrevendo no mesmo jornal britânico, lamentou o ataque à abertura da internet e a pressão de empresas como Amazon e eBay para expulsar o site Wikileaks. "A resposta tem sido cruel, coordenada e possivelmente abrangente", disse ele, e apresenta uma "deliciosa ironia" porque "agora são as chamadas democracias liberais que estão pedindo o fechamento do WikiLeaks".

Há um ano, observou, Hillary fez um importante discurso sobre a liberdade na internet, interpretado como uma repreensão o ataque cibernético da China ao Google. "Mesmo em países com regimes autoritários", disse ela, "redes de informação ajudam as pessoas a descobrir novos fatos e governos a agir de maneira mais responsável". Agora, para Naughton, "aquele discurso de Clinton é lido como uma obra satírica".

Os russos parecem ter um prazer especial em provocar Washington por sua reação ao vazamento, sugerindo que os americanos estavam sendo hipócritas. "Se o país é uma democracia plena, então por que eles colocaram Assange na cadeia? Você chama isso de democracia?" disse o primeiro-ministro Vladimir Putin durante uma entrevista coletiva ao lado do primeiro-ministro francês, François Fillon. Assange está na prisão na Grã-Bretanha, enquanto a Suécia pede sua extradição por acusações de estupro.

Putin usou um provérbio russo cuja tradução aproximada pode ser "o roto falando do esfarrapado". "No interior, nós temos um ditado: ‘a vaca dos outros pode mugir, mas a sua deve ficar quieta’", disse Putin. "Então, eu gostaria de passar a bola de volta aos nossos colegas americanos".

Mártir

Os jornais alemães foram igualmente severos. Até mesmo o Financial Times Deutschland (independente do Financial Times britânico), disse que "a reputação já danificada dos Estados Unidos só vai piorar com o novo status de mártir de Assange". A publicação acrescentou que "a esperança abraçada abertamente pelo governo dos Estados Unidos de que juntamente com Assange o WikiLeaks desaparecerá de cena é questionável".

Assange está sendo perseguido, informou o jornal, "mesmo que ninguém consiga explicar que crimes Assange alegadamente cometeu com a publicação de documentos secretos, ou por que a publicação no WikiLeaks é uma ofensa e no New York Times não".

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Julian Assange, idealizador do site que vazou documentos diplomáticos americanos, em Londres (foto de 26/7/2010)
O jornal de esquerda Berliner Zeitung escreveu que a reputação de Washington foi prejudicada pelos vazamentos, mas que a reputação dos líderes americanos "está sendo muito mais afetada agora, enquanto eles tentam – de todas as formas – amordaçar o WikiLeaks" e Assange. Eles são os primeiros, o jornal afirmou, a ter "usado o poder da internet contra os Estados Unidos. É por isso que estão sendo perseguidos impiedosamente. É por isso que o governo está traindo um dos princípios da sua democracia".

O jornal Berliner Zeitung continuou: "Os Estados Unidos estão traindo um de seus mitos fundadores: a liberdade de informação. E eles estão fazendo isso agora porque pela primeira vez desde o fim da Guerra Fria estão ameaçados de perder o controle da informação mundial".

Nicole Bacharan, uma estudiosa dos Estados Unidos no Institut d'Etudes Politiques, disse que na França "há uma divisão entre os que consideram que a diplomacia americana é eficiente e compreende o mundo e tem uma influência positiva e aqueles que estão desconfiados dos objetivos desta diplomacia". O que mais a impressiona, ela disse, é que" os pró-americanos têm sido mais duros do que os anti-americanos aqui".

Mas Renaud Girard, um respeitado jornalista de centro-direita que atua no jornal Le Figaro, disse que ficou impressionado com a qualidade geralmente elevada do corpo diplomático americano. "O mais fascinante é que não vemos cinismo na diplomacia dos Estados Unidos", disse ele. "Eles realmente acreditam em direitos humanos na África, na Rússia e na Ásia. Eles realmente acreditam na democracia e nos direitos humanos. As pessoas acusam os americanos de dois pesos e duas medidas o tempo todo. Mas isso não é verdade aqui", disse. "Se há um problema é que os diplomatas são quase ingênuos e eu não acho que esses vazamentos prejudiquem os Estados Unidos. A maioria das pessoas vai ver que os diplomatas são honestos, sinceros e não tão cínicos".

Mesmo Laurent Joffrin, editor do diário de esquerda Liberation, defendeu o direito ao segredo diplomático e disse que é preciso refletir sobre a "exigência de transparência a qualquer preço". Estados devem ter segredos, disse ele, desde que não deixem de ser fiscalizados por representantes eleitos. "É um paradoxo ver o WikiLeaks concentrar os seus ataques, essencialmente, nas democracias", disse Joffrin. "E é muito reconfortante ver que as trocas de segredo das grandes potências diplomáticas são pouco diferentes do que elas dizem em público".

O ataque mais forte ao WikiLeaks veio do editor do jornal Figaro, Etienne Mougeotte, que chamou a publicação dos documentos diplomáticos, bem como a de uma lista de locais considerados estratégicos por Washington, de “um precioso presente” para os terroristas. O vazamento, segundo ele, serve "aqueles que decidiram prejudicar o poder americano, para desestabilizar o mundo das grandes nações industrializadas, para colocar em prática o máximo de desordem nas relações internacionais".

Assange, escreveu, "não é o gentil corretor das injustiças da web que alguns querem apresentar para nós – na melhor das hipóteses ele é um homem perigoso e irresponsável, e, na pior, um delinquente perverso".

Autoridades russas, principalmente, parecem estar deliciando-se com o constrangimento dos americanos, com alguns sugerindo que Assange receba o prêmio Nobel da Paz. Dmitri O. Rogozin, embaixador atrevido e citável da Rússia na Otan, sugeriu que a prisão de Assange demonstrou que não há "nenhuma liberdade de comunicação" no Ocidente. O seu "destino", opinou Rogozin, agora não passa de "perseguição política" e um desrespeito aos direitos humanos.

*Por Steven Erlanger, com reportagem de Maia de la Baume, Scott Sayare e Clifford J. Levy

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