Ataque de Israel à frota complica esforços de Obama

Ação contra navios humanitários dificulta retomada de diálogo de paz e impõe desafio à já tensa relação entre Israel e EUA

The New York Times |

O ataque mortal do comando israelense realizado na segunda-feira contra uma flotilha que tentava romper um bloqueio à Faixa de Gaza complicou os esforços do presidente Barack Obama para retomar as negociações de paz no Oriente Médio e apresentou um novo desafio a um relacionamento já tenso entre Estados Unidos e Israel.

O primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, cancelou planos de ir a Washington para se encontrar com Obama na terça-feira. Os dois se falaram pelo telefone poucas horas depois do ataque, e a Casa Branca posteriormente divulgou um relato da conversa, dizendo que Obama manifestou "profundo pesar" pela perda de vidas e reconheceu "a importância de descobrir todos os fatos e circunstâncias o mais depressa possível".

Enquanto a reação oficial do governo foi recatada, oficiais americanos expressaram consternação em privado não apenas pelo ataque, que ampliou ainda mais o isolamento de Israel, mas também pelo momento em que crise acontece, no início de negociações indiretas planejadas pelos americanos e há muito adiadas.

Alguns especialistas em política externa afirmam que o episódio ressaltou a dificuldade de tentar negociar a paz com a Autoridade Palestina sem levar em conta um elemento frequentemente relegado a uma posição secundária: como lidar com uma Faixa de Gaza governada pelo Hamas.

O Hamas, organização islâmica que rejeita reconhecer a existência de Israel, funciona de forma independente da Autoridade Palestina e rejeitou qualquer negociação de paz. A Faixa de Gaza tem repetidamente complicado as negociações de paz entre israelenses e palestinos.

"Esse lamentável incidente reforça que o bloqueio internacional à Faixa de Gaza não é sustentável", disse Martin S. Indyk, ex-embaixador americano em Israel. "Ele ajuda a impedir ataques do Hamas aos israelenses, mas prejudica gravemente a reputação internacional do país. Nossa responsabilidade com Israel é ajudá-los a encontrar uma forma de sair dessa situação."

O governo Obama apoia oficialmente o bloqueio à Faixa de Gaza, como o governo Bush fez antes dele. Mas Obama, segundo alguns assessores, tem demonstrado de forma privada grande frustração com a situação humanitária na região.

À medida que os Estados Unidos estão cada vez mais vinculando seus próprios interesses de segurança nacional na região à incapacidade de israelenses e palestinos chegarem a um acordo de paz, a tensão ressaltada pelo ataque que deixou mortoss na segunda-feira pode aprofundar a divisão entre o governo de Israel e o dos Estados Unidos quando Obama e Netanyahu tentavam superar recentes divergências.

"Não temos certeza ainda de como as coisas ficarão daqui para frente", disse um oficial do governo, falando sob condição de anonimato por causa da delicadeza diplomática do assunto. A declaração da Casa Branca afirmava que Obama "entende a decisão do primeiro-ministro em voltar imediatamente a Israel para lidar com os eventos", dizendo que o encontro será remarcado "na primeira oportunidade".

Não importa o que aconteça, especialistas em política externa que aconselham o governo concordaram que se Obama pretende avançar nas negociações de paz, precedidas das chamadas negociações indiretas ou de aproximação, o ataque à flotilha demonstrou que ele pode ter de lidar primeiro com a questão do bloqueio à Faixa de Gaza, que existe desde que o Hamas tomou controle da região em 2007.

Desde então, Israel, Estados Unidos e Europa têm avançado lidando apenas com a Autoridade Palestina, que tem controle sobre a Cisjordânia, mas amplamente ignora a Faixa de Gaza, lar de cerca de 1,5 milhão de palestinos.

A Faixa de Gaza foi deixada com uma crise cada vez pior conforme o Hamas se recusa a ceder às exigências ocidentais de renunciar à violência e reconhecer Israel.

"Você pode falar o quanto quiser sobre negociações de aproximação, gastar tanta energia quanto Obama tem gastado, mas, se ignorar o enorme problema de Gaza, ele voltará para assombrá-lo", disse Robert Malley, diretor do programa para Oriente Médio e África do grupo International Crisis.

Para o governo de Obama, a prioridade poderia ser encontrar uma maneira de conseguir um cessar-fogo entre Israel e Hamas para pôr fim ao bloqueio à Faixa de Gaza. Diversas tentativas nos últimos dois anos para alcançar esse acordo chegaram perto mas fracassaram, a última quando os dois lados não conseguiram estabelecer um consenso sobre a libertação do soldado israelense Gilad Shalit capturado pelo Hamas.

Indyk, diretor de política externa do Instituto Brookings, afirma que, depois que as coisas se acalmarem, o governo precisa trabalhar em um acordo no qual o Hamas se comprometa a impedir os ataques e contrabandos à Faixa de Gaza. Em contrapartida, Israel diminuiria o bloqueio e permitiria o comércio para dentro e fora da região. "O acordo teria de incluir uma troca de prisioneiros no qual Gilad Shalit seja finalmente libertado", ele disse.

Não ficou claro se as negociações indiretas entre Israel e a Autoridade Palestiniana sofrerão um atraso imediato. George J. Mitchell, enviado do governo Obama para o Oriente Médio, ainda planejava participar de uma Conferência de Investimento Palestino na cidade de Belém, na Cisjordânia, na quarta e nesta quinta-feira.

As negociações indiretas envolvem negociadores americanos que fazem a mediação entre israelenses e palestinos e são vistas como um retrocesso de quase duas décadas de negociações diretas.

Mas sua estrutura pode, na verdade, servir ao propósito de manter as negociações ativas. Mitchell e sua equipe têm transitado entre os dois lados há mais de um ano, o que significa que a preparação para negociações indiretas e as próprias negociações não parecem diferentes vistas de fora. Como resultado, os mediadores americanos podem dar continuidade a sua mediação apesar do ataque à flotilha.

Ainda que o bloqueio à Faixa de Gaza tenha sido amplamente criticado, autoridades israelenses dizem que ele impõe pressão sobre o Hamas. O grupo parou de disparar mísseis contra Israel e tem enfrentado o descontentamento da população de Gaza.

*Por Helene Cooper e Ethan Bronner

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