Ataque a hotel em Cabul reduz expectativas sobre segurança

Terror no Intercontinental da capital afegã que deixou 21 mortos coloca em xeque capacidade das forças afegãs

The New York Times |

Nazir Amini, um afegão em visita ao país de sua casa na Alemanha, tinha acabado de voltar do buffet com uma taça de sorvete quando viu dois homens armados com um rifle AK-47 e uma metralhadora entrarem e começarem a atirar nos convidados sentados ao redor da piscina do Hotel Intercontinental, um dos edifícios mais fortificados da capital iraquiana.

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Policial afegão bloqueia via que leva ao Intercontinental de Cabul
Mulheres e crianças gritavam. Cadeiras caíam para trás. Comidas eram derrubadas no gramado conforme as pessoas começaram a correr. Amini disse que viu policiais correrem também, agarrados a suas próprias AK-47. "Eu disse: 'Por que vocês não atiram? Atirem!'", Lembrou. "Mas eles simplesmente disseram: 'Fique longe deles'. E todos nós corremos juntos".

Seis horas mais tarde, ao menos 21 pessoas estavam mortas, incluindo os nove terroristas suicidas que conseguiram penetrar vários anéis de segurança na terça à noite para realizar o ataque. O ataque abalou a confiança do público na capacidade das forças afegãs, especialmente a polícia, de assumir a responsabilidade pela segurança, mesmo na capital Cabul.

A cena retratada por Amini e vários outros convidados no hotel demonstra vividamente os desafios enfrentados pelo governo afegão, que se prepara para defender seu país sem tropas da Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte) depois de 2014. Na semana passada, o presidente americano, Barack Obama, anunciou que os militares dos Estados Unidos haviam infligido danos suficiente à insurgência para lhe permitir começar a retirar algumas tropas. Esta semana deveria ser o início da transição para o controle do Afeganistão, com Cabul, uma das cidades mais seguras do país, prevista para estar entre os primeiros lugares a realizar a transferência.

"Falamos sobre a transição para a segurança do Afeganistão, mas as forças afegãs não estão prontas para assumir a sua segurança e o seu país", disse Maulavi Mohammadullah Rusgi, presidente do conselho provincial de Takhar, no norte do Afeganistão, que estava jantando com amigos quando o ataque começou. Três de seus amigos foram mortos. "As forças de segurança não conseguem nem mesmo proteger algumas pessoas dentro de um hotel", disse ele. "Como eles podem proteger o país inteiro?".

O ataque só terminou depois que helicópteros da Otan se juntaram à batalha, matando três dos insurgentes no telhado do hotel. Ainda assim, autoridades da Otan assumiram uma visão mais otimista do desempenho da polícia afegã, dizendo que eles lutaram bem depois que suas forças foram reunidas no local. "Eles resolveram muito bem. Poderia ter sido muito pior", disse um oficial ocidental.

Mas para os hóspedes do hotel, muitos dos quais pularam os muros da propriedade, mergulharam em valas de irrigação ou se encolheram dentro de armários para escapar do ataque, a resposta da polícia não foi apenas lenta, mas covarde. Várias testemunhas se queixaram que os policiais fugiram ou se recusou a atirar.

Hóspedes diante do hotel na manhã de quarta-feira disseram que sem a ajuda das forças da Otan, o caos teria durado muito mais tempo. "A questão principal em Cabul, e à beira de transição, é se eles estão prontos", disse outro oficial ocidental, se referindo à polícia. "O ataque no Intercontinental gera a dúvida. E se a transição deve ser baseada nas condições de segurança, então as condições não são satisfatórias”.

Taleban

Claramente a intenção do Taleban, que reivindicou a responsabilidade pelo ataque, foi a de semear a dúvida. A dificuldade das forças de segurança afegãs em enfrentar o ataque e em apagar o fogo que destruiu metade do telhado do edifício – o fogo levou mais de uma hora para ser domado – deu aos insurgentes uma vitória de propaganda, mesmo se o número de mortos tenha sido relativamente baixo em comparação com outros ataques nos últimos anos. Entre os mortos estão um piloto espanhol e ao menos dois policiais afegãos.

Rusgi, o oficial do conselho provincial de Takhar, disse que mesmo após o fim do tiroteio às 5h da manhã, a polícia estava relutante em entrar no hotel, desafiando as ordens do chefe de polícia, Mohammed Ayoub Salangi. "O chefe de polícia, Salangi, dizia à sua equipe que entrasse no hotel – entre, entre, em frente para o hotel – mas eles não iam", disse ele.

Rusgi e 11 amigos estavam jantando quando o ataque começou. "Quando os homens começaram a atirar", contou, “eu e meu amigo Judge Abdul Hanan pulamos em um fosso, e eu silenciei o meu celular para ter certeza que o telefone não faria barulho para que os insurgentes não atirassem em nós. "Então, Judge Abdul Hanan saiu do fosso e as balas vinham de todas as direções, e ouvimos o seu cellular tocar, e eu disse a um outro cara que estava comigo dentro da vala, ‘Olha, Judge Hanan vai criar problemas para nós, e os atiradores vão descobrir que estamos aqui se o celular dele continuar tocando’”.

Dez minutos depois, quando o tiroteio abrandou, Rusgi saiu da vala para pedir que Hanan desligasse seu telefone. "Então vi que ele estava no chão e quando mexi sua cabeça eu vi sangue em seu corpo. Ele havia sido baleado no peito e na barriga e, ao mesmo tempo, seu celular estava tocando e eu acho que sua família estava tentando ligar para ele”.

Momentos depois, Rusgi encontrou outros dois amigos que haviam sido baleados na cabeça enquanto tentavam se esconder atrás de uma árvore.

Lutfullah Mashal, porta-voz do Diretório Nacional de Segurança do Afeganistão, disse que houve "falhas" e "negligência" na segurança do hotel. Ele sugeriu que os insurgentes poderiam ter sido capazes de entrar no hotel, que fica no topo de uma colina com vista para a capital, com a ajuda de guardas no composto ou se disfarçando como trabalhadores, porque uma parte do hotel está em reforma. Desde o ataque, o hotel foi fechado indefinidamente.

Amini, que é vendedor de carros na Alemanha, estava pessimista sobre as forças afegãs estarem prontas para defender o país. "Quarenta e cinco países têm tropas aqui, mas a segurança ainda é frágil - você não pode servir o jantar em um dos maiores e mais seguros restaurantes em Cabul", disse ele.

"Agora estamos ouvindo sobre a transição de segurança para as forças afegãs", acrescentou. "Se eles derem a responsabilidade pela segurança para o atual governo às 10h, o governo entrará em colapso por volta das 12h. Eles não podem viver sem a ajuda dos estrangeiros".

*Por Alissa J. Rubin

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