Assombrados por ataque, moradores temem voltar à ilha sul-coreana

Depois de ataque da Coreia do Norte, ilha de Yeonpyeong teve moradores migrando para continente e vive como cidade fantasma

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Sentado na frente de sua casa, Woon Chang-il parecia quase fora de lugar, uma figura solitária em uma rua onde cães vagam entre as casas abandonadas e destruídas. Ele também não pretendia permanecer por muito tempo. Empunhando uma faca curta, Chang-il, um pescador de 64 anos de idade, abria ostras com rapidez enquanto se apressava para reunir tanta comida quanto pudesse antes de pegar a próxima balsa para fora dali.

Ele chegou no dia anterior, em sua primeira visita de volta a esta pequena ilha no Mar Amarelo desde o mês passado, quando o local foi atingido por um ataque norte-coreano. Como a maioria dos 1.350 moradores civis desta antes tranquila vila de pescadores, ele fugiu para o continente sul-coreano após o ataque.

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Área atingida por bombardeios na ilha de Yeonpyeong, na Coréia do Sul
E como muitos desses recém-criados refugiados, ele diz que está com tanto medo de outro ataque que pode nunca ser capaz de viver em Yeonpyeong novamente, mesmo que não tenha para onde ir.

"Essa é a nossa casa, mas 80% de nós não queremos voltar", disse ele, sentado sobre uma pilha de ostras que tinha apanhado antes do ataque. "Estamos no limbo".

Conforme os poucos moradores civis remanescentes de Yeonpyeong começam a se recuperar do bombardeio repentino que matou dois fuzileiros navais sul-coreanos e dois trabalhadores da construção civil, muitos se perguntam se eles irão se recuperar totalmente.

Muitos, como Chang, estão pensando duas vezes sobre voltar a viver na ilha, que também é a sede de para 1 mil fuzileiros navais e fica a apenas 12 quilômetros da Coreia do Norte. Mas outros parecem decididos a ficar, dizendo que Yeonpyeong, mais conhecida por seus saborosos caranguejos antes do ataque, tem sido o lar de sua família desde antes da península ser dividida quando o controle colonial japonês terminou em 1945.

"Todos nós vivemos aqui muito confortavelmente por todo esse tempo, por isso devemos ficar aqui mesmo que estejamos próximos da Coreia do Norte", disse Song Young-ock, 49 anos, um vendedor de passagens de balsa que voltou dois dias depois do ataque.

Os fuzileiros estão, em sua maioria, longe dos civis na metade norte da ilha, embora alguns possam ser vistos em recém-erguidas barreiras que mantêm os civis dentro dos limites da cidade.

População

Segundo a prefeitura, a população civil de Yeonpyeong está agora em apenas 60 residentes permanentes e 74 oficiais da cidade, muitos deles em rotação do continente. O ataque também atraiu 71 jornalistas e cerca de 80 ativistas, na maioria membros de grupos coreanos nacionalistas contrários ao norte.

Um silêncio recaiu sobre a comunidade, agora quase uma cidade fantasma de ruas e casas vazias. Cerca de meia dúzia de áreas foram atingidas por aquilo que parecia ser grupos de artilharia ou mísseis, que deixou trechos escurecidas de casas incendiadas que ainda têm cheiro de fumaça. Em outros lugares, explosões, que destruíram janelas ou arrancaram telhados despejando-os como fitas torcida pelas ruas.

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Ativistas chegaram para alimentar e cuidar das dezenas de cães e gatos deixados para trás pelos moradores em pânico
Ao longo de uma rua estreita, que antes era o minúsculo distrito de entretenimento da ilha, os muros da frente de bares desmoronaram, expondo suas estruturas queimadas repletas dos esqueleto de cadeiras e garrafas derretidas.

Do outro lado da rua de um bar assim, Lee-koo, 44 anos, passava fita adesiva usada em embalagens sobre as janelas quebradas de sua casa e usava um grande pedaço de alvenaria quebrada para manter sua porta fechada. Ele havia retornado pela manhã para avaliar os estragos.

"Eu não quero voltar, mas posso não ter escolha", disse Lee, que trabalhava em seu restaurante quando o ataque ocorreu. "Eu tenho que ganhar a vida em algum lugar".

Segundo a prefeitura, 44 moradores e fuzileiros navais foram feridos no ataque, que destruiu 25 casas e danificou outras 78. Havia outros sinais de que alguns daqueles que fugiram queriam, pelo menos inicialmente, voltar. Uma aviso manuscrito sobre a janela quebrada de uma pequena mercearia pedia que os transeuntes não pegassem os refrigerantes, salgadinhos e outras mercadorias ainda visíveis dentro da loja e aparentemente intocadas.

"Eu acredito na sua consciência", dizia o cartaz.

A maioria dos moradores da ilha está agora na cidade de Inchon, a uma distância de duas horas e meia de balsa. Um grande spa local foi transformado em abrigo improvisado. Muitos voltaram desde que o serviço de balsa foi reiniciado dois dias depois do ataque, mas a maioria fica apenas brevemente para pegar alguns pertences, alimentos e fechar portas, segundo oficiais da prefeitura.

Os oficiais estão tentando persuadir os morados a voltar. Eles também pediram assistência financeira ao governo central, incluindo a retomada dos subsídios que foram pagos aos moradores até a década de 1980 para mantê-los na ilha, estrategicamente localizada perto de águas reivindicadas por ambas as Coreias. Os 19 abrigos anti-bombas da cidade, casamatas de concreto sem mobília que datam da década de 1970, também serão modernizados.

Um oficial da cidade, Chang Heung-hwa, também fez mais apelos pessoais aos que fugiram dos bombardeios, saudando aqueles que voltaram para viagens curtas e tentando persuadi-los a ficar. Ele admite que não teve sorte até agora.

Mas ele expressou confiança de que alguns acabarão por aceitar sua oferta, especialmente se a Coreia do Norte não atacar novamente e a situação se acalmar. "Não vai ser como antes, mas de alguma forma a comunidade vai sobreviver", disse ele.

Os ativistas são as únicas pessoas ansiosas para chegar à ilha e começaram a aparecer logo após os habitantes da ilha terem fugido. A maioria é composta por nacionalistas que, em uma manhã recente, posicionaram-se no cais com bandeiras da Coreia do Sul entoando canções de vingança contra o ditador norte-coreano Kim Jong-Il. Ativistas dos direitos dos animais chegaram para alimentar e cuidar das dezenas de cães e gatos deixados para trás por moradores em pânico.

Do pequeno número de moradores que ficaram, muitos disseram que estão determinados a permanecer, mesmo se ninguém mais voltar.

"Se eles não voltarem, isso significa que teremos todos os caranguejos para nós", brincou Park Chul-hong, um pescador de 54 anos de idade, com um boné preto e um casaco de malha canelada. Mas ele também disse que enfrenta a possibilidade de falência porque Marinha da Coreia do Sul proibiu a pesca uma semana depois do ataque – segundo ele, a última e mais produtiva semana da temporada anual de pesca de caranguejo.

Ele permaneceu impávido, apesar de ter passado mais de uma hora encolhido com seu filho em uma caverna perto do porto durante o ataque.

Chang, o pescador de ostras, disse que o terror do ataque foi o suficiente para afastá-lo para sempre. "Nós queremos apenas os peixes do mar", disse ele sobre sua família. "Mas como podemos fazer isso nesta zona de guerra?"

Arte/iG
Coreia do Norte lançou disparos contra ilha sul-coreana
*Por Fackler Martin, com reportagem de Su-Hyun Lee

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