Assim como Fidel, Chávez tem um irmão pronto para assumir o poder em seu lugar

Nenhuma figura do governo ocupou o vácuo político criado por ausência de líder, que se recupera de cirurgia em Cuba, do que Adán Chávez

The New York Times |

Entre as muitas comparações que podem ser feitas entre Venezuela e Cuba - dois aliados próximos, ambos infundidos com zelo revolucionário, impulsionado por movimentos que reverenciam seus líderes - considere mais um: um irmão do presidente assumindo o poder durante um período de doença do líder.

Enquanto o presidente venezuelano, Hugo Chávez, recupera-se em Cuba depois de passar por uma cirurgia de emergência há mais de duas semanas, nenhuma figura do governo ocupou o vácuo político criado pela sua ausência mais assertivamente do que seu irmão mais velho, Adán Chávez, um físico cujo pensamento radical tem estado muitas vezes à esquerda do presidente.

EFE
Hugo Chávez (E) em ato de apoio a seu irmão Adán Chávez, candidato do Partido Socialista Unido da Venezuela (PSUV) (15/11/2008)
Ele tem um papel semelhante ao de Raúl Castro, que assumiu como presidente de Cuba após uma doença ter retirado Fidel Castro da cena política em 2006. E, como Raúl Castro, embora Adán Chávez não tenha o carisma de seu irmão, ele permanece leal a quem ajudou seu irmão durante a consolidação de seu poder.

Ex-embaixador venezuelano em Cuba e membro do círculo íntimo de conselheiros de Hugo Chávez, Adán Chávez assumiu o papel de fornecer atualizações sobre a recuperação de seu irmão, viajando entre Caracas e Havana nas últimas semanas. Foi o seu anúncio na última quarta-feira de que o presidente não iria voltar para a Venezuela pelos próxims 10 ou 12 dias que ofereceu a avaliação mais grave da lenta recuperação do presidente.

Adán Chávez, 58 anos, hoje governador de Barinas, um Estado de fazendas de gado no oeste da Venezuela que é um bastião da família Chávez, também liderou esforços para tranquilizar e energizar os apoiadores do presidente a respeito dos rumores sobre a sua condição. Citando Che Guevara em uma reunião em Barinas, no fim de semana, ele reuniu os seguidores do presidente e os convocou a lembrar da luta armada como método de "aplicação e desenvolvimento do programa revolucionário".

"Seria imperdoável que nos limitássemos a métodos apenas eleitorais de luta", disse Adán Chávez, um ex-professor universitário envolvido na atividade política muito antes de seu irmão, que é dois anos mais jovem, formado em uma célula de jovens oficiais do Exército e nacionalistas no final de 1970.

Domínio

A proeminência de Adán Chávez reflete o domínio que seu irmão tem da política venezuelana desde que foi eleito presidente pela primeira vez em 1998. Ao longo dos anos, Hugo Chávez consistentemente derrubou seus principais conselheiros e outros possíveis rivais que surgiram de seu próprio movimento político. Os poucos que permanecem, como o vice-presidente Elias Jaua, ex-diretor de desapropriações de terras, mostram lealdade total. (Na semana passada, Jaua leu na íntegra na televisão estatal uma série de mensagens publicadas no Twitter de Hugo Chávez a seus seguidores.)

AP
Foto divulgada na terça-feira à noite pelo governo cubano mostra Chávez (D) com Fidel Castro lendo o jornal cubano Granma (28/6)

Ainda assim, ninguém no governo, incluindo Adán Chávez, tem mostrado a capacidade visceral do presidente de se conectar com os venezuelanos pobres. Isso não teria importância em Cuba, onde o Partido Comunista mantém autoridade inigualável sobre o sistema político da nação. Mas, se Hugo Chávez não for capaz de voltar rapidamente ao poder na Venezuela, não se sabe se seu irmão poderá controlar a enérgica, ainda que dividida, oposição local e consolidar o apoio de um movimento tão centrado na figura do próprio presidente.

Adán Chávez não respondeu aos pedidos de entrevista. Mas biógrafos de Hugo Chávez atribuem a evolução política do presidente, e talvez o seu estilo agressivo de política, em parte, à influência de Adán e a laços com líderes da guerrilha na década de 70, como Douglas Bravo, que defendia o uso das reservas venezuelanas de petróleo como uma ferramenta para a mudança radical.

Embora Hugo Chávez tenha se aproximado de Bravo apenas para romper laços com ele posteriormente, como fez várias vezes com outros mentores, o presidente venezuelano incorporou esse pensamento em sua própria ideologia, usando as receitas do petróleo como a força motriz na sua revolução de inspiração socialista.

Agora, Bravo, hoje com 79 anos e um crítico do que descreve como a nova dependência da Venezuela de países como China e Rússia, disse que Adán Chávez está claramente "na linha de sucessão”. Referindo-se à declaração de Adán sobre o uso de armas para defender a revolução de seu irmão, Bravo observou que nem o vice-presidente nem nenhum outro proeminente político pró-Chávez disse algo tão provocativo. "Ele deve estar recebendo a orientação de seu irmão para dizer tal coisa, porque eu não acho que faria tal declaração por si próprio", disse Bravo, que conhece os dois homens há muitas décadas.

Cargos

Adán Chávez ocupou vários cargos importantes na presidência de 12 anos de seu irmão, incluindo o de ministro da Educação. Ele formatou as relações com Cuba, o maior aliado da Venezuela, onde seu irmão está se tratando em uma instalação médica longe dos olhos de curiosos e da mídia venezuelana.

Ainda há confusão na Venezuela sobre a real condição do presidente, que as autoridades atribuíram a um abcesso pélvico. No domingo, Fernando Soto Rojas, um partidário de alto escalão de Chávez que lidera o braço legislativo do governo venezuelano, a Assembleia Nacional, rejeitou as especulações de que o presidente esteja lutando contra alguma forma de câncer. O próprio Hugo Chávez ofereceu poucos detalhes sobre a sua recuperação.

Em uma mensagem no Twitter na semana passada, o presidente disse simplesmente que sua filha, Rosines, bem como três netos, haviam ido visitá-lo. "Ah, que alegria receber este banho de amor", escreveu Hugo Chávez.

Enquanto isso, a escassez de informações sobre Chávez chamou a atenção no país para uma variedade de cenários, incluindo o de possíveis sucessores. Alguns na oposição, pensando nas eleições presidenciais do ano que vem, têm sugerido que Chávez pode estar em melhor estado de saúde do que muitas pessoas acreditam, enquanto prepara o regresso à Venezuela para fazer campanha à reeleição novamente.

Outros críticos estão preocupados com a possibilidade de que o governo possa adiar as eleições e estão vendo o destaque de Adán Chávez com uma mistura de fascinação e temor. Jonathan Jacubowicz, um cineasta venezuelano, disse que existem diferenças entre os irmãos Chávez, principalmente no fato de que Chávez trabalhou duro para criar para si a imagem de um líder democrático. "Isso fez com que ele escondesse um pouco a sua agenda radical, enganando com sucesso algumas das pessoas mais inteligentes do planeta", disse Jacubowicz. "Seu irmão nunca fingiu. Se Adán for presidente, vamos sentir falta de Hugo”.

*Por Simon Romero

    Leia tudo sobre: venezuelahugo chávezcirurgiacuba

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG