Assessor de Ahmadinejad acusa Dilma de arruinar relações com Irã

Após Brasil ficar de fora de giro latino-americano de Ahmadinejad, Itamaraty diz que laços entre países continuam 'bons'

The New York Times |

Os esforços do Irã para conseguir apoio político na América Latina, em um momento de crescente tensão internacional por causa do seu programa nuclear, parecem ter encontrado um obstáculo significativo no Brasil, a grande potência econômica da região.

O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, visitou quatro países da América Latina este mês, realizando encontros com vários dos críticos mais veementes dos Estados Unidos, mas não foi convidado a parar no Brasil . Depois disso, um de seus principais conselheiros atacou publicamente a presidenta do Brasil, Dilma Rousseff, dizendo que ela “destruiu anos de boas relações" entre os dois países

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AP
O presidente do Irã, Mahmoud Ahmadinejad, faz sinal da vitória após desembarcar na Venezuela (08/01)

"A presidenta brasileira tem destruído tudo o que Lula conseguiu", disse Ali Akbar Javanfekr, que já foi o principal assessor de imprensa de Ahmadinejad, em uma entrevista publicada na segunda-feira pelo jornal Folha de São Paulo. Ele comparou Dilma a seu antecessor e mentor político, Luiz Inácio Lula da Silva.

Lula visitou Teerã em 2010 numa tentativa de resolver a crise sobre o programa nuclear iraniano. Junto com o governo da Turquia, fez um acordo de troca de combustível para que o Irã pudesse enviar urânio pouco enriquecido ao exterior.

Este acordo falhou depois de ser rejeitado pelo governo Obama e de o Irã ter dito que planejava continuar a enriquecer urânio. Mesmo assim, as exportações do Brasil para o Irã aumentaram nos meses seguintes - em determinado momento em 2011, o Irã chegou a ultrapassar a Rússia como o maior mercado de exportação para a carne brasileira.

Nos últimos meses, no entanto, os laços comerciais entre os dois países têm sofrido certo desgaste. As exportações do Brasil para o Irã subiram de US$ 1,2 bilhão em 2009 para US$ 2,1 bilhão em 2010. Mas agora algumas empresas brasileiras reclamam que se tornou mais difícil obter licenças de importação iranianas, prejudicando o que antes era um mercado dinâmico para o Brasil.

"Desde outubro, notamos uma ruptura abrupta nas compras do Irã", disse Francisco Turra, presidente da União Brasileira de Avicultura. Ele disse que oficiais da Embaixada do Irã em Brasília e da Embaixada do Brasil em Teerã asseguraram seu grupo comercial de que as exportações brasileiras ainda são bem-vindas no Irã. Turra disse estar à espera de um novo relatório de estatísticas de exportação para determinar como proceder.

A opinião de Javanfekr, uma figura política influente embora polarizadora no Irã, representa um dilema para o Brasil à medida que o país tenta manter uma política externa pragmática, que lhe permite acesso a mercados importantes, enquanto evita confrontos.

No entanto, no ano passado, após a eleição de Dilma Rousseff, a sucessora escolhida por Lula, o Brasil defendeu uma medida da ONU para investigar alegações de abuso dos direitos humanos no Irã, uma iniciativa liderada por Washington. A decisão foi vista como uma mudança sutil da antiga postura de Lula em relação a Teerã.

Tovar da Silva Nunes, porta-voz do Ministério de Relações Exteriores do Brasil, se recusou a comentar as observações de Javanfekr.

Em vez disso, Nunes afirmou que os laços com o Irã permanecem "bons", algo refletido numa reunião realizada na ONU em setembro entre os ministros Antonio Patriota, do Brasil, e Ali Akbar Salehi, do Irã, e organizada a pedido dos iranianos. Além disso, Nunes disse que o Brasil continua "cético" sobre o uso de sanções para exercer pressão sobre o Irã.

Não se sabe se as afirmações de Javanfekr refletem a opinião de todo o governo iraniano. Embora exerça certa influência entre os principais conselheiros do presidente iraniano, tendo servido como líder da Agência de Notícias da República Islâmica, Javanfekr tem vários rivais dentro da liderança iraniana.

Um tribunal de Teerã recentemente o condenou a um ano de prisão por insultar o aiatolá Ali Khamenei, líder supremo do Irã, expondo o atrito entre Ahmadinejad e os conservadores do governo.

Em sua visita à América Latina este mês, Ahmadinejad visitou apenas países que mantém relações tensas com Washington e têm pouca influência regional: Venezuela, Nicarágua , Cuba e Equador . O itinerário não incluiu os maiores países da região: além do Brasil, México, Colômbia ou Argentina.

Os esforços do Irã para fazer novos amigos na América Latina também pareceu ganhar pouca força durante a visita. Com uma única exceção: em Manágua, capital da Nicarágua, Ahmadinejad se encontrou com Desi Bouterse, um traficante de drogas condenado que agora é presidente do minúsculo Suriname.

No entanto, o embaixador iraniano em Brasília, Mohsen Shaterzadeh, surpreendeu os jornalistas no sábado afirmando que Ahmadinejad planeja visitar o Brasil ainda este ano. Ele não mencionou uma data,e Nunes afirmou que nenhum pedido formal para uma visita foi feito até o momento.

Por Simon Romero

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