Assassinato de honra: tradição acima da lei e do amor no Iraque

Entre 1991 e 2007, mais de 12 mil mulheres foram mortas por casamentos proibidos no Curdistão; mudança na lei disfarça estatística

The New York Times |

Servindo pequenos copos de chá açucarado, Qadir Abdul-Rahman Ahmed contou a história de sua relação com seus vizinhos. Não era verdade, ele disse, que seus irmãos tinham ameaçado afogar sua sobrinha se ela tentasse se casar com o rapaz que vivia na rua vizinha.

"Nós não somos contra a humanidade", explicou. "Eu disse ao meu irmão, se ela quer casar você não pode detê-la".

Mas o casal nunca deveria ter se casado sem permissão. "A menina e o menino precisavam ser mortos", ele disse. "É uma questão de honra. Honra é mais importante para nós do que religião".

Os assassinatos de honra tem uma longa história no Iraque e na região semiautônoma do Curdistão. Mas, mesmo aqui, a história desse casal se destacava porque o homem foi morto e não a mulher, além do peso político das famílias em conflito.

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Sirwa Hama Amin com seu filho de quatro meses de idade, que recebeu o nome de Aram
Enquanto alguns legisladores iraquianos tentam reprimir o crime de honra, o caso – em que não houve prisões – também ilustra o quão difícil pode ser acabar com um código essencialmente tribal.

Entre 1991 e 2007, mais de 12 mil mulheres foram mortas em nome da honra no Curdistão, de acordo com Aso Kamal da Rede Doaa Contra a Violência. Os números do governo são muito menores e mostram um declínio nos últimos anos. Desde 2008, a lei curda ordena que um crime de honra seja tratado como qualquer outro homicídio, mas a prática continua e o crime é muitas vezes disfarçado para parecer suicídio.

Caso

Foi nesse clima que a sobrinha de Ahmed, Sirwa Hama Amin, se apaixonou por seu vizinho, Aram Jamal Rasool, em Dokan, em uma aldeia no norte do Iraque.

Em uma tarde recente na casa do pai de Rasool, Amin, 22 anos, mostrou fotos do seu casamento: um casal sorridente, vestido de maneira formal, a noiva não demonstrava nenhuma parte da tensão que agora marca o rosto da pálida mulher.

Amin e Rasool, 27 anos, cresceram com apenas uma estrada poeirenta entre si, em uma rua onde cada família ocupa uma sequência de casas tão juntas que os telhados quase se tocam. O pai de Rasool, Jamal Rasool Salih, 58 anos, um general reformado do Exército curdo, ajudou a família de Amin a mudar-se para Dokan do Irã em 1993 e as duas famílias se tornaram íntimas.

Como Salih, os irmãos e tios de Amin se juntaram ao Exército e à União Patriótica do Curdistão, partido político dominante da cidade. Um dos irmãos de Amin casou com a filha do general e tornou-se seu guarda-costas – o filho do general, Aram, era um visitante regular na casa de Amin.

Ainda assim, quando o casal se apaixonou alguns anos atrás, eles mantiveram sua paixão secreta, sabendo que sua família não aprovaria. Salih disse que considerava os parentes de Amin soldados indisciplinados e maldosos, que sempre atiravam nas pessoas. Parentes de Amin zombavam de Rasool porque ele mancava.

Provas

Os problemas começaram quando o irmão de Amin a pegou enviando uma mensagem de texto para Rasool em seu telefone celular. Na sociedade do Iraque, os telefones celulares e a internet permitiram que os amantes se comunicassem longe da censura de suas famílias. Mas essa liberdade tem um preço, disse Behar Rafeq, diretor do Centro de Acolhimento para Mulheres Ameaçadas em Erbil. Das 24 mulheres no abrigo, 15 tinham sofrido ameaças ou violência por causa de sua comunicação em telefones celulares ou pelo Facebook, disse Rafeq.

Amin disse que seus parentes do sexo masculino ameaçaram afogá-la e lhe tiraram o telefone.

Ahmed, tio de Amin, negou as ameaças. Se os dois pretendiam se casar, ele disse, a forma adequada seria que Salih, acompanhado de uma delegação de líderes tribais, pedisse a mão dela. Em vez disso, ele enviou representantes. "Se alguém não vem e pede respeitosamente, como você pode concordar com isso?", perguntou ele. Salih disse que também não queria o casamento.

Amin tornou-se cativa em sua casa. Um dos irmãos de Rasool, Rizgar Jamal Rasool, 36 anos, disse que quando visitou a casa, encontrou Amin chorosa e cansada, com o rosto inchado.

Romeu e Julieta

Amin e Aram Jamal Rasool ficaram desesperados, ela disse, e planejaram formas de se matar.

Em 2 de setembro de 2009, ela saiu furtivamente da casa de seus pais, andando pelos telhados das casas vizinhas até um Toyota Land Cruiser. Rasool estava esperando lá dentro, com uma granada que havia roubado de seu pai. "Eu disse: vamos nos matar", disse Amin. "Ele disse, 'Não, vamos fazê-lo apenas se eles nos acharem’”.

Em vez disso, o casal foi à polícia, explicando que eles haviam sido ameaçados porque queriam se casar. Rasool foi detido por posse de uma granada; Amin foi enviada a um abrigo para mulheres agredidas.

"Ele foi preso porque eu queria que ele fosse preso para sua própria segurança", disse Salih. "O dia em que fugiu, seu tio, um capitão militar, me ligou e disse: 'Eu vou queimar sua casa e matar todos vocês, se você não trouxer o casal de volta hoje".

O casal recorreu ao tribunal e duas semanas depois, após a apresentação dos documentos, eles se casaram. Embora a família de Amin tenha se oposto ao casamento, segundo ela, eles concordaram com uma trégua: se os noivos prometessem deixar Dokan e nunca mais voltar, seus parentes concordaram em não caçá-la.

Tragédia

Durante três meses e meio o casal viveu em Sulaimaniya, a uma hora de Dokan. Até que no dia 2 de janeiro, por volta das nove horas, Amin estava no banheiro quando ouviu tiros e seu marido, gritando o nome dela. Ela abriu a porta do banheiro e viu o marido coberto de sangue e um de seus irmãos apontando uma arma para ela.

"Só vi meu irmão, mas outra pessoa atirou em Aram", ela disse. Antes de a fumaça se dissipar, homens armados dispararam 17 balas no peito Rasool e quatro nas pernas e no quadril de Amin, disse Salih.

Segundo Ahmed, o irmão que fez os disparos foi Hama Hussein Amin, um soldado. Hama Hussein Amin negou ter matado seu cunhado, mas disse que pagou US$ 10 mil a um outro irmão e a um dos irmãos de Rasool para matar o casal. "Por que ela deveria viver depois que foi irresponsável a respeito da honra de sua família?" disse Hussein Hama Amin.

Sirwa Hama Amin estava grávida de dois meses na época.

Mudanças

As autoridades do Curdistão fizeram grandes progressos contra os assassinatos de honra, disse Omer Kurdo Abdulla, diretor do Diretório Geral de Rastreamento da Violência Contra a Mulher, uma agência governamental. "Todos os anos vemos uma diminuição nas estatísticas de violência contra as mulheres", ela disse.

Mas para as duas famílias, a morte não resolveu o conflito. A polícia não prendeu ninguém. Em vez disso, a União Patriótica do Curdistão, líderes tribais e clérigos uniram as famílias em uma sessão formal do Conselho diante de mais de 4 mil moradores.

Salih disse que foi pressionado pelo partido a perdoar os assassinos de seu filho e prometer não matá-los. A família de Amin foi obrigada a prometer não matá-la. As duas famílias forneceram relatos conflitantes sobre dinheiro ter sido trocado.

Seus parentes disseram tê-la renegado, mas que não irão prejudicá-la. "Que Deus a mate ", disse Hussein Hama Amin. "Nós não vamos matá-la".

Destino

Na sala de estar de Salih, Amin brincava com seu filho de 4 meses de idade, batizado de Aram em homenagem a seu marido. Por costume curdo ela está agora desgraçada e imprópria para o casamento.

Ela vive a poucos metros da família que a colocou para fora, em uma casa cheia de armas, com medo que seus parentes irão tentar matá-la. Quando sai de casa, ela é escoltada por cunhados armados.

Salih continua amargurado com seus vizinhos, o partido e os líderes tribais que se recusaram fazer qualquer prisão. "Eu sou uma pessoa poderosa", ele disse. "Eu poderia matá-los. Mas eu não vou". "Eles deveriam ser presos, mas em vez disso recebem salários. Não há lei".

*Por John Leland e Namo Abdulla

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