As três questões do Oriente Médio

O conflito, a morte e a destruição em Gaza são dolorosos de se assistir. Mas é tudo muito familiar. É a última versão da famosa peça no Oriente Médio moderno, que, se pudesse receber um nome, seria chamado de: ¿De quem é esse hotel? Os judeus podem se hospedar nele? Não deveríamos explodir o bar e substituí-lo por uma mesquita?¿.

The New York Times |

Isto é, Gaza é uma pequena versão de três grandes esforços que estão sendo feitos desde 1948: 1) Quem será o grande poder da região? ¿ Egito? Arábia Saudita? Irã? 2) Deveria haver um Estado judeu no Oriente Médio e, caso aconteça, em quais termos palestinos? E 3) Quem irá dominar a sociedade árabe ¿ os islâmicos que são intolerantes a outras religiões e querem tirar brecar a modernidade ou os modernos que querem abraçar o futuro que um árabe-muçulmano enfrenta? Vamos olhar para cada uma das opções.


A quem pertence esse hotel?

A luta pela hegemonia no mundo árabe moderno é tão velha quanto o Nasser do Egito. Mas o que é novidade atualmente é que iranianos não-árabes se tornaram uma concorrência para a preferência ¿ desafiando o Egito e a Arábia Saudita. O Irã usou com muita habilidade seu suporte militar ao Hamas e ao Hezbollah para criar uma força armada de foguetes contra o norte de Israel e suas fronteiras do leste. Isso permite que Teerã pare e comece o conflito entre Israel e palestinos por escolha própria e que ele coloque si mesmo como um verdadeiro protetor dos palestinos, em oposição aos regimes árabes mais fracos.

A Gaza que Israel deixou em 2005 fazia fronteira com o Egito. A Gaza na qual Israel acabou de entrar, atualmente, faz fronteira com o Irã, disse Mamoun Fandy, diretor de programas do Oriente Médio no Instituto Internacional de Estudos Estratégicos. O Irã se tornou o principal Estado de confronto. Eu não tenho certeza de que podemos falar da paz árabe-israelense ou da iniciativa de paz árabe. Devemos olhar para a iniciativa iraniana. Por enquanto, toda a noção de trazer a paz entre os árabes e israelenses, provavelmente, terá de ser mudada.

Os judeus podem se hospedar aqui?

O Hamas rejeita qualquer reconhecimento sobre Israel. Em contraste, a autoridade palestina liderada pelo Fatah, que controla a Margem Ocidental, reconhece Israel ¿ e vice-e-versa. Se você acredita, como eu, que apenas uma solução possível é que haja dois Estados em um território, com os palestinos tomando conta de toda a Margem Ocidental, Gaza e setores árabes do oeste de Jerusalém, então você deve torcer pelo enfraquecimento do Hamas.

Por quê?

Porque nada prejudicou mais os palestinos do que a estratégia de culto à morte do Hamas de transformar jovens palestinos em homens-bomba. Porque nada deixaria um acordo de paz mais distante do que se a exigência do Hamas em substituir Israel por um Estado islâmico se tornasse a posição palestina na negociação. E porque os ataques do Hamas em cidades no sul de Israel estão destruindo a solução citada anteriormente, ainda mais do que os assentamentos desastrosos e impulsivos de Israel.

Israel provou que pode e irá acabar totalmente com os assentamentos, como foi feito em Gaza. Os ataques do Hamas com foguetes afirmam uma ameaça irreversível. Eles dizem para Israel: A partir de Gaza, podemos atingir o sul de Israel. Se conseguirmos a Margem Ocidental, podemos disparar, e bem de perto, contra o aeroporto internacional de Israel ¿ a qualquer hora, em qualquer dia, de agora até a eternidade. Quantos israelenses iriam arriscar abrir mão da Margem Ocidental, dada essa nova ameaça?

Devemos explodir o bar e substituí-lo por uma mesquita?

O desejo do Hamas em acabar com a secular organização Fatah em Gaza, em 2007, é parte de uma guerra civil na região entre islâmicos e modernistas. Na semana em que Israel dividiu Gaza em partes, homens-bomba islâmicos mataram quase 100 iraquianos ¿ primeiro, um grupo de líderes tribais em Yusufiya, que estavam trabalhando na reconciliação entre xiitas, sunitas e curdos; e, segundo, principalmente mulheres e crianças que estavam reunidas em um santuário xiita. Essas mortes em massa sem propósito não levantou nenhum protesto na Europa ou no Oriente Médio.

Atualmente, Gaza é basicamente iniciante em qualquer uma dessas lutas, disse Martin Indyk, ex-conselheiro em assuntos de Oriente Médio na administração de Clinton, cujo novo livro, Innocent Abroad: An Intimate Account of American Diplomacy in the Middle East acabou de ser publicado. Esse pequeno pedaço de terra, Gaza, tem potencial para eclodir todos esses temas e apresenta um grande problema para Barack Obama em seu primeiro dia.

O grande potencial do presidente eleito para os EUA, apontou Indyk, também éuma grande ameaça para os radicais islâmicos ¿ porque seus discursos exercem enorme atração sobre os árabes. Por oito anos, o Hamas, o Hezbollah e a Al-Qaeda têm surfado em uma onda de raiva antiamericana gerada por George W. Bush. E essa onda expandiu muito o apoio aos grupos.

Não há dúvida de que tais organizações e também o Irã estão esperando para usar o conflito de Gaza para transformar Obama em Bush. Eles sabem que Barack Hussein Obama deve ser visto com um novo Bush ¿ para manter os EUA e seus aliados árabes na defensiva. Obama tem que manter um olho no prêmio. Seu objetivo ¿ e o objetivo dos EUA ¿ tem que ser uma afirmação em Gaza que elimine as ameaças dos foguetes do Hamas e abra a economia de Gaza para o mundo, sob uma supervisão internacional confiável. Isso é o que irá servir os interesses americanos, moderando as três lutas e creditando-lhe respeito.


Por THOMAS L. FRIEDMAN



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