As meninas de Obama ganham 15 minutos de fama

Durante a campanha de 2004, o NYT me enviou para cobrir a campanha de John Edwards à vice-presidência. Logo que ocupei o meu assento no avião da campanha em algum lugar de Ohio, todo nervoso e sem modos, o filho de 4 anos de John Edwards apareceu chorando vindo da ala do Serviço Secreto e se dirigindo para a parte de trás do avião com uma faca de borracha, retalhado o ar e gritando ¿Eu vou matar meu pai.¿

The New York Times |

Eu, quieto, me assustei, mas outros jornalistas presentes apenas sorriram uns para os outros, e ninguém disse uma palavra sobre isso mais tarde, nem nas reportagens nem durante o vôo. Como um turista no trem, perguntei a uma jornalista veterana o que acontecia.   

Essas crianças não aparecem por causa disso. Elas estão aqui só pela viagem, e nós não vamos jogá-las em baixo de um ônibus, ela disse. A campanha sabe disso.

Pensei nisso quando o senador Barack Obama permitiu que suas filhas, Malia, 10, e Sasha,7, fossem entrevistadas, juntos com a sua mulher, Michelle, no programa Access Hollywood, um programa de entretenimento. A antiga concepção voou pelos ares, em particular porque o candidato Democrata delimitou fronteiras claras ao redor da privacidade de sua família e depois ultrapassou os próprios limites.

A entrevista em si, transmitida semana passada, não vai transformar a democracia ocidental.

Crianças na mídia

Nós aprendemos que o candidato não gosta de doces e é um pouco desleixado e deixa sempre suas espalhadas quando volta para casa, e que Sasha não pensa muito sobre a oratória do pai, que tem muitos outros pontos fracos. Blá blá blá, disse a garota, fazendo movimentos com as mãos para imitar a tendência do pai em mostrar muito amor ao microfone.  

Ambas as filhas, aparentemente internalizaram o dom natural da mãe de fazer piada sobre o homem por trás do mito. Malia, que celebrava o seu aniversário de 10 anos no dia da entrevista, 4 de julho em Montana, mencionou que seu pai, sempre candidato, assusta seus amigos ao tentar trocar aperto de mãos com eles.


A família Obama durante as comemorações de 4 de julho / AP

"Eu não faria novamente"

No dia seguinte a entrevista, muitos profissionais da mídia questionaram a maneira amigável como as entrevistadas foram tratadas ¿ eles estavam aparentemente decepcionados por Malia não ter sido pressionada sobre a diplomacia multilateral versus unilateral com a Coréia do Norte -  e a decência sobre a decisão de Obama.

Eles estão entristecidos principalmente porque eles não entenderam a situação, e deixaram passar resultados usuais da moralização dos jornalistas ¿ neste caso sobre a ética de colocar crianças nos holofotes da mídia e sobre a superficialidade da mídia tablóide.

Obama caiu em si quando Matt Lauer chamou sua atenção seriamente no programa Today: senador, e se o senhor tivesse que fazer tudo de novo?

Se ele respondesse de maneira tola e eleitoral, ele diria, eu teria feito isso no Today, assim vocês estariam me cumprimentando ao invés de pegaram no meu pé. Mas ao contrário disso, ele disse firmemente: eu não faria isso novamente.

Mas o jogo, pelo menos nesse quesito, não mudou muito. Existem exemplos de excesso na cobertura da família presidencial ou daquelas que concorrem ao cargo. Poucos desafiaram o senador John McCain a usar ou mesmo se referir ao seu filho que serviu no Iraque.    

Tirando proveito

Cokie Roberts, analista política veterana para a rede ABC e NPR, cresceu como a filha de Hale Boggs, o líder da maioria do governo, e acredita que um pouco de holofote não é um grande problema.

Essa fato não fez de mim uma assassina, disse Roberts. Minha mãe sentiu que, com todo o sacrifício de ter meu pai na política ¿ viajar o tempo todo, estar ausente, não ganhar muito dinheiro ¿ por que não tirar proveito disso? 

Malia estava mais que preparada para o momento, emocionada em ver sua mãe na revista People junto com pessoas importantes como Angelina Jolie. Nós estamos sempre procurando por jovens leitores, então foi um momento agradável, disse Larry Hackett, gerente da revista People.

Por DAVID CARR

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