Artigo: A China no lugar dos EUA nos vazamentos do WikiLeaks

Se Pequim tivesse sistema parecido e documentos vazados por site, diplomatas contariam vantagens da China em relação aos EUA

The New York Times |

Enquanto os segredos do WikiLeaks estampavam as capas dos jornais americanos, eu não pude deixar de pensar: e se a China tivesse um sistema parecido e nós pudéssemos ver o que sua embaixada em Washington relata sobre os Estados Unidos? Eu suspeito que o dossiê diria o seguinte:

Da Embaixada da República Popular da China em Washington ao Ministério de Negócios Estrangeiros de Pequim, CONFIDENCIAL / Assunto: os Estados Unidos de hoje.

As coisas estão indo bem para a China aqui. Os Estados Unidos continuam a ser um país profundamente polarizado politicamente, o que é certamente útil para o nosso objetivo de ultrapassá-los como a economia e o país mais poderoso do mundo. Mas nós estamos particularmente otimistas porque os americanos estão polarizados nas coisas erradas.

Há uma deliberada autodestruição no ar, como se os EUA tivessem todo o tempo e o dinheiro do mundo para a politicagem. Brigam por coisas como – não estamos inventando isso – como e onde um oficial de segurança de aeroporto pode tocá-los. Eles estão brigando – ficamos felizes em relatar – a respeito do mais recente tratado de redução de armas nucleares com a Rússia. Parece que os republicanos estão tão interessados em enfraquecer o presidente Barack Obama que vão fugir de um tratado que teria promovido o reforço da cooperação russo-americana em questões como o Irã. E já que tudo o que aproxima a Rússia e a América pode acabar nos isolando, somos gratos ao senador Jon Kyl, do Arizona, por colocar os nossos interesses à frente daqueles dos Estados Unidos e bloquear no Senado a ratificação do tratado. O embaixador convidou Kyl e sua esposa para jantar no restaurante chinês Mr. Kao para elogiá-lo por sua firmeza na defesa dos interesses dos EUA (leia-se: os nossos).

Os americanos tiveram recentemente o que eles chamam de uma "eleição". Pelo que conseguimos entender, isso envolve um parlamentar tentando arrecadar mais dinheiro do que os outros (de empresas que deveriam regular) para que possa contar mentiras maiores na TV com mais frequência do que o outro antes que esse o faça. Isso nos deixa aliviados. Isso significa que os Estados Unidos não farão nada de especial para corrigir seus graves problemas estruturais: um déficit explosivo, uma decadente atuação dos educadores, uma infraestrutura em declínio e uma menor imigração de novos talentos.

O embaixador recentemente pegou o que os americanos chamam de um trem rápido – o Acela – de Washington a Nova York. Nosso trem-bala usado entre Pequim e Tianjin teria feito a viagem em 90 minutos. Ele levou três horas – e não houve atraso! Ao longo do caminho o embaixador usou seu telefone celular para ligar para seu escritório na embaixada e, em uma hora, a ligação caiu 12 vezes – mais uma vez, não estamos inventando isso. Temos uma piada na embaixada: "Quando alguém te liga da China parece que a pessoa está na porta ao lado. E quando alguém te liga da porta ao lado na América, parece que estão ligando da China!" Aqueles de nós que trabalharam na embaixada da China em Zâmbia muitas vezes dizem que o serviço de telefonia celular da África é melhor do que o dos Estados Unidos.

Mas os americanos estão indiferentes a isso. Eles viajam ao exterior tão raramente que não veem o quanto estão ficando para trás. É por isso que nós, na embaixada, achamos engraçado que os americanos estejam brigando sobre quão "excepcionais" eles são. Mais uma vez, não estamos inventando isso. Na primeira página do Washington Post de uma segunda-feira havia um artigo que dizia que os republicanos Sarah Palin e Mike Huckabee estão denunciando Obama por negar o "excepcionalismo americano". Os norte-americanos substituíram o trabalhar duro para ser excepcional, por discutir sobre como ainda são excepcionais. Eles não parecem compreender que você não pode declarar-se "excepcional", apenas os outros podem conceder esse adjetivo a você.

Política externa

Na política externa, não vemos chances de Obama desvincular as forças dos Estados Unidos do Afeganistão. Ele sabe que os republicanos vão chamá-lo de covarde se o fizer, portanto a América continuará a gastar US$190 milhões por dia no país. Assim, os Estados Unidos não terão os meios militares para desafiar-nos em qualquer outro lugar, em especial na Coreia do Norte, onde os nossos amigos lunáticos continuam a provocar a América a cada seis meses para que os americanos tenham que vir e pedir-nos para acalmar a situação. Quando os americanos deixarem o Afeganistão, os afegãos irão certamente odiá-los tanto que as empresas chinesas de mineração que já operam no país serão capazes de comprar todo o resto de seus minerais raros.

A maioria dos republicanos recém-eleitos para o Congresso não acredita no que seus cientistas lhes dizem sobre a mudança climática causada pelo homem. Os políticos da América são geralmente advogados – não engenheiros ou cientistas como os nossos – então eles só dizem coisas malucas sobre ciência e ninguém lhes chama atenção sobre isso. Isso é muito bom. Isso significa que eles não vão apoiar qualquer projeto de lei para incentivar a inovação em energia limpa, que é central para nosso plano para os próximos cinco anos. E isso garante que nossos esforços para dominar a energia solar, eólica, nuclear e as indústrias de automóveis elétricos não vão ser desafiados pelos Estados Unidos.

Finalmente, um número recorde de estudantes secundários dos Estados Unidos está estudando chinês, o que deve garantir um fornecimento estável de mão de obra barata que fala a nossa língua aqui, conforme usamos os nossos US$ 2,3 trilhões em reservas para silenciosamente comprar fábricas nos Estados Unidos. Em suma, as coisas estão indo bem para a China aqui.

Felizmente, os americanos não podem ler nossos dossiês diplomáticos.

Embaixada em Washington.

*Por Thomas L. Friedman

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