Arte sobrevive à guerra com Hitler e vai para museu na Alemanha

Exposição com peças encontradas no subterrâneo de Berlim reaviva obras hostilizadas na época do 3º Reich

The New York Times |

O passado ainda encontra espaço nas manchetes alemãs, ocasionalmente como uma bomba que não detonou, encontrada em algum lugar. Mas desta vez ele reaparece como arte.

Em janeiro operários que escavavam uma nova estação de metro perto da prefeitura de Berlim descobriram um busto de bronze de uma mulher, enferrujado, sujo e quase irreconhecível. Pesquisadores descobriram que o busto era um retrato de Edwin Scharff, um modernista alemão quase esquecido que viveu por volta de 1920.

O fato parecia uma anomalia até agosto, quando outras esculturas foram encontradas nas proximidades: Garota de Pé, de Otto Baum; Dançarina, de Marg Moll e os restos quebrados de uma cabeça de Otto Freundlich. A escavadeira também resgatou outro fragmento, uma cabeça diferente, pertencente a Mulher Grávida, de Emy Roeder. E em outubro outro lote foi encontrado.

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Visitante olha escultura de 1930, no Museu Neues, em Berlim
As 11 esculturas provaram ser sobreviventes da campanha de Hitler contra o que os nazistas notoriamente chamaram de "arte degenerada". Várias das obras, segundo registros, foram apreendidas de museus alemães em 1930, exibidas na exposição Arte Degenerada e, em alguns casos, também exploradas por um filme nazista de 1941, uma comédia antisemita que criticava a arte moderna. Seu último paradeiro conhecido foi o armazém do Reichspropagandaministerium (Ministério de Propaganda da época), que organizou uma exposição. Em seguida, as esculturas desapareceram.

Como elas foram parar no subterrâneo perto da prefeitura ainda é um mistério a ser desvendado, mas que parece envolver um herói no melhor estilo Oskar Schindler. Enquanto isso, uma exposição modesta das descobertas foi organizada e, recentemente, inaugurada no Museu Neues, onde fica a coleção arqueológica de Berlim, o local perfeito para essas obras.

Como as esculturas, o museu foi recuperado recentemente, após anos em ruínas de guerra. Na reconstrução engenhosa do arquiteto David Chipperfield o prédio tornou-se um monumento à reconstrução da história alemã, dando testemunho, através da prova de todo o dano feito anteriormente a ele, a uma violência que nem o tempo nem várias gerações têm sido capazes de apagar.

Comoção

Mal posso expressar quão comovente é a exposição, e de maneira tão inesperada. O seu efeito acaba por ter maior proporção do que os próprios objetos descobertos, que são, em termos estritamente estéticos, bons, mas não extraordinários. São obras de um quase cubismo ou expressionismo, a maioria não muito maior do que um metro de altura, e várias delas restauradas recentemente, mas ainda cheias de cicatrizes, inspirando uma óbvia analogia humana.

O poeta e sobrevivente do Holocausto Paul Celan expressou tudo isso em um contexto diferente, com a metáfora de garrafas atiradas ao mar "no litoral do coração", que agora, finalmente, chegam a terra. Elas são como os mortos, estas esculturas, que sempre voltam para nós, como fantasmas.

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Como obras de arte foram parar no subterrâneo perto da prefeitura ainda é um mistério a ser desvendado
Em um país que por décadas tem sido profundamente diligente na divulgação de seus próprios crimes e em enquadrá-los no contexto da história, faz sentido que a exposição compartilhe um pátio com frisos assírios de uma época que há muito tempo fez de um regime totalitário uma arte e com um friso antigo descrevendo a erupção do Vesúvio, que preservou para a posteridade objetos de valor inestimável, enterrados nas cinzas, que encontraram refúgio em instituições como o Museu Neues.

Arqueólogos determinaram que os objetos provavelmente estavam guardados no número 50 da rua Koning, em frente à prefeitura. O prédio pertencia a uma mulher judia, Edith Steinitz, e vários advogados judeus foram listados como seus inquilinos em 1939, mas seus nomes desaparecem do registro em 1942, quando a casa tornou-se propriedade do Reich. Entre seus ocupantes posteriores, segundo investigadores alemães, o advogado Erhard Oewerdieck é o candidato mais provável a ter escondido a arte.

Memorial

Oewerdieck não é amplamente conhecido, mas é lembrado no Yad Vashem, o memorial do Holocausto em Israel. Em 1939, ele e sua esposa deram dinheiro para uma família de judeus fugir para Xangai. Ele também escondeu um empregado, Martin Lange, em seu apartamento. Em 1941 ele ajudou o historiador Eugen Taubler e sua esposa a fugir para os Estados Unidos, preservando parte da biblioteca de Taubler durante toda a guerra. E ele também defendeu Wolfgang Abendroth, de esquerda e oponente dos nazistas, ao escrever-lhe uma recomendação de emprego quando isso colocava em risco sua própria vida.

A teoria atual é que, quando o fogo dos ataques aéreos dos Aliados em 1944 consumiu o número 50 da rua Koning, o conteúdo do escritório de Oewerdieck foi soterrado. Testes estão sendo feitos em cinzas de restos incinerados de pinturas e esculturas de madeira. Ainda não se sabe como a arte perdida chegou às mãos de Oewerdieck.

Mas pelo menos agora ela está de volta. O busto de Scharff, feito nos moldes de uma atriz chamada Anni Mewes, traz à mente obras egípcias no Museu Neues. Hagar, de Karl Knappe, um bronze de 1923, torcido como cordas trançadas, foi deixado com sua pátina de ferrugem verde e entulho, o que o torna quase impossível de decifrar, excepto como prova de seu destino.

Por outro lado, Cabeça, feita em 1925 por Freundlich, um trabalho de terracota vitrificada, retorcida como uma velha oliveira, perde pouco de seu poder por estar quebrado. Os nazistas apreenderam a obra de Freundlich de um museu em Hamburgo, em 1937, então, seis anos mais tarde, na França, prenderam o próprio artista e o mandaram a Majdanek, o campo de concentração na Polônia onde ele foi assassinado no dia em que chegou.

Do outro lado da rua, galerias contemporâneas expõem o tipo de obra que os nazistas buscavam erradicar, mas que hoje dá a Berlim sua identidade atual como capital do que é “descolado”. Esta é uma cidade que se assemelha às massas jovens que gravitam por ela: sempre em estado de antecipação, desconfiada, insegura e indecisa, geralmente pobre, mas otimista quanto ao futuro, com a diferença que a Alemanha não pode escapar de seu passado.

Mais adiante, a atual exposição do Museu Histórico Alemão é sobre Hitler, a versão atual de um programa "degenerado", que busca alertar os presentes sobre os problemas de sucumbir ao que a lei alemã declara ser moralmente repreensível. Como pode qualquer alemão decente ter se envolvido? Questiona a exposição.

Essa costumava ser a pergunta feita pela exposição "degenerada" dos nazistas sobre a arte moderna. Mais alemães visitaram aquela exposição do que a atual, composta por uma arte moderna aprovada. Talvez Oewerdieck estivesse entre aqueles que foram à exposição e viram estas esculturas. Em todo caso, a Alemanha de hoje as salvou e organizou esta exposição. A redenção, às vezes, chega tarde e em pequenas doses.

*Por Michael Kimmelman

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