Argentina lida com trauma de ter sido criada por homem que matou seus pais

Em estágio final, julgamento pode provar que militares argentinos roubaram bebês durante a ditadura

The New York Times |

Victoria Montenegro lembra de uma infância cheia de discussões na mesa de jantar em sua casa em Buenos Aires, Argentina. O tenente-coronel Hernan Tetzlaff, chefe da família, costumava contar as operações militares das quais tinha participado e em que "subversivos" foram torturados ou mortos. As discussões muitas vezes terminavam com ele "batendo o revólver sobre a mesa", disse ela.

Apenas após uma busca incessante de um grupo de direitos humanos, uma análise de DNA e quase uma década é que Victoria, 35 anos, percebeu que Tetzlaff não era seu pai biológico – nem o herói que dizia ser.

Ele foi o responsável pelo assassinato de seus pais verdadeiros e a criou ilegalmente como sua própria filha.

Tetzlaff confessou a ela o que tinha feito em 2000. Mas apenas depois de testemunhar em um julgamento este ano ela finalmente enfrentou seu passado, abandonando de uma vez por todas o nome que Tetzlaff e sua esposa tinham lhe dado – Maria Sol – depois de falsificarem os registros de seu nascimento.

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Victoria Montenegro, sequestrada quando bebê e criada por homem que matou seus pais, posa para foto em Buenos Aires, Argentina (05/09)

O julgamento, que está na fase final, pode provar pela primeira vez que os principais líderes militares da Argentina se envolveram em um plano sistemático para roubar bebês de supostos inimigos do governo.

Jorge Rafael Videla, que comandou os militares durante a ditadura argentina, é acusado de liderar o esforço para tirar os bebês de mães presas em centros clandestinos e entregá-los a oficiais militares ou de segurança, ou mesmo a terceiros, na condição de que não revelassem suas verdadeiras identidades. Videla é um dos 11 oficiais em julgamento por 35 atos de apropriação ilegal de menores.

O julgamento também está revelando a cumplicidade de civis, incluindo juízes e oficiais da Igreja Católica.

O rapto de um número estimado de 500 bebês foi um dos capítulos mais traumáticos da ditadura militar que governou a Argentina de 1976 a 1983. O esforço frenético de mães e avós para localizar seus filhos desaparecidos nunca teve fim. Foi a única questão que os presidentes civis eleitos depois de 1983 não perdoaram dos militares, mesmo que anistia tenha sido concedida por outros crimes de “guerra".

"Mesmo os muitos argentinos que consideraram a anistia um mal necessário não estavam dispostos a perdoar os militares por isso", disse José Miguel Vivanco, diretor para Américas do grupo Human Rights Watch.

Na América Latina, os roubos de bebês foram em grande parte únicos na ditadura da Argentina, disse Vivanco. Não houve tal esforço na ditadura de 17 anos do vizinho Chile.

Uma diferença notável foi o papel da Igreja Católica. Na Argentina, a igreja em grande parte apoiou o governo militar, enquanto no Chile ela confrontou o governo do general Augusto Pinochet e procurou expor seus crimes contra os direitos humanos, disse Vivanco.

Padres e bispos da Argentina justificavam seu apoio ao governo por questões de segurança nacional e defendiam o rapto de crianças como forma de garantir que elas não fossem "contaminadas" por inimigos esquerdistas das Forças Armadas, disse Adolfo Perez Esquivel, um ganhador do Prêmio Nobel e defensor dos direitos humanos que investigou dezenas de desaparecimentos e testemunhou no julgamento no mês passado.

Montenegro sustentou: "Eles achavam que estavam fazendo algo cristão ao nos batizar e nos dar a chance de sermos pessoas melhores do que nossos pais. Eles pensavam e acreditavam que estavam salvando nossas vidas."

Oficiais da igreja na Argentina e no Vaticano se recusaram a responder perguntas sobre seu conhecimento ou envolvimento nas adoções secretas.

Por muitos anos, a busca pelas crianças desaparecidas foi em grande parte inútil. Mas isso mudou na última década graças ao maior apoio do governo, à tecnologia forense avançada e a uma crescente base de dados genéticos compilada em anos de testes. A mais recente adotada a recuperar sua identidade real, Laura Reinhold Siver, elevou o número total de recuperações para 105 em agosto.

Ainda assim, o processo para aceitar a verdade pode ser longo e tortuoso.

Durante anos, Victoria rejeitou os esforços dos oficiais e advogados para descobrir sua verdadeira identidade. Desde tenra idade, ela recebeu uma "educação ideológica forte" de Tetzlaff, um oficial do Exército em uma prisão secreta.

Se ela pegasse um panfleto de esquerda na rua, "ele sentava comigo durante horas para me dizer o que os subversivos haviam feito com a Argentina", disse ela.

Ele a levou a um centro de detenção onde passou horas discutindo as operações militares com seus colegas, "como eles haviam matado e torturado pessoas", disse ela.

"Cresci pensando que houve uma guerra na Argentina e que os nossos soldados tinham ido para a guerra para garantir a democracia", disse ela. "E que não haviam pessoas desaparecidas, que era tudo uma mentira."

Ela disse que ele não permitia que ela visse filmes sobre a "guerra suja", incluindo "A História Oficial", o filme de 1985 sobre um casal de classe média alta que criou uma menina tirada de uma família que desapareceu.

Em 1992, quando tinha 15 anos, Tetzlaff foi detido brevemente por suspeita de roubar bebês. Cinco anos depois, um tribunal informou Victoria de que ela não era filha biológica de Tetzlaff e sua esposa. "Eu ainda estava convencida de que era tudo uma mentira", disse ela.

Em 2000, Victoria ainda acreditava que sua missão era manter Tetzlaff fora da prisão. Mas ela cedeu e deu uma amostra de seu DNA. Um juiz então lhe deu a notícia chocante: o teste confirmou que ela era filha biológica de Hilda e Roque Montenegro, que tinham sido ativos na resistência. Ela aprendeu que ela e os Montenegros foram sequestrados quando ela tinha 13 dias de idade.

Durante o jantar, Tetzlaff confessou a Victoria e seu marido: ele tinha chefiado a operação em que o casal Montenegro foi torturado e morto, e a tomou em maio de 1976, quando ela tinha 4 meses.

"Não consigo dizer mais nada", disse ela, incomodada com a memória do jantar.

Em 2001, um tribunal condenou Tetzlaff de se apropriar ilegalmente de Victoria. Ele foi para a prisão e ela, ainda acreditando que suas ações durante a ditadura tinham justificativa, o visitou semanalmente até sua morte em 2003.

Lentamente, ela conheceu a família de seu pais biológicos.

"Isso foi um processo, não foi um momento ou um dia em que tudo foi apagado e eu comecei de novo", disse ela. "Não somos máquinas que podem ser reiniciadas."

Coube a ela dizer a seus três filhos que Tetzlaff não era o homem que eles achavam que era. "Ele tinha dito às crianças que seu avô era um soldado corajoso, e eu tive que dizer-lhes que seu avô era um assassino", disse ela.

Quando ela testemunhou no julgamento, usou seu nome original, Victoria, pela primeira vez. "Foi muito libertador", disse ela.

Victoria diz que ainda não odeia o casal Tetzlaff. Mas "o coração não sequestra, não esconde, não machuca e ele não mente para você toda a sua vida", afirmou. "O amor é outra coisa."

Por Alexei Barrionuevo

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