Áreas próximas a usinas nucleares exigem plano de pronta retirada

Desastres como o de Three Mile Island, Fukushima e até mesmo com o furacão Katrina ensinam necessidade de rapidez e foco

The New York Times |

Quando a usina nuclear de Three Mile Island, situada às margens do rio Susquehanna, parecia à beira de uma fusão completa, em março de 1979, o governador da Pensilvânia, Richard L. Thornburgh, ordenou a um assessor que verificasse os planos de retirada previstos para a região.

O assessor voltou pálido. O condado de Dauphin, na margem leste do rio, planejava enviar sua população para o oeste, cruzando a ponte Harvey Taylor, em busca de segurança.

AFP
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“Até aí tudo bem. Mas o condado de Cumberland, na margem oeste do rio, adotou um plano de evacuação que canalizaria todo o tráfego existente para o leste, pela mesma ponte Harvey Taylor. Então você pode imaginar...”, lembrou Thornburgh recentemente.

Quase 250 mil pessoas seriam enviadas em direções opostas, passando pela mesma ponte estreita. Thornburgh corrigiu rapidamente os planos, porém logo apareceram mais problemas – como acontece em muitos desastres. Como os japoneses já sabem, a ciência por trás da remoção de milhares, às vezes milhões, de uma área de risco para locais seguros é, na melhor das hipóteses, incerta. Além disso, as lições aprendidas com um desastre podem tanto prejudicar como ajudar nos próximos.

Por exemplo, um número insuficiente de pessoas abandonou Nova Orleans antes da chegada do furacão Katrina, em 29 de agosto de 2005, e mais de 1,8 mil pessoas morreram. Pelo menos parte da culpa pode ter sido do prefeito de Nova Orleans, Ray Nagin, que decidiu esperar até um dia antes da chegada do furacão para ordenar a evacuação obrigatória da região. 

A lição do Katrina? Retire todos rapidamente.

Três semanas depois, uma segunda grande tempestade, o furacão Rita, avançou pela Costa do Golfo. O prefeito de Houston, Bill White, buscando evitar os erros que devastaram Nova Orleans, ordenou que todos deixassem a cidade imediatamente. O tempo de espera acabou, informou à população.

Em poucas horas, as estradas interestaduais na região de Houston estavam paradas devido ao congestionamento. Mais tarde, quando as evacuações foram ordenadas para as áreas de maior risco, os moradores não puderam partir porque as estradas já estavam lotadas de carros das áreas de menor risco. Algumas pessoas passaram dias em seus automóveis.

A polícia mudou o sentido do tráfego das pistas, mas isso levou horas. Mais pessoas morreram ou sofreram problemas de saúde por causa da evacuação mal planejada do que pelo furacão em si.

A lição do Rita? Limitar a retirada apenas às áreas de maior risco e ter planos prontos para mudar o fluxo de tráfego nas artérias principais.

Planejamento

Cada uma das 104 usinas nucleares dos Estados Unidos é obrigada a manter planos detalhados de evacuação e incidentes antes de começar a operar. Os planos são revistos pelas autoridades federais, estaduais e locais. Mas problemas sempre vão surgir.

Brian Wolshon, diretor do Centro de Evacuação e Transporte da Costa do Golfo, diz que analisou os planos de emergência de um condado e todos os detalhes estão em ordem. “É um relatório maravilhoso, com planos para a retirada de idosos de centros de repouso e até de hospitais. Há contratos assinados com empresas de ônibus e ambulâncias”, afirma Wolshon, que também é professor da Universidade Estadual da Louisiana. Mas esse mesmo fornecedor de baixo custo firmou contrato idêntico com o condado vizinho, sendo que só há capacidade para evacuar um dos condados , explica.

De fato, os órgãos de emergência só começaram a perceber que as evacuações geralmente são eventos regionais ou interestaduais há alguns anos. A evacuação de praticamente qualquer cidade americana exige uma séria preparação e recursos das cidades vizinhas. Além disso, alguns acontecimentos exigem muitos recursos ou um planejamento complexo demais.

“O que aconteceria se soasse um alerta de tsunami no Oceano Atlântico e tivéssemos de evacuar a costa leste? Estamos falando de dezenas de milhões de pessoas. Onde colocaríamos estas pessoas? Como seriam retiradas de lá?”, questiona Wolshon.

Os residentes situados a um raio de 16 quilômetros de uma usina nuclear deveriam receber planos de evacuação. Aqueles que moram perto da usina de Indian Point, em Buchanan, Nova York, recebem esses planos anualmente, segundo as autoridades locais.

Os planos também são publicados nos sites das prefeituras. Além disso, as cidades ao redor das usinas mantêm estoques de iodeto de potássio. O iodeto de potássio ajuda a proteger as pessoas, pois evita que a glândula tireoide receba o iodo radioativo, que pode causar câncer.

Entretanto, Kelly Classic, médica da Clínica Mayo e porta-voz da Health Physics Society, alerta que as pessoas não devem tomar essas pílulas a menos que sejam instruídas a fazê-lo. Segundo ela, o iodeto de potássio pode fazer mal às pessoas com alergia a frutos do mar ou problemas de rim, tireoide ou coração, e seus benefícios têm vida curta. As autoridades federais de saúde alertaram recentemente os consumidores sobre as pílulas vendidas pela internet, que são ineficazes e perigosas.

Até o momento, a precipitação radioativa no Japão está quase totalmente confinada à área de 30 km em torno da usina de Fukushima Daiichi, considerada a de maior risco. Porém, os modelos climáticos sugerem que a precipitação causada pelo desastre poderá circular até o Alasca e o sul da Califórnia, apesar das autoridades afirmarem que não há motivo para preocupação. “Não chegará ao nível de um raio-X do tórax”, diz Classic.

Pesquisa

Mesmo assim, pode haver alguma razão para preocupação. Uma pesquisa feita com crianças suecas, que estavam no útero na época do acidente de Chernobyl, em 1986, descobriu que elas apresentaram pior desempenho em testes acadêmicos do que um grupo de controle. As crianças das áreas mais afetadas da Suécia - a centenas de quilômetros do local do acidente - tiveram desempenho mais fraco, apresentando notas 5% mais baixas do que as do grupo de controle, mas sem evidência clara de causa e efeito. O feto em desenvolvimento é particularmente sensível aos efeitos da radiação.

O planejamento de evacuação nas usinas nucleares se concentra principalmente nos moradores a um raio de 16 quilômetros, pois são os que correm maior risco de exposição direta em caso de acidente, seja por inalação ou contato, conforme explica Scott Burnell, porta-voz da Comissão de Regulação Nuclear (NRC). Porém, os planos incluem possíveis medidas em uma zona secundária, que se estende em até 80 quilômetros da usina, para proteção contra alimentos ou água contaminada. Os fazendeiros dessas áreas podem ser instruídos durante um acidente a colocar seus animais em celeiros e alimentá-los apenas com ração armazenada, em vez de pasto.

O presidente americano, Barack Obama, pediu recentemente à comissão nuclear que reveja a segurança de todas as usinas nucleares do país, “mas ainda não sabemos se a revisão incluirá os planos de evacuação”, diz Burnell.

Lições

Para Thornburgh, as lições do acidente de Three Mile Island foram: restringir ações não autorizadas das equipes emergência para evitar medidas erradas, resistir ao que ele chama de “macho de emergência” ou tendência de ficar acordado a noite toda para poder falar a respeito mais tarde e permanecer calmo.

"O esforço para exibição do filme Síndrome da China na região não ajudou. Ele descreve as consequências de uma fusão de reator nuclear e mostra uma área do tamanho do Estado da Pensilvânia tornar-se permanentemente inabitável“, diz ele. ”Não foi uma mensagem calculada para tranquilizar as mentes das pessoas".

* Por Gardiner Harris

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