Arábia Saudita usa dinheiro da realeza para comprar a paz

Reino investe US$ 130 milhões para aumentar salários, construir moradias e financiar organizações religiosas para neutralizar oposição

The New York Times |

Enquanto uma nação após a outra combate rebeliões em todo o mundo árabe, o principal país que foi poupado dos tumultos é também o mais rico: a Arábia Saudita, onde uma nova infusão de dinheiro, até agora, comprou a paz.

O reino está gastando US$ 130 milhões (cerca de R$ 205,5 milhões) para aumentar salários, construir moradias e financiar organizações religiosas, entre outras despesas que têm efetivamente neutralizado a oposição. O rei Abdullah começou a assinar cheques assim que os líderes da Tunísia e do Egito foram depostos, buscando apaziguar o público e premiar um povo fiel e religioso.

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Homem senta no topo de torre em Riad, capital da Arábia Saudita. Governo aumentou investimentos financeiros e diplomáticos, para conter onda de protestos da região
As reservas monetárias do rei, que aumentaram outros US$ 214 bilhões com os lucros que o país obteve do petróleo no ano passado, formam uma proteção para a família real contra os pedidos de mudança que tomam conta da região, mesmo que exista algum descontentamento no reino.

A Arábia Saudita também se apoiou em sua aliança muito íntima com o estabelecimento religioso que há muito tem ajudado a preservar o poder da família real. O grão-mufti, alto funcionário religioso no reino, lançou uma fatwa (pronunciamento) dizendo que o islã proíbe protestos de rua, e os clérigos têm martelado essa mensagem em seus sermões de sexta-feira.

Pacote

Mas sua principal defesa foi o pacote de ajuda pública. O rei Abdullah pagou dois salários extras para os funcionários do governo e gastou US$ 70 bilhões na construção de 500 mil unidades de habitação de baixa renda.

Como recompensa ao estabelecimento religioso, ele alocou cerca de US$ 200 milhões para suas organizações, incluindo a polícia religiosa. Clérigos opostos às mudanças democráticas dizem ter conquistador uma grande vitória contra os intelectuais liberais.

"Eles não se preocupam com a segurança do país, tudo o que importa é a mistura de gêneros – eles querem garotas dirigindo carros, querem ir às praias e ver as meninas em trajes de banho", alardeou Mohamed al-Areefy, um clérigo jovem e popular, em um sermão recente.

A Arábia Saudita, um aliado próximo dos Estados Unidos, tem lutado para preservar o que resta de uma dinâmica regional que foi abalada pela Primavera Árabe – apoiando monarquias e impedindo que o Irã obtenha influência.

Embora os Estados Unidos tenham pressionado outras nações árabes para adotar mudanças democráticas, Washington permaneceu em silêncio sobre a Arábia Saudita e os esforços do reino para reprimir revoltas populares nos vizinhos Bahrein e Omã.

Os esforços da Arábia Saudita têm obtido resultados a curto prazo, em casa e no Golfo Pérsico. Mas alguns críticos chamam sua estratégia de suborno da opinião pública, algo que é insustentável a longo prazo porque não responde aos problemas subjacentes.

"O problema é que alguns líderes não entendem o que está acontecendo e não aprendem as lições mesmo quando as coisas acontecem em frente dos seus olhos, eles não aprendem as lições da história", disse o príncipe Talal bin Abdul Aziz, 79 anos, um irmão do rei.

*Por Neil Macfarquhar

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