Após vazamento, Pentágono deve limitar informação às tropas

Governo americano deve restringir acesso de soldados à material sobre a guerra para reagir à divulgação de documentos sigilosos

The New York Times |

A divulgação de 92 mil documentos sobre a guerra do Afeganistão pelo site Wikileaks foi possível, em parte, por um esforço relativamente recente dos militares em fornecer dados de inteligência recentes às forças destacadas na linha de frente.

A ideia era que a informação iria preparar melhor as tropas para as condições de guerrilha em constante mudança em lugares como Iraque e Afeganistão.

O secretário de Defesa, Robert Gates, disse que o vazamento dessas informações provavelmente fará com que o Pentágono limite a distribuição desse material de agora em diante.

Apesar de prevenir vazamentos no futuro, a decisão também pode restringir o fluxo de informações possivelmente importantes para poupar as vidas de soldados no fronte de batalha.

Antes do vazamento dos documentos, o acesso à rede de informações confidenciais, conhecida como Secret Internet Protocol Router Network (SIPRNet), era bastante relaxado. Os soldados precisavam apenas de um certificado de segurança para acessar a rede, mas depois de logados eles não encontravam nenhum outro controle de segurança – como um limite de quantos documentos uma pessoa poderia baixar.

"Proteções técnicas que são usadas nos Estados Unidos não eram necessariamente executadas no exterior", diz John Pike, diretor da GlobalSecurity.org, uma idealizadora de defesa e segurança.

Além disso, os terminais da rede SIPRNet usados por soldados em campo não estavam necessariamente disponíveis apenas para pessoas com credenciais.

Brian Slaughter, tenente e líder de pelotão no Iraque, explica que os soldados conseguiam entrar, mas não tinham como sair da rede, o que significava que os soldados que usassem o terminal depois teriam acesso aos mesmos dados.

“Então como é que se sabe quem realmente acessou aquelas informações?”, diz ele. “Há um certo nível de confiança nos escalões táticos que estipula que os usuários que acessam dados via SIPRNet têm apenas o melhor interesse de seus colegas soldados em mente”.

Ele acrescentou: “A natureza do ambiente em que operamos faz com que os dirigentes das forças tenham uma certa confiança em seus soldados. Mas com essa confiança vem um certo risco. Neste caso, um soldado pode ter tirado proveito disso”.

As informações são sujeitas a diferentes níveis de confidencialidade. A SIPRNet contém dados considerados "secretos", mas nada "top secret" (ou absolutamente secreto).

Um aplicativo usado na SIPRNet, o TIGR (ou "sistema tático de relato de campo”), é usado no Iraque para o mapeamento e visualização que permitem que os soldados vejam as últimas informações e incidentes na rota de patrulha que irão fazer. Os soldados podem clicar em ícones para ler relatórios, ver fotografias e até mesmo assistir vídeos de curta duração ou ouvir transcrições de entrevistas.

O TIGR requer seu próprio acesso, além daquele necessário para a SIPRNet, então não é provável que sua funcionalidade seja reduzida, diz Abate. Mas os pontos de acesso a SIPRNet serão reduzidos, ele acrescentou.

"Há inúmeros sites na SIPRNet que são 'livres' para o acesso sem necessidade de permissões", disse Slaughter."Infelizmente alguns desses sites podem ter valor para alguém que quer prejudicar os nossos esforços”.

Pike observa que os sistemas de informação podem ser ou ultraseguros ou ultra-operacionais, mas não ambos. “Por definição, é necessário escolher entre segurança e operacionalidade. É apenas uma questão de escolha”, ele diz.

É provável que, dentro da zona de guerra, ou mesmo no Pentágono, a proibição à rede SIPRNet seja definida em favor dos soldados mantendo o acesso às informações que podem salvar suas vidas, diz Pike.

"Por isso há a dúvida sobre o motivo para não estabelecerem proteções técnicas nos computadores que estão em campo. Eles estão em meio a tiroteios, no meio do nada e dizem: ‘Não há ninguém aqui, apenas galinhas, então vamos tomar uma direção menos segura e mais operacional”.

Bradley Manning, soldado que serviu no Iraque, é uma "pessoa de interesse" para os agentes que irão investigar o vazamento dos documentos, segundo o Exército. Mesmo antes deste episódio, Manning tinha sido preso por autoridades militares e acusado de divulgar outras informações confidenciais, incluindo um vídeo de um helicóptero de ataque Apache que matou 12 pessoas em 2007 no Iraque.

Por David Talbot

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