Após tsunami do Japão, estrada para o futuro divide vilarejo

Falta de terras planas, preços elevados e necessidades diferentes da população dificultam transferir comunidades para terrenos mais altos

iG São Paulo |

Recém-esculpido na encosta de uma colina, com algumas rochas ainda expostas ao longo de alguns de seus trechos e árvores caídas perto do acostamento, o projeto de construção idealizado para ajudar a vila de pescadores de Babanakayama a se realocar e a recomeçar sua vida após o terremoto seguido de tsunami de março foi chamado de forma otimista de “Estrada para o Futuro”.

The New York Times
O projeto abandonado da 'Estrada para o Futuro', cujo objetivo era transferir a vila de Babanakayama para um local mais alto, é vista no Japão em 4/12/11
Mas até agora a estrada não levou ninguém a lugar nenhum. Ela e um assentamento planejado, localizados em uma região de terreno plano na zona rural ao redor da vila destruída, têm dividido os líderes dessa comunidade, criando uma certa insegurança em seus 370 moradores, na maioria idosos. Sem ser utilizada e tampouco reconhecida, a "Estrada para o Futuro" está coberta de cascalho, com poucas chances de ser asfaltada no futuro próximo.

As dificuldades que Babanakayama e seus vizinhos enfrentam ajudam a explicar por quê, quase dez meses depois do terremoto e do tsunami, poucas das aldeias e cidades que foram devastadas ao longo da costa tiveram sucesso em fazer o que parecia óbvio desde o início: encontrar um espaço em um terreno elevado onde suas comunidades pudessem ser reconstruídas.

A escassez de terra plana, o preço elevado da propriedade particular nas montanhas, a relutância de consolidar comunidades centralizadas e as diferentes necessidades de uma população idosa estão complicando os planos de muitas comunidades.

Como resultado do pouco progresso, um número crescente de pessoas e comunidades está simplesmente desistindo de esperar que algum dia se mudarão para um local em um terreno alto. Algumas pessoas, mesmo sem o aval das autoridades locais, começam a reconstruir suas casas em áreas inundadas pelo tsunami.

Em Ofunato, por exemplo, os oficiais municipais fortemente desencorajam os moradores de reconstruir em áreas que foram inundadas, mas em outros lugares não chegaram a emitir uma proibição direta - possivelmente por medo de questões jurídicas. Como resultado da falta de esperança de poder mudar para um terreno mais elevado, novas casas começaram a ser construídas em áreas inundadas pelo tsunami já faz alguns meses.

Em um dos bairros da cidade de Ofunato, a poucos metros do mar, uma pequena casa de madeira foi construída sobre um loteamento desproporcional para o seu tamanho, onde existia uma casa muito maior que foi destruída pelo tsunami. Numa tarde recente, com os ventos de inverno sentidos dentro da casa, Kikue Shida, 80, explicou que não queria viver com parentes ou em uma casa pré-fabricada temporária. Ela então pediu que seu irmão mais novo reconstruísse uma casa para ela e se mudou para lá em agosto.

Uma grande parte de seu bairro permanece destruída. Mesmo assim ela recebe muitos amigos para tomar um chá da tarde e diz estar contente de não esperar pela relocação. "Já estou com 80 anos", disse, "e talvez não tenha muito tempo pela frente. É por isso que decidi voltar a morar aqui".

Sob as diretrizes de reconstrução de Tóquio, o governo central pagará pela compra de terras em terrenos mais alto caso pelo menos cinco famílias desejem se mudar para lá juntas. Mas a terra deve atender ao orçamento estabelecido pelos governos locais. Com poucas terras planas disponíveis, o único jeito será que oficiais do governo modifiquem, para o uso residencial, o relevo de lotes comprados nas montanhas do interior.

As dificuldades de obter um local apropriado foram ressaltadas pela experiência de Babanakayama, que tentou fazê-lo mais rápido do que outras comunidades. A história da vila foi contada pela NHK, emissora de televisão nacional do Japão, como modelo de uma rápida reação ao tsunami estimulado pelos laços de sua comunidade e pela maneira de liderar de Kurayoshi Abe, 61, um dos seus dois chefes.

Abe é um pescador de temperamento forte que liderou a limpeza do local sem esperar pelo governo. "Não dependemos do governo. Simplesmente nos mudamos primeiro", disse. Mas os moradores disseram que a limpeza foi a parte fácil.

Quando a poeira baixou, um grupo de líderes da aldeia começou a se reunir em abrigos para planejar o futuro. Eles decidiram que a melhor coisa seria mover as casas destruídas ao longo da costa para uma área montanhosa atrás da antiga aldeia, e então tiveram de enfrentar a difícil tarefa de pedir para cerca de 50 proprietários de terras da região uma permissão para construir a "Estrada para o Futuro".

"Eles sentiram que tinham de agir imediatamente logo após o tsunami, quando as lembranças de todos ainda estavam frescas", disse Kaoru Chiba, 36, cujo pai foi um dos líderes por trás da construção da estrada. "Caso contrário, se esperassem, não conseguiriam a colaboração dos proprietários das terras."

Todos os proprietários concordaram, com exceção de um importante indivíduo, Ichiro Miura, 60, chefe de outra vila.

Assim como muitas vítimas do tsunami, Miura estava preocupado que ele não seria capaz se dar ao luxo de construir uma nova casa, mesmo se tivesse a terra já assegurada. Embora o governo central forneça a terra, as pessoas serão responsáveis pela construção de suas casas. Para aqueles impossibilitados de fazê-lo, o governo indicou que construirá moradias públicas - uma maior prioridade do que o terreno alto para alguns.

"Todos só falam de se mudar para os terrenos elevados", disse Miura sobre os moradores que apoiaram a construção da estrada. "Mas tenho 60 anos. Mesmo autorizado a mudar para um terreno elevado, como poderei construir uma casa lá? Qual banco me emprestará dinheiro na minha idade?"

Apesar da oposição de Miura e de outros, o grupo por trás da "Estrada para o Futuro" deu continuidade ao projeto em julho. O leito da estrada foi finalizado em questão de dias.

Ichiro Sasaki, 64, um dos líderes do grupo, defendeu a decisão. "Não é como se simplesmente acordássemos um dia e decidíssemos por livre e espontânea vontade construir a estrada. Tivemos a aprovação dos proprietários de terras - bem, de quase todos", disse. "Agora, não vemos nenhum progresso na questão da transferência da vila para terreno elevado, nem aqui nem em qualquer outro lugar."

De fato, o local proposto ao longo da "Estrada para o Futuro" não é considerado parte de um futuro acordo em parte por causa da falta de consenso da vila, disse Akira Oikawa, o chefe da reconstrução em Minamisanriku - cidade que supervisiona Babanakayama -, mesmo que haja terra suficiente lá "para acomodar todas as casas".

Até agora, nenhuma alternativa a essa terra apareceu. Proprietários de terrenos nas montanhas estão relutantes em vender suas terras ao governo - embora de pouco valor, as montanhas têm sido passadas de geração para geração e têm valor sentimental para muitas famílias.

"Se eles oferecem preços tão baixos, ninguém vai querer vender", disse Kunihisa Oikawa, 59, o proprietário de um terreno na montanha da região. "Qualquer esperança que possa existir para mudar para terrenos elevados desaparecerá."

Mais forte que tudo isso, alguns aldeões dizem, é a divisão que emergiu em Babanakayama e que acaba tornando cada vez mais difícil, senão impossível, a mudança da aldeia para um terreno alto. Talvez os proprietários de casas sejam forçados a mudar-se separadamente ou a reconstruir suas casas ao longo da costa.

"Devemos trabalhar todos juntos", disse Yoshihiro Miura, 46, um pescador local, em um tom exasperado, enquanto lançava uma rede em um dos portos da região. "Mas, mesmo neste pequeno vilarejo, existe esse tipo de disputa. Não é nada mais do que a natureza humana."

*Por Norimitsu Onishi

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