Após tremor, japoneses preferem estabilidade a vistas deslumbrantes

Apesar de alguns arranhas-céus serem projetados para resistir a terremotos devastadores como o de 11 de março, japoneses buscam prédios mais baixos

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Do espaçoso apartamento no 24º andar, Masako Tsubuku e seu marido tinham uma vista deslumbrante do Monte Fuji. Mas eles mal podiam esperar para sair de lá.

Seu edifício alto, como foi projetado para fazer, resistiu ao devastador terremoto que atingiu o Japão no dia 11 de março, balançando e tremendo para absorver os piores choques. Mas Tsubuku disse ter ficado petrificada com a forma como a torre balançou como um junco ao vento. E os elevadores ficaram fora de serviço até o dia seguinte, efetivamente ilhando o casal e seus dois gatos.

"Eu nunca soube o quão assustador era viver tão longe acima do solo", disse Tsubuku, que escreve um blog sobre habitações japonesas com o seu marido americano, Philip Brasor. "Eu não acho que os arranha-céus são projetados para que pessoas vivam neles”.

Assim pensa um número crescente de pessoas em Tóquio e arredores, uma região que fica a mais de cem quilômetros das piores áreas atingidas no desastre. As vendas de apartamentos caíram em Tóquio. E alguns locatários como Tsubuku optaram por encerrar seus contratos.

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O City Towers Toyosu, prédio de 48 andares com 1.063 apartamentos em distribuídos em duas torres, em Tóquio
A nova desconfiança ameaça parar uma onda de construção e reforma que havia animado o mercado imobiliário residencial do Japão e transformado a região das antigas docas da cidade em um distrito de arranha-céus novíssimos.

Com construções de bilhões de dólares em risco em Tóquio e em outros lugares no Japão, o setor imobiliário pode ser mais um a sofrer um golpe por causa do desastre do 11 de março.

O terremoto também expôs a instabilidade do aterro do mar, que na última década se tornou lar de centenas de milhares de pessoas ao longo de Baía de Tóquio. Em Urayasu, uma cidade costeira 10 km a leste do centro de Tóquio, o terremoto rasgou a calçada e derrubou casas conforme o solo se transformou rapidamente em lama, em um fenômeno conhecido como liquefação.

Os danos reais e o nervosismo são lembretes indesejados da maneira tênue com que o Japão, escasso em terras, tem procurado continuamente expandir suas áreas habitáveis.

Durante o último século, o país empreendeu grandes projetos de aterros em cidades de todo o país para atender às suas necessidades industriais e residenciais. E desde o início dos anos 2000, a recuperação tem se concentrado na zona portuária de Tóquio, onde havia terras baratas à disposição depois que construtoras navais e da indústria pesada perderam espaço para rivais de outras partes da Ásia. Um popular novo bairro, com várias torres de apartamentos, costumava ser um estaleiro operada pelo conglomerado industrial IHI.

Agora, uma segunda opinião sobre os arranha-céus e as propriedades à beira-mar em Tóquio e outras cidades japonesas estão gerando uma sombra de dúvida sobre o mercado imobiliário de US$ 29 trilhões do país.

Vendas

Em maio, as vendas de edifícios de apartamentos com 20 ou mais andares em Tóquio caiu 39,5% em relação ao ano anterior, após mergulhar 82,8% em abril, de acordo com o Instituto de Economia Imobiliária, um centro de pesquisa privado de Tóquio.

Os números amorteceram as vendas de apartamentos em geral na região metropolitana de Tóquio, que cresceu apenas 3,6% em maio - bem abaixo das expectativas dos analistas - depois de cair 27,3% em abril.

Rigorosos códigos de construção fizeram com que o terremoto causasse pouco dano real aos arranha-céus – até mesmo na zona de desastre ao norte, onde a maior parte da destruição foi causada pelo tsunami. Mas desde o terremoto, os compradores estão preferindo apartamentos mais baixos, segundo as construtoras, e estão à procura no interior do país, onde o solo tende a ser mais firme.

"Ninguém se importa muito mais com uma boa vista", disse Toru Matsumura, chefe da equipe de investimento imobiliário do Instituto de Pesquisa NLI. "Em vez disso, eles questionam o que acontecerá quando o próximo grande terremoto atingir o país”.

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Com 54 andares, o Roppongi Hills Mori Tower tem escritórios de companhias como Google e Goldman Sachs em Tóquio
À primeira vista, o prédio de 12 andares de Masaru Isogawa, em Urayasu, região leste de Tóquio, parece ter escapado ileso do terremoto. Mas o tremor sacudiu a terra que compõe boa parte de sua vizinhança, contorcendo tubulações subterrâneas de gás, água e esgoto.

Imediatamente após o terremoto, a água jorrou de bueiros, enquanto as ruas romperam e a lama irrompeu a partir do solo, cobrindo tudo com um lodo espesso. O estacionamento em frente ao apartamento de Isogawa afundou mais de 50 centímetros.

"Tornou-se extremamente difícil para nós vivermos aqui", disse Isogawa, 68 anos, um urbanista aposentado. "Essa terra se tornou uma bomba-relógio".

As construtoras têm tentado tranquilizar moradores preocupados e dizer que, apesar dos danos, os prédios em si são seguros porque são equipados com estacas de concreto armado que ancoram os edifícios ao chão. Desde o desastre, anúncios de novos apartamentos em todo o Japão já vêm com diagramas detalhando a estrutura do edifício e garantindo que a terra em que foi construído é segura.

Mas alguns especialistas questionam se os edifícios nas áreas de liquefação realmente escaparam de danos estruturais. Shuji Tamura, um especialista do Instituo de Prevenção de Desastres da Universidade de Kyoto, teme que as estacas dos edifícios tenham sido danificadas, tornando-os vulneráveis a futuros terremotos. "Esses possíveis perigos espreitam todo o Japão", disse Tamura.

E mesmo se os edifícios são estruturalmente seguros, o terremoto de março mostrou que os arranha-céus podem oscilar mais que muitos engenheiros haviam pensado ser possível. "Esses prédios não vão cair", disse Yoshiaki Hisada, professor de arquitetura e diretor do Centro de Pesquisa de Mitigação de Desastres Urbanos da Universidade Kogakuin. "Mas o terremoto nos obrigou a pensar mais seriamente sobre como proteger as pessoas dentro deles - certificando, por exemplo, se o teto não irá cair e machucar alguém".

Tragédia

Durante o terremoto de março no edifício de 48 andares ocupado pelo governo metropolitano de Tóquio, trechos do teto e das parede se soltaram nos 15 minutos em que o prédio oscilou em um arco de até quatro metros. A cidade agora irá gastar cerca de US$ 50,4 milhões para equipar o edifício com cerca de 150 amortecedores hidráulicos gigantes para suportar melhor as vibrações de terremotos e reduzir o balanço.

Andy Hurfurt, da empresa de serviços imobiliários CB Richard Ellis, disse que os investimentos feitos por edifícios de escritório na segurança contra desastres compensaram. A torre Roppongi Hills Mori de 54 andares, que conta Goldman Sachs e Google entre os seus inquilinos, gastou 10 bilhões de ienes (quase US$ 126 milhões) em uma usina subterrânea de gás para fornecer eletricidade de emergência em caso de emergência. O prédio também estoca 100 mil refeições de emergência.

Shu Takeuchi, porta-voz do Mori, disse que a taxa de ocupação da torre aumentou vários pontos percentuais – para cerca de 95% por cento – desde 11 de março.

Medidas similares foram adotadas por alguns edifícios de apartamentos. O City Towers Toyosu, de 48 andares e 1.063 apartamentos em duas torres, está equipado com elevadores de emergência que são alimentados por geradores de emergência que podem ser iniciados de forma automática e operar por até sete horas. O complexo também tem pelo menos três trabalhadores de resgate treinados para situações de desastre em uma sala de controle central, disse Kazuyoshi Tanaka, porta-voz da construtora Sumitomo.

"Recentemente as pessoas têm tido certos temores sobre a segurança das torres de apartamentos", disse ele. "Mas a nossa mensagem é que nossos prédios são absolutamente seguros".

Talvez isso seja bom. Mas Tsubuku e seu marido cansaram das alturas. Em junho, eles deixaram sua vista para o Monte Fuji e se mudaram com seus gatos para um prédio de três andares perto da capital.
"Eu finalmente me sinto estável", disse Tsubuku.

*Por Hiroko Tabuchi

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