Após terremoto no Haiti, o caos das adoções nos Estados Unidos

Esforço para facilitar processo de adoção após tragédia resultou em erros e confusão

The New York Times |

Beechestore e Rosecarline, dois adolescentes haitianos no auge da puberdade, não poderiam ser adotados.

No final do ano passado, as autoridades americanas negaram o pedido do casal Marc e Teresa Stroot, de Bazter, Minnesota, para a adoção de irmão e irmã depois que seu pai biológico não quis renunciar à guarda das crianças.

Relutantemente, Marc e Teresa Stroot, um assistente executivo de vendas e uma professora de crianças com necessidades especiais, pais de quatro filhos, decidiram seguir em frente.

Então, no dia 12 de janeiro, um terremoto devastador derrubou a capital do Haiti e facilitou as adoções internacionais, ignorando algumas salvaguardas destinadas a proteger as crianças .

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A família Stroot, que adorou os irmãos Beechestore e Rosecarline

O governo Obama liderou a iniciativa, respondendo à crise e aos pedidos de futuros pais adotivos e de legisladores, facilitando a concessão de vistos para crianças em processo de adoção por americanos.

Embora inicialmente planejada como uma evacuação em pequena escala e a curto prazo, os esforços de resgate evoluíram rapidamente e se tornaram uma retirada de bebês que não era vista desde a Guerra do Vietnã.

Isso durou meses, mas caiu brevemente sob a nuvem de escândalo envolvendo 10 missionários batistas que tomaram indevidamente a custódia de 33 crianças. Além disso, inflamou as tensões entre os Estados Unidos e as organizações de proteção à criança e tirou do país cerca de 1.150 crianças haitianas, mais do que foi adotado por família americanas nos últimos três anos, de acordo com entrevistas com autoridades governamentais, agências de adoção e grupos de defesa da criança.

Entre os primeiros a sair do Haiti estavam Beechestore e Rosecarline. "É definitivamente um milagre", disse Teresa Stroot sobre sua chegada aos Estados Unidos, “porque isso não iria acontecer de outra maneira”.

No âmbito de um programa de imigração pouco usado, conhecido como condicional humanitário, a adoção foi acelerada, independentemente das crianças estarem em risco, e sem a análise necessária para certificar que não tinham sido indevidamente separadas de parentes ou colocadas em lares que não podiam cuidar adequadamente delas.

Alguns orfanatos no Haiti estavam quase vazios, apesar de não terem sido afetados pelo terremoto ou licenciados para lidar com adoções. As crianças foram libertadas sem documentos legais mostrando que eram órfãs e sem análise de evidências que sugeriam indícios de fraude. Em pelo menos um caso, dois irmãos foram tirados do país, embora as autoridades americanas tenham determinado através de testes de DNA que o homem que lhes tinha dado para um orfanato não era seu parente.

"Eu tenho uma estranha sensação de culpa típica de sobreviventes", disse Dawn Shelton, a mulher de Minnesota que espera pela aprovação da adoção dos irmãos. “Tantas pessoas morreram no Haiti, mas por causa do terremoto fui capaz de conseguir a vida que queria”.

Em outros casos, as crianças foram entregues a famílias que não tinham sido analisadas ou famílias que já não as queriam.

Os resultados disso são vistos em todo o país. Pelo menos 12 crianças, trazidas para cá sem terem sido formalmente combinadas com novas famílias, passaram meses em um centro de atendimento juvenil na Pensilvânia, enquanto funcionários da Cruz Vermelha tentavam determinar o seu destino.

Um número desconhecido de crianças cujos adultos desistiram de sua adoção estão com famílias provisórias. Embora as autoridades tenham dito saber de poucos casos deste tipo, agentes de adoção disseram conhecer pelo menos 20 deles, incluindo o de uma menina de 8 anos de idade que passou de um orfanato no Haiti para uma casa em Itaca, Nova York, depois para um centro de atendimento juvenil no Queens porque a psicóloga que havia pedido para adotá-la decidiu que não conseguiria criar uma criança.

Dezenas de crianças, com idade média de 16 anos, estão velhas demais para receber status legal permanente caso sejam adotadas, o que faz com que os legisladores no Congresso considerem aumentar o limite de idade para 18 anos.

Enquanto isso, outras crianças enfrentam anos de limbo legal uma vez que os tribunais estaduais se recusam a completar sua adoção por causa da falta de provas de quem são, de como chegaram ao país e do motivo pelo qual foram colocadas para adoção.

Um advogado de Kansas disse ter satisfeito o questionamento do juiz sobre se o menino haitiano que seus clientes haviam adotado era órfão. Ele transmitiu anúncios em emissoras de rádio haitianas durante dois dias em busca de algum parente da criança.

Outro casal que pretende adotar crianças do país, Daniel e Jess McKee de Mansfield, Pensilvânia, disse que Owen, 3, que consegue bater uma bola de basquete melhor do que crianças com o dobro de sua idade, chegou do Haiti com uma certidão de nascimento inválida – mostrando que tem quarto anos – uma carta em francês, assinada por um prefeito haitiano que o declarou órfão, e pilhas de registros médicos de seu período em um orfanato no país de origem.

Sua possível futura filha, Emersyn, também de 3 anos, veio sem nenhum documento.

"Do jeito que as coisas estão", disse Jess McKee, "eu basicamente irei aparecer no tribunal e dizer: 'Essas crianças são quem eu digo que são’ e torcer para que aceitem a minha palavra, porque se me pedirem para provar isso eu não terei como”.

Ela acrescentou: "Eu acho que o governo decidiu: 'Vamos tirar as crianças do Haiti e depois nos preocupamos com os detalhes".

Por Ginger Thompson

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