Após retirada do Iraque, EUA estudam reforçar presença militar no Golfo Pérsico

Com saída total de tropas este ano, governo planeja enviar mais militares ao Kuwait e reforçar parceria com países da região

The New York Times |

O governo do presidente Barack Obama planeja reforçar a presença militar dos Estados Unidos no Golfo Pérsico depois de retirar suas tropas do Iraque este ano , de acordo com autoridades militares e diplomatas. Esse reposicionamento poderia incluir forças de combate no Kuwait capazes de responder a um colapso da segurança no Iraque ou a um confronto militar com o Irã.

Os planos, em discussão há meses, ganharam nova urgência depois do anúncio do presidente Barack Obama em outubro de que os últimos soldados dos Estados Unidos deixariam o Iraque até o final de dezembro. Acabar com a guerra de oito anos foi uma promessa central de sua campanha presidencial, mas as autoridades militares e diplomatas dos Estados Unidos, assim como oficiais de vários países da região, temem que a retirada possa deixar instabilidade ou algo pior para trás.

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Soldados americanos participam de cerimônia de retirada em base de Tikrit, no Iraque, que passou para o controle dos iraquianos (20/10)

Depois de pressionar sem sucesso tanto o governo Obama quanto o governo iraquiano para permitir que cerca de 20 mil soldados dos Estados Unidos permanecessem no Iraque depois de 2011, o Pentágono está agora elaborando uma alternativa.

Além das negociações sobre a manutenção de uma presença de combate terrestre no Kuwait, os Estados Unidos estão considerando colocar mais navios de guerra em águas internacionais na região.

Com um olho na ameaça de um Irã belicoso, o governo americano também está procurando expandir os laços militares com os seis países do Conselho de Cooperação do Golfo – Arábia Saudita, Kuwait, Bahrein, Catar, Emirados Árabes Unidos e Omã. Embora os Estados Unidos tenham relações militares bilaterais próximas com cada uma dessas nações, o governo e os militares americanos estão tentando promover uma nova "arquitetura de segurança" para o Golfo Pérsico, que iria integrar patrulhas aéreas e navais, além da defesa antimísseis.

O tamanho da força de combate que os Estados Unidos esperam alocar no Kuwait continua a ser o objeto de negociações, com uma resposta esperada para os próximos dias. Oficiais recusaram a discutir detalhes específicos das propostas, mas deixaram claro que planos bem-sucedidos de décadas passadas podem ser incorporados aos planos atuais para uma ação pós-Iraque na região.

Por exemplo, no período entre a guerra do Golfo Pérsico em 1991 e a invasão do Iraque em 2003, o Exército dos Estados Unidos mantinha pelo menos um batalhão de combate – e às vezes uma brigada de combate completa – no Kuwait durante o ano todo, junto com um enorme arsenal pronto para ser descompactado caso mais tropas fossem necessárias na região.

"De volta para o futuro" é como o major-general Karl R. Horst, chefe do Comando Central da equipe, descreveu o planejamento para uma nova atuação no Golfo. Ele disse que o comando está se concentrando em implantações menores, mas altamente capacitadas e parcerias de formação com os militares regionais.

"Estamos pensando em voltar ao que éramos antes de termos uma presença maior na região”, disse Horst. "Acho que é saudável, eficiente e prático."

Obama e seus assessores de segurança nacional tem procurado tranquilizar os aliados e críticos, incluindo muitos republicanos, de que os Estados Unidos não vão abandonar seus compromissos no Golfo Pérsico ao mesmo tempo em que encerra a guerra no Iraque e busca fazer o mesmo no Afeganistão até o final de 2014.

"Vamos ter uma forte presença contínua em toda a região, que é uma prova do nosso compromisso contínuo com o futuro do Iraque e da região, um futuro que seja promissor e livre de interferência externa, para que o país possa seguir um caminho para a democracia", disse a secretária de Estado, Hillary Clinton, após o anúncio do presidente.

Durante reuniões com a equipe militar alocada na Ásia na semana passada, o secretário de Defesa, Leon E. Panetta, observou que os Estados Unidos tinham 40 mil soldados na região, incluindo 23 mil no Kuwait, embora a maior parte sirva em funções de logística de apoio para as forças no Iraque.

À medida que se comprometem com este esforço, o Pentágono e seu Comando Central, que supervisiona as operações na região, deram início a um rearranjo significativo das forças dos Estados Unidos, conscientes das limitações políticas e orçamentárias enfrentadas pelo país, incluindo pelo menos US$ 450 bilhões em cortes nos gastos militares ao longo da próxima década, como parte do acordo para reduzir o déficit orçamentário.

Oficiais no Comando Central disseram que a era pós-Iraque exige que os EUA busquem formas mais eficientes para implantar forças e maximizar a cooperação com os parceiros regionais.

Um resultado significativo dos cortes futuros, segundo as autoridades, pode ser uma redução acentuada no número de analistas de inteligência atuantes na região.

Ao mesmo tempo, os oficiais esperam expandir as relações de segurança. Horst disse que os exercícios de treinamento são "um sinal de compromisso com a presença, um sinal de comprometimento de recursos e um sinal de compromisso na construção da capacidade dos nossos parceiros".

O coronel John G. Worman, chefe do Comando Central para exercícios militares, notou um marco no Golfo Pérsico: pela primeira vez os militares do Iraque tinham sido convidados a participar de um exercício militar regional na Jordânia no próximo ano, chamado Leão Ansioso 12 e construído em torno das ameaças de guerrilha e terrorismo.

Outra parte do planejamento pós-Iraque do governo envolve o Conselho de Cooperação do Golfo, dominado pela Arábia Saudita. Ele tem cada vez mais procurado exercer sua influência diplomática e militar na região e além. O Catar e os Emirados Árabes Unidos, por exemplo, enviaram aviões de combate para o Mediterrâneo, como parte da intervenção da Otan na Líbia, enquanto o Bahrein e os Emirados Árabes Unidos têm forças no Afeganistão.

Ao mesmo tempo, no entanto, o Conselho enviou uma força terrestre formada principalmente por sauditas ao Bahrein para apoiar a supressão das manifestações antiregime deste ano, apesar das críticas internacionais.

Apesar de tais preocupações, o governo propôs o estabelecimento de uma aliança de segurança multilateral mais forte entre as seis nações e os Estados Unidos. Panetta e Hillary esboçaram a proposta em uma reunião conjunta incomum com o Conselho em Nova York, no mês passado.

A proposta ainda requer a aprovação do Conselho, cujos líderes se reunirão novamente em dezembro, na capital saudita, Riad. O tipo de colaboração multilateral prevista pelo governo Obama deve superar as rivalidades entre as seis nações.

"Não será uma Otan amanhã", disse uma alta autoridade do governo americano, que falou sob condição de anonimato para discutir negociações diplomáticas ainda em curso, "mas a ideia é passar para um esforço mais integrado."

O Irã, como tem sido por mais de três décadas, continua a ser a ameaça mais preocupante para muitas dessas nações, bem como para o próprio Iraque, onde restabeleceu laços políticos, culturais e econômicos, assim como forneceu apoio encoberto para insurgentes xiitas que lutaram contra forças dos Estados Unidos.

"Eles estão preocupados que a retirada americana deixe um vácuo", disse o ministro das Relações Exteriores do Bahrein, o xeque Khalid bin Ahmed Al Khalifa, referindo-se a autoridades da região do Golfo Pérsico.

Khalid Sheikh estava em Washington na semana passada para reuniões com o governo e o Congresso americanos. "Não há dúvida de que vai criar um vácuo e isso poderá convidar as potências regionais a exercer um poder mais ostensivo no Iraque", disse.

Ele acrescentou que a proposta do governo para expandir a sua relação de segurança com as nações do Golfo Pérsico não irá "substituir o que está acontecendo no Iraque", mas se faz necessária após a retirada para demonstrar uma defesa unificada em uma região perigosa. "Agora o jogo é diferente", disse ele. "Vamos ter que ser parceiros em operações, nas questões problemáticas e nas muitas maneiras que devemos trabalhar juntos."

Nos Estados Unidos, o Iraque tem sido um assunto de intensa disputa. Alguns analistas de política externa e democratas – e alguns republicanos – dizem que os Estados Unidos permaneceram no Iraque por tempo demais. Outros, incluindo muitos republicanos e analistas militares, têm criticado o anúncio de Obama de uma retirada final, expressando medo de que o Iraque ainda esteja muito fraco e instável.

"Os Estados Unidos terão de aceitar um Iraque que será incapaz de se defender por pelo menos uma década", escreveram Adam Mausner e Anthony H. Cordesman, do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais.

Doze senadores republicanos exigiram audiências sobre o fim das negociações entre o governo e os iraquianos – pelo menos por enquanto – sobre a continuação do treinamento fornecido pelos americanos e os esforços de contraterrorismo no Iraque.

"Como você sabe, a retirada completa de nossas forças do Iraque deve ser vista como uma vitória estratégica para os nossos inimigos no Oriente Médio, especialmente para o regime iraniano", escreveram os senadores na quarta-feira em uma carta ao presidente do Comitê de Serviços Armados do Senado.

Por Thom Shanker e Steven Lee Myers

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