Após morte de Bin Laden, liderança da Al-Qaeda cai em vazio

Sem membro com status e carisma de Bin Laden, organização tenta encontrar núcleo centralizador e futuro rumo

The New York Times |

Quando o braço da propaganda online da Al-Qaeda procurou reunir partidários na semana após a morte de Osama bin Laden, não houve indício de que a rede tenha um grande plano terrorista em andamento. Em vez disso, o grupo propôs o terrorismo no estilo ‘faça você mesmo’, exortando os militantes de todo o mundo a realizar seus próprios ataques, ainda que modestos.

"Dizemos a todo os muçulmanos mujahedins: 'Se houver uma oportunidade, não a desperdice', dizia o comunicado publicado na segunda-feira pelo Centro de Media Al Fajr, a voz online do grupo terrorista. "Não consulte ninguém sobre matar americanos ou destruir a sua economia”.

A mensagem elogiava Bin Laden por seu "planejamento de longo prazo e visão", mas propunha exatamente o oposto: "Nós também o incitamos a realizar atos de terrorismo individual, com resultados significativos, que exigem pouca preparação”.

A mensagem reconhecia implicitamente que a morte do fundador da Al-Qaeda deixa seu núcleo em uma posição enfraquecida. Mesmo antes da morte de Bin Laden, o aumento de associados da Al-Qaeda na Península Arábica e no Iêmen havia mudado a atenção e a energia do grupo para longe da organização-mãe no Paquistão.

Agora, com um punhado de candidatos falhos ou pouco conhecidos prontos para suceder Bin Laden, mas ninguém com o seu status e carisma, o futuro do núcleo centralizador da rede é incerto. Alguns analistas de inteligência dos Estados Unidos acreditam que o fato de mais de 10 dias terem se passado sem o anúncio de um sucessor pode ser um sinal de uma disputa pelo poder.

"O núcleo foi enfraquecido pela morte de Bin Laden. Isso foi um grande golpe", disse Daniel L. Byman, ex-oficial da Agência Central de Inteligência americana, a CIA, e da Comissão do 11/09, agora na Universidade de Georgetown.

Ativo

Os analistas de inteligência da CIA e de outras agências analisaram os arquivos de computador e documentos apreendidos no casarão de Bin Laden em Abbottabad, Paquistão, e ficaram impressionados com o grau de contato que mantinha com subalternos no Paquistão e no exterior, disseram oficiais informados sobre a avaliação. O material até agora não rendeu pistas sobre ataques planejados, disse um oficial sênior, mas deu a maior informação sobre o papel de Bin Laden.

Ele fez anotações em um caderno sobre novas maneiras de atacar os Estados Unidos, incluindo ataques a trens e a tentativa de recrutar militantes entre as minorias étnicas americanas. Em dezenas de pen drives e CDs, além de 10 unidades de disco rígido, os analistas têm encontrado anos de cartas de instruções aos seus subordinados, que foram enviadas por email de cibercafés. Nem sempre fica claro se as instruções foram recebidas ou obedecidas.

"Bin Laden emitia diretivas em detalhes para os seus filiados –ações a tomar, pensamentos sobre quem deveria liderar", disse um oficial familiarizado com as informações. "Ele tentava exercer o controle”.

Se um substituto poderá exercer a mesma influência ainda não se sabe. "Bin Laden era a única pessoa com uma estatura que fazia com que seus subordinados ouvissem tudo o que dizia", disse o oficial, que falou sob a condição de anonimato. "É improvável que eles tenham ouçam outra pessoa do mesmo jeito”.

Número 2

Ayman al-Zawahri, o médico egípcio que foi vice de Bin Laden, é amplamente visto como uma figura divisiva cuja ascensão à liderança poderia enfraquecer ainda mais o núcleo da rede. "Há um entendimento dentro da Al-Qaeda de que Zawahri não é tão respeitado ou admirado quanto Bin Laden", disse um oficial.

Mas, sob intensa pressão, tanto dos ataques aéreos da CIA quanto da caça intensificada em busca de agentes da Al-Qaeda depois da ação contra Bin Laden, será difícil para qualquer líder menos conhecido se estabelecer, disse Byman.

"Você tem de pressionar", disse ele. "Tem de organizar reuniões. Isso não é fácil se você está ocupado tentando permanecer vivo”.

Alguns oficiais militares e de contraterrorismo acreditam que a competição pela liderança do movimento jihadista global está aberta, com possíveis candidatos da área tribal do Paquistão. Entre os nomes citados está o líder da Al-Qaeda na Península Arábica, Nasser al-Wuhayshi, um saudita que serviu como secretário pessoal de Bin Laden na década de 90 e supervisionou ataques contra os Estados Unidos e o Iêmen.

Al-Wuhayshi publicou sua própria homenagem a Bin Laden na terça-feira na internet, uma das inúmeras tentativas pelo centro das atenções nos últimos dias. "Que os americanos saibam que a brasa da jihad está brilhando mais forte e mais brilhante do que durante a vida do xeque", escreveu.

Alguns oficiais americanos também acreditam que Anwar al-Awlaki, o clérigo nascido nos Estados Unidos que agora se esconde com o braço da Al-Qaeda no Iêmen, poderiam substituir o vazio deixado pela morte de Bin Laden. O inglês fluente, conhecimento dos Estados Unidos e proêminência na web estão a seu favor, embora alguns especialistas no Iêmen questionem a sua estatura dentro da organização.

Nova geração

No Paquistão, oficiais americanos acreditam que uma nova geração de agentes está emergindo para desafiar a autoridade da velha guarda do grupo, incluindo Al-Zawahri.

Oficiais disseram que um dois carismáticos homens da Líbia, Atiya Abd al-Rahman e Abu Yahya al-Libi, que escaparam da prisão de Bagram, no Afeganistão, em 2005, agora são os principais planejadores operacionais da Al-Qaeda. Sua ascensão veio depois que um ataque aéreo em 2010 matou o xeque Saeed al-Masri, que era o terceiro no escalão do grupo, uma posição de duração notoriamente curta.

Outra figura de destaque é Ilyas Kashmiri, um veterano paquistanês da guerra entre os soviéticos e afegãos que foi acusado em 2009 de conspirar com dois homens de Chicago para atacar o jornal dinamarquês que publicou uma charge do profeta Maomé. E há Adnan el-Shukrijumah, um saudita que viveu durante anos nos Estados Unidos e foi indiciado sob acusação de estar envolvido no malogrado complô para explodir parte do metrô de Nova York com bombas mochila em 2009.

Todos esses nomes e muitos outros estão sendo analisados através dos arquivos de Bin Laden, disseram os oficiais, inclusive no Centro de Exploração de Mídia Nacional da Agência de Inteligência de Defesa, especializada em pesquisas rápidas de dados eletrônicos. O objetivo é encontrar dicas sobre os papéis das figuras da Al-Qaeda na organização – ou o seu paradeiro, com a esperança de capturar ou matar a próxima geração da rede.

* Por Scott Shane

    Leia tudo sobre: bin ladeneuaterrorismoafeganistãopaquistão

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG