Após fim de proibição, Cuba vive 'febre imobiliária'

Com permissão de compra e venda de imóveis e incentivos à construção, cubanos injetam dinheiro no setor

The New York Times |

Restaurar a casa descuidada de Carmen Martinez em Havana não é tarefa simples. O teto da sala desabou faz 15 anos e a varanda um pouco depois, deixando duas colunas cambaleantes para trás, sem nada para segurá-las. O banheiro possui uma latrina em péssimas condições e a cozinha tem uma pia sem torneiras e dois tambores de óleo cheios d’água.

Leia também: Cuba legaliza compra e venda de propriedades privadas

NYT
Carmen Martinez posa em frente à casa que pretende reformar em Havana (31/01)

Mas um teto - mesmo aqueles em péssimas condições - é considerado um luxo na cidade, que está sendo atingida por uma febre imobiliária. Então Yoel Bacallao, um empresário de 35 anos de idade, se ofereceu para arrumar o apartamento de Martinez gratuitamente com uma condição: que ela o deixasse construir seu próprio apartamento acima do dela.

Saiba mais: Veja o especial do iG sobre a vida em Cuba

"Foi como uma luz no final do túnel para mim", disse Martinez, 41, que pendurava roupa na sala de estar sem o teto e que tinha que tirar água de toda a casa durante tempestades com baldes para impedir que fosse inundada. "Tenho presenciado esta casa desmoronar ao meu redor há alguns anos."

Em toda o capital e em muitas cidades do interior os cubanos estão começando a investir dinheiro no mercado imobiliário do país, estimulados por medidas governamentais que incentivam a construção e uma nova lei que permite que negociem propriedades pela primeira vez em 50 anos .

As medidas são consideradas uma das principais táticas do presidente Raúl Castro para levar fluxo de capital para a ilha, estimular a iniciativa privada e aliviar um Estado economicamente debilitado.

Durante décadas o governo proibiu as vendas de imóveis e manteve o ramo da construção civil sobre regulamentos muito rígidos.

Materiais de construção eram praticamente inexistentes e os inspetores muito intrometidos. Vendedores negociavam blocos de concreto no mercado negro e a compra um saco de areia parecia um processo semelhante à compra de drogas.

Mas, nos últimos dois meses, o Estado reduziu a quantidade de burocracia, estocou materiais nas lojas de construção, tornou legítimas as empresas de construção privadas e começou a oferecer aos proprietários subsídios e créditos.

Martinez disse que teve sorte de ter conseguido salvar sua casa antes que ela e sua família tivessem que abandoná-la. Uma vez que o telhado estiver consertado, ela disse que gostaria de ter água corrente em sua cozinha, reformar o banheiro e terminar de construir um quarto para seu filho adolescente.

"Preciso de torneiras, portas, janelas, telhas, tudo neste apartamento precisa ser arrumado", ela disse, olhando para as paredes manchadas e para as persianas podres da janela de seu quarto. "Pouco a pouco chegaremos lá.”

Por Victoria Burnett

    Leia tudo sobre: cubafidel castroraúl castroimóveishavana

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG