Após eleição presidencial, McCain concorre para ficar onde está

Há dois anos o senador republicano atraía multidões na disputa presidencial. Agora, ele apenas tenta manter o emprego

The New York Times |

Ele ainda conta a história daquela ligação que recebeu às 2h de uma mulher em Chandler que estava insatisfeita com a mudança na sua coleta de lixo e a antiga piada sobre dois irmãos irlandeses (''O único grupo étnico com o qual ainda se pode fazer piada nos EUA") embriagados em um bar.

Assim como fez em 2000 e 2008, e provavelmente nas suas primeiras campanhas em Parker, no Arizona,  - muito antes de ser chamado de "maverick" -, ele reserva um tempo para os veteranos, crianças e mulheres mais velhas que esperam pacientemente na parte de trás desse centro de idosos com um de seus muitos livros e uma câmera. Ele ainda chama a plateia de "meus amigos".

The New York Times
Senador John McCain fala durante encontro com eleitores em Hampton Inn na cidade de Lake Havasu, Arizona (04/06/2010)
Mas, menos de dois anos depois de ter sido derrotado por Barack Obama, nada parece exatamente o mesmo para o senador John McCain, que passou de candidato presidencial do Partido Republicano que falava para 1 mil partidários em um estádio de futebol na Flórida a defensor furioso de sua vaga no Senado para 60 moradores aflitos com a recessão em um hotel Hampton Inn em Lake Havasu.

As conversas com veteranos ciclistas em feiras estaduais, as longas viagens de ônibus pela Carolina do Sul assistindo ao Aberto de Tênis dos EUA com o senador Lindsey Graham e as visões de domínio do seu partido em Washington são coisas do passado. Assim como seus esforços para negociar diretamente com Obama - agora ele retrata a si mesmo como o atacante do status quo estabelecido em Washington pelo atual presidente.

A nova posição de McCain é na defesa: ele se defende de ataques do flanco direito de seu partido, na forma do ex-deputado J.D. Hayworth, bem como de críticas devastadoras dos eleitores a respeito de sua antiga postura em relação à imigração. Ele também parece estar envolvido em uma batalha interna, optando por um caminho superior, como tem feito historicamente, mas, por vezes, deixando ver a ira que parece sentir a respeito do resultado da eleição de 2008.

Hayworth está atrás de McCain nas pesquisas, arrecadações e apoios. A área de Phoenix está cheia de outdoors de McCain, mas a campanha de Hayworth parece conseguir cada vez mais espaço.

Entre a data estranhamente tardia da primária de 24 de agosto - que pode ter impacto na participação do eleitorado - e a volatilidade de uma base primária que nunca foi muito amigável em relação a McCain, sua equipe continua a pressioná-lo para que faça campanha todos os dias em que não está em Washington.

Na campanha atualmente, há menos daquela energia existente na corrida pela Casa Branca. E o candidato muitas vezes parece adotar um tom diferente.

Em um comício em 2008, o McCain candidato presidencial tomou o microfone de uma senhora que se referiu a Obama como um terrorista e protestou: ''Não, não senhora. Ele é um homem de família decente com quem, por acaso, tenho algumas discordâncias."

Outro dia, diante de cerca de 100 pessoas na Comunidade Parker no oeste do Arizona, um homem que se identificou como um veterano do Vietnã disse: ''Quero saber o que esse cara, qual é mesmo o nome dele, vamos ver, Hussein, Barack Hussein Obama, está fazendo a respeito da nossa saúde."

O rosto de McCain, o candidato ao Senado, resplandeceu divertimento por um instante e então ele olhou para o chão e vestiu uma careta. ''Todos queremos ser respeitosos para com o presidente dos EUA", disse.

Extremamente brilhante e um pouco ranzinza, um McCain visivelmente mais magro percorre o Arizona atualmente, correndo de um pequeno comício para a abertura de um gabinete de campanha e um almoço de negócios em West Valley. A multidão pode ser amorosa ou volátil.

Falando sem anotações sobre qualquer assunto, da Coreia do Norte ao déficit orçamentário e da política de imigração à Previdência Social durante 20 minutos por vez, McCain muitas vezes espelha a experiência e sabedoria que conquistou ao longo dos anos.

Mas ao mesmo tempo ele tropeça como se estivesse se preparando para um golpe verbal. E ele pode mudar do McCain animado de campanhas passadas - de piadas rápidas ou agradecimentos a uma mãe cujo filho está no Iraque pela terceira vez - a uma postura inquieta e defensiva sobre as questões regionais que o afligem no momento.

''Não vou vir aqui e dizer ao governo local o que fazer", McCain disparou contra Darla Tilley, diretora do Centro Parker, que o pressionou no início de junho sobre a falta de lares para idosos no seu município. Um pouco mais tarde, antes de partir para sua próxima parada, McCain articulou à contrição. "Espero me tornar mais como você", disse.

Em uma entrevista posterior, Tilley afirmou ter ficado menos perturbada pelas palavras do que pelo fato de ''o senador não saber ou entender quantos programas financiados pelo Estado perdemos aqui".

Se McCain, candidato à presidência duas vezes, senador e herói de guerra está amargurado por ter que correr por esse vasto Estado para defender sua cadeira contra um ex-apresentador de rádio que uma vez sugeriu que o casamento de pessoas do mesmo sexo pode levar a núpcias com animais, isso não é facilmente perceptível.

Ele nunca menciona Hayworth pelo nome e até agora se recusou a participar de um debate com ele. " Tenho de trabalhar", disse em resposta a um eleitor que o pressionou sobre esse assunto. Organizadores de sua campanha recusaram inúmeros pedidos de entrevistas.

Como na maioria das vezes, McCain é ladeado por apenas um ou dois assistentes, a antiga turma de autoridades eleitas e antigos companheiros heróis de guerra de volta em casa ou planejando seu próprio futuro político, enquanto fala a uma plateia em uma biblioteca em North Scottsdale formada por eleitores que não têm medo de confrontá-lo .

''Todos sabemos o que aconteceu depois do 11 de Setembro ", disse um homem na plateia. "Por que você não fechou essa fronteira. Onde você estava, senador?"

O senador discutiu na biblioteca com o eleitor Richard Martin, que questionou ao longo de 15 minutos a sua história a respeito da legislação imigratória, o seu desgosto pela tortura e sua recusa em debater o seu adversário.

''Você não aceita um debate", disse Martin, enfurecido. "Você tem medo de J. D. Hayworth. As pessoas no Arizona merecem um debate."

Como várias paradas feitas por sua campanha no Estado este mês demonstram, McCain, cuja disposição aos 73 anos é algo surpreendente, muitas vezes é atacado por eleitores cansados de políticos que mudam de posição.

Isso fica ainda mais claro no caso da imigração. McCain tem sido atacado por mudar significativamente sua postura em relação à questão imigratória, de uma que favorecia dar permissão de trabalho a imigrantes ilegais àquela que defende o controle da fronteira. Mas está claro como cristal que é isso que seus eleitores querem e esperam dele.

Embora a criminalidade na fronteira tenha diminuído nesse Estado nos últimos anos, o assassinato de um fazendeiro proeminente no sul, que a polícia suspeita ter sido obra de um imigrante ilegal, causou raiva em todo o Estado e ajudou a alimentar a criação de uma nova lei estadual dirigida aos imigrantes.

Repetidamente ao longo de três dias, McCain foi questionado sobre os motivos que o levaram a apoiar a ''anistia" para imigrantes ilegais no passado ("Nunca apoiei a anistia", diz), e sobre como se sente a respeito de uma lei estadual proposta para impedir que filhos de imigrantes ilegais nascidos nos EUA automaticamente se tornem cidadãos. (Ele evitou responder à questão.) Uma mulher em um comício sugeriu que ela gostaria de "pegar uma arma" e ajudar os agentes de fronteira, um refrão não raro por aqui.

''As pessoas na parte sul do Estado não estão seguras em suas casas", McCain disse inúmeras vezes, ao som de aplausos.

No entanto, apesar de sua retórica sobre os problemas do Arizona, McCain também não passa de um homem de um argumento único contra Washington, geralmente centrado no déficit e no novo sistema de saúde. ''Meu adesivo favorito é aquele que diz: 'Não diga a Obama o que vem depois de um trilhão de dólares'", disse - usando uma piada pronta confiável.

* Por Jennifer Steinhauer

    Leia tudo sobre: John McCainEUAsenadorimigraçãoArizonaBarack Obama

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG