Após ataques, noruegueses consideram armar sua polícia

Policiais, que devem ter autorização de superior para ter acesso a armas de fogo, são criticados por reação lenta a ataque em ilha

The New York Times |

Quando um homem vestido com um uniforme da polícia começou a disparar contra jovens em um acampamento de verão da Noruega na sexta-feira, um dos primeiros a serem mortos foi um policial de verdade chamado Trond Berntsen, que durante anos havia trabalhado na segurança do local.

Ainda não se sabe se Berntsen tentou parar o atirador. Mas diante de um homem carregando diversas armas e munições ampla, havia pouco que ele pudesse fazer. Como a maioria dos outros policiais locais, ele não carregava uma arma.

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Policiais noruegueses do lado de fora do tribunal onde Anders Breivik compareceu a uma audiência na segunda-feira (25/7)
Por lei, os policiais noruegueses devem ter autorização de seu chefe para ter acesso a uma arma de fogo, mas eles raramente precisavam pedir uma - pelo menos até recentemente. A criminalidade violenta tem aumentado, abalando uma sociedade acostumada a deixar as portas destravadas e as crianças brincando sem medo. Juntamente com as críticas crescentes à resposta supostamente lenta da polícia aos ataques e à confusão sobre o número de mortos, que foi rebaixado na segunda-feira de 93 para 76, há crescentes dúvidas sobre a polícia estar preparada para lidar com os desafios que enfrenta.

"Como os criminosos agora carregam armas, algumas pessoas pensam que os policiais deveriam ter armas também", disse Gry Jorunn Holmen, porta-voz do sindicato da polícia norueguesa. Embora ela diga que ainda é muito cedo para se fazer qualquer avaliação, Holmen afirmou que o sindicato criou uma comissão para analisar a questão. Para a polícia, ela disse, "está ficando mais difícil."

As unidades de operações especiais da polícia precisaram de mais de uma hora para chegar ao acampamento, na ilha Utoya, depois que relatos dos disparos chegaram à central, e elas tiveram de dirigir até a praia em frente ao local e usar barcos para chegar à ilha. Um helicóptero da polícia foi incapaz de sair do chão; equipes de reportagem que chegaram à ilha por via aérea puderam apenas registrar o atirador que continuava a massacrar as crianças.

Anne Holt, ex-ministro da Justiça do país, disse à BBC: "Isso faz dele alguém que matou uma pessoa por minuto. Se a polícia tivesse realmente estado lá meio uma hora mais cedo, então 30 jovens vidas teriam sido salvas”.

Berntsen, 51 anos, que foi meio-irmão da princesa da coroa da Noruega, foi homenageado em uma missa na segunda-feira. A sua foi uma das primeiras de muitas missas e funerais que devem acontecer nos próximos dias, depois do ataque de Anders Breivik , que provavelmente disparou mais rodadas em sua fúria de uma hora do que a maioria dos policiais noruegueses tipicamente disparam ao longo de um carreira toda.

Índices

A Noruega é internacionalmente conhecida por sua baixa taxa de crimes violentos, que é um orgulho para muitos noruegueses. Assassinatos, quando ocorrem, são notícia de primeira página no país. Em 2009, a última data para a qual há estatísticas oficiais disponíveis, houve 29 assassinatos no país de 4,6 milhões de pessoas. Em Oslo, a capital, oficiais de alto escalão raramente se preocupam com sua própria segurança.

"Você pode andar por essa cidade e esbarrar em um ministro do governo que passeia pela rua e conversar com ele", disse Kristian Berg Harpviken, diretor do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo.

Exatamente por isso é chocante para muitos, após os ataques, ver tropas armadas diante dos edifícios governamentais. O país está agora claramente assustado e, é claro, dizem os especialistas, que algumas coisas podem ter de mudar. A Noruega é um dos únicos três países da Europa Ocidental sem uma força policial armada. A maioria dos policiais no Reino Unido e na Irlanda também não porta armas de fogo. A vizinha Suécia começou a exigir que seus oficiais portassem armas em 1965.

Incidentes de violência contra oficiais públicos dobraram desde 1993, para um total de 1287 desde 2009, de acordo com estatísticas oficiais. Durante a última década, a frequência de estupro e outras agressões aumentaram cada vez mais, mostram as estatísticas. As taxas de homicídio, no entanto, mantiveram-se estáveis.

A presença crescente de redes criminosas estrangeiras ativas na Noruega é parte da razão para o aumento no crime, segundo Holmen e outros, embora grupos criminosos domésticos também tenham se tornado mais ousados. Apenas dois dias depois dos ataques, homens em uniformes militares atiraram em um homem de 27 anos de idade até a morte em sua casa no sul da Noruega, segundo agências de notícias locais.

Embora as taxas de crime norueguesas ainda pareçam insignificantes em comparação com um país como os Estados Unidos, o aumento na violência, ainda que pequeno, conseguiu desestabilizar a população local.

Atualmente, apenas policiais responsáveis por patrulhas armadas para a verificação de carros têm acesso imediato às armas. Por lei, no entanto, elas têm de permanecer sem carga e trancadas em uma caixa no carro, a menos que autorização seja dada.

Alguns especialistas temem que armar os policiais apenas leve a uma escalada na violência conforme os criminosos se armem em resposta. Para muitos, porém, a resistência à ideia tem mais a ver com o orgulho nacional norueguês.

"Eu preferiria viver em uma sociedade onde a polícia normalmente trabalha desarmada", disse Johannes Knutsson, professor de pesquisa da polícia na Universidade da Polícia da Noruega. "Esse é um sinal muito forte e simbólico para os cidadãos de que se trata de uma sociedade pacífica."

*Por Michael Schwirtz

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