Após anos de guerra no Iraque, poucos veem um futuro melhor

Longe de panorama e gráficos traçados pelos americanos, há desilusão e falta de esperança no pós-guerra do país

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A invasão do Iraque, sua ocupação e o tumulto que se seguiu foram chamados de Operação Liberdade Iraquiana na época. Na operação atual, batizada de Novo Amanhecer, a tentativa dos Estados Unidos de encerrar uma impopular guerra colidiu com uma desconexão familiar desde 2003: os gráficos e as tendências oferecidos pelos oficiais americanos nunca parecem capturar o intangível que tantas vezes tem dado forma aos pivôs da guerra no Iraque.

Chame-o de humor e seria possível dizer que o país, aparentemente sempre inquieto e insatisfeito, está passando por uma enorme quantidade de dias ruins.

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Bombardeio das forças americanas na capital Bagdá, em 2008
“Nada mudou, nada!”, gritou Yusuf Sabah na voz de alguém que é raramente ouvido, enquanto esperava para comprar gasolina dentro do carro em uma fila que ia longe em uma estrada de terra passando por uma barreira de arame farpado, pedaços de concreto e lixo tudo uniformemente coberto por terra. “Desde a queda de Saddam, até agora, nada mudou. Pelo contrário, continuamos a andar para trás”.

O Iraque que os oficiais americanos retratam hoje – mais seguro, mais pacífico, com mais da pompa de um Estado – usa 2006 como base, quando o país estava à beira de uma queda niilista em carnificina.

Para muitos em Bagdá, porém, o ponto de partida é a declaração que o presidente George W. Bush fez no dia 10 março de 2003, 10 dias antes da invasão, quando prometeu que “a vida do cidadão iraquiano vai melhorar significativamente”.

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Militar americano em Najaf, que foi destruída pelos confrontos, em 2004
Sufocante

O Iraque gera mais eletricidade do que na época, mas a demanda muito maior deixou muitos em meio a um calor sufocante. A água é muitas vezes suja. As forças de segurança iraquianas são onipresentes, mas habitualmente ridicularizadas por seu aspecto maltrapilho e aparente falta de profissionalismo. Os postos de controle da polícia param o trânsito e não ajudam em nada.

O que os oficiais americanos retratam como sua maior realização – uma democracia nascente, ainda que imperfeita – muitas vezes gera uma resposta triste. “As pessoas não podem viver apenas do ar que respiram”, disse o artista Qassem Sebti.

Em um conflito muitas vezes definido por consequências não intencionais, as eleições de março poderiam ter se mostrado um ponto de virada de forma inesperada. As pessoas participaram em um grau sem precedentes, independentemente de seita e etnia.

Mas quase seis meses depois, os políticos ainda estão em um impasse sobre a formação de um governo. O ano de 2003, quando os americanos invadiram o país, muitas vezes ecoa em 2010, quando começam a partir.

As filas nos postos de gasolina voltaram, como o maior testemunho de uma das ironias do Iraque: um país com a terceira maior reserva mundial de petróleo em que as pessoas têm de suportar longas esperas por gasolina.

“Ghamidh” era a palavra ouvida com frequência nos primeiros anos. Ela significa obscuro e ambíguo, e na época, como agora, era normalmente a resposta a qualquer pergunta. “Depois de sete anos o nosso destino ainda é desconhecido”, disse Sabah, esperando na fila da gasolina. “Quando você olha para o futuro, não tem ideia do que ele reserva”.

*Por Anthony Shadid

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