Após 75 anos, Fred Astaire e Ginger Rogers parecem encontrar felicidade de Hollywood

Quando nos apaixonamos, escolhemos ter uma experiência já vivida por outros. Muitas vezes é isso que temos em mente: o desejo de compartilhar um pouco do que aconteceu entre Romeu e Julieta, ou entre Lizzy e Darcy, do romance ¿Orgulho e Preconceito¿, ou simplesmente entre nossos próprios pais. Um desses arquétipos de romance nasceu 75 anos atrás com a estréia de ¿A Alegre Divorciada¿, com Fred Astaire e Ginger Rogers.

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Fred Astaire e Ginger Rogers em cena

O cinema já teve muitos casais clássicos: vários, na verdade, somente em 1934 ¿ ano de estréia dos filmes Aconteceu Naquela Noite, Suprema Conquista e A Ceia dos Acusados. Em termos de dança, porém, nunca houve outro casal que glorificasse o amor romântico de forma tão definitiva.

Dançando juntos, Astaire e Rogers expressaram muitos aspectos do amor: a conquista e a sedução, as conversas sagazes e a receptividade às mesmas, a provocação e o desafio, a surpresa da recém-encontrada harmonia e a feliz reconquista do romance perdido, a alegria frívola e o acordo mútuo, a sensação do perfeito equilíbrio do poder, a tragédia da partida e, não menos importante, o sentido do amor quando encenado. É estarrecedor como tantas dessas nuances já podem ser percebidas desde a música Night and Day, primeiro dueto romântico do casal em A Alegre Divorciada.

A história já foi contada diversas vezes. Depois de anos de parceria com sua irmã Adele, Astaire (1899-1987) deu início a uma nova fase romântica ao contracenar com Claire Luce em 1932 em palcos londrinos com a peça The Gay Divorce (sem tradução para o português), de Cole Porter, que teve destaque com o número Night and Day. Ao chegar a Hollywood, em 1933, Astaire já era um astro completo. Quando ele e Rogers (1911-95) alcançaram o quarto e o quinto maiores cachês da RKO com o filme Voando Para o Rio naquele ano, o flerte rápido da dupla durante o número The Carioca se tornou a sensação do filme.

A peça The Gay Divorce não demorou ser adaptada para o cinema sob o título de A Alegre Divorciada, com um novo time de estrelas. Astaire e Rogers fizeram mais sete filmes juntos para a RKO na década de 1930. Para suas coreografias, Astaire fazia especificações para a equipe de filmagem estabelecendo padrões inalcançáveis: filmar os dançarinos em quadro aberto, sem close-up; manter as tomadas de reações ao mínimo; seguir a coreografia com a câmera com o menor número de tomadas possíveis ¿ de preferência em apenas uma.

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Cúmplice, a dupla sorri em "O Picolino" (1935), cuja história se passa em Londres

Ele continuou contracenando com diversas outras mulheres ¿ seus fãs gostam de debater quem teria sido a parceira ideal, desde Ginger: Rita Hayworth? Cyd Charisse? Eleanor Powell? Gracie Allen? Mas, apesar de ter desenvolvido a maestria de seus solos nos anos 1940, sua química com Rogers nas telas nunca foi alcançada em outra parceria.

O segredo do casal

Ao assistir Astaire e Rogers dançando Night and Day em A Alegre Divorciada é difícil dizer o quanto Astaire adaptou a coreografia desde sua atuação com Luce ¿ e na ocasião do filme, Rogers ainda não mostrava toda a suavidade e desenvoltura ao dançar que viria a ter dois anos mais tarde. Mesmo assim, já vemos a alquimia Astaire-Rogers com força total. Muito disso tem a ver com as reações multifacetadas de Roger para Astaire.

As tantas restrições são visíveis no rosto atento de Rogers. Vários são os aspectos que tornam sua atuação impressionante: suas pausas súbitas ao se dirigir a Astaire (como se admitisse a existência de um campo de força entre eles); ou quando a certa altura ela se comporta como uma sonâmbula indefesa enquanto em outros momentos parece estar se divertindo a valer; ou ainda em sua maneira extremamente doce de dar a entemder que amar (e dançar com um parceiro) é algo que ela está feliz em ir aprendendo com o tempo; as ondulações que em certos momentos tomam conta de seu corpo, através da espinha dorsal até as pélvis; os passos largos e determinados com os quais ela se afasta dele em certo momento e depois, quando ele a impede, sua misteriosa desenvoltura ao quase lhe dar uma bofetada (e seu jeito suave ao observá-lo enquanto ele rodopia pelo salão). A forma como Astaire mantém o controle nos prende a atenção. Porém, a maneira como ela reage, envolvida da cabeça aos pés, dão a profundidade ao dueto.

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Cartaz de "A Alegre Divorciada"

Dois anos depois de atuar em A Alegre Divorciada, Rogers atingiu seu apogeu em Ritmo Louco (1936). Naquela época ela já tinha o corpo de dançarina mais bonito que as telas já haviam mostrado. As tomadas de suas pernas no número Pick Yourself Up (elas são reveladas durante o sapateado por sua saia na altura do joelho) já são o suficiente para nos fazer engasgar. Ela conseguia arquear sua coluna de diversas formas, todas elas aparentemente repletas de sentimentos; sua cintura fina era arrebatadora.

Apesar de tudo, ela nunca aparentava um ar de superioridade. Na verdade, ela não se comportava ou se apresenta como uma mulher bonita. Sua simplicidade e espontaneidade (basta observar suas mãos e braços) eram pontos centrais de sua atratividade. Apesar de sempre guardar tais qualidades, em algumas partes de Ritmo Louco (e em outros filmes importantes da dupla) ela e Astaire se tornam divindades e, juntos, traçam o exemplo perfeito de glamour, amor e dança.

Talvez o ponto alto da parceria seja o número Waltz in Swing Time, com Astaire em black-tie e Rogers em um longo branco, filmado em apenas uma tomada. A coreografia é inédita, assim como muitas outras do filme (The Carioca, The Continental, The Piccolino, o sapateado de patins, The Yam) e provavelmente é também a mais surpreendente em termos de dança pura. Embora se movam de forma rápida e percussiva, eles parecem deslizar em um fluxo lento e ininterrupto. Mesmo combinando ritmos de swing e valsa (como se estivessem cavalgando em dois cavalos ao mesmo tempo), a impressão de arrebatamento impulsivo é muito mais forte do que de virtuosidade rítmica.

A meu ver, a dupla Astaire e Rogers se tornou mais clássica do que nunca. Com a popularização da dança de salão através do reality show So You Think You Can Dance, a imagem de Astaire e Rogers é sempre lembrada (Burn the Floor, musical repugnante em cartaz na Broadway que leva ao palco 16 estrelas de So You Think, traz um episódio no qual um casal, e depois outro, aparecem vestidos como Astaire e Rogers, em uma paródia musical do número Lets Face the Music and Dance, do filme Follow the Fleet, de 1936).

Eternizados em DVD

Foi somente na década de 1960 que a excelência coreográfica dos duetos de Astaire e Rogers recebeu a atenção séria da crítica. Até então conhecida especialmente como crítica de cinema, Arlene Croce fundou em 1965 a revista Ballet Review (que floresce até os dias de hoje): uma de suas duas contribuições mais marcantes à primeira edição foi o ensaio Notes on La Bele, La Perfectly Swell, Romance (publicado em 2008 na antologia de Robert Gottlieb intitulada Reading Dance).

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Fred Astaire e Ginger Rogers se divertem em "Dance Comigo" ("Carefree", 1938)

Em 1972, Croce deu sequência à revista com um dos trabalhos sobre literatura da dança mais admirados até hoje: a publicação The Fred Astaire and Ginger Rogers Book. Através de sua prosa, que se equipara à magnitude destes dois clássicos, seu livro também se tornou um clássico ¿ sendo mencionado e citado em inúmeras publicações sobre a dupla Astaire-Rogers, assim como em musicais para o cinema e comédias românticas. Apesar de esgotado na editora, vale a pena esperar um possível relançamento deste livro ¿ uma vez que isso já ocorreu anteriormente.

Nas décadas de 1960 e 1970, era preciso esperar os filmes de Astaire e Rogers chegarem à televisão ou às salas de projeção especializadas. Muitas vezes era preciso esperar por anos, como no caso de Roberta (1935). Croce teve uma opinião apurada ao dizer que este foi o filme mais exuberante da dupla. A MGM, porém (que lançou um remake do filme em 1952 com o título Lovely to Look At), por décadas tentou enterrá-lo. Agora chega ao mercado um conjunto de DVDs dos 10 filmes da dupla Astaire-Rogers, no qual você pode assistir Roberta quantas vezes seu coração pedir. O DVD The Swing Time traz comentários de John Mueller, cujo estudo de 440 páginas, intitulado Astaire Dancing (1986), é tão indispensável para o estudo de Astaire como o livro de Croce.

O gosto e a prosa de alto nível de Croce e a análise minuciosa de Mueller ainda prevalecem diante de dois lançamentos recentes: os livros Fred & Ginger, de Hannah Hyam (Pen Press Publishers), e Fred Astaire, de Joseph Epstein (Yale University Press). Estes escritores, porém, são totalmente opostos. Epstein faz um comentário casual: Não me lembro se já assisti Top Hat cinco ou seis vezes, mas ainda continuo encontrando novidades no filme, enquanto Hyam, de maneira não menos casual, afirma: É necessário assistir Waltz Swing Time pelo menos 12 vezes antes de tentar captar a riqueza de detalhes presentes no filme.

Não vejo a necessidade de ler 191 páginas sobre Astaire escritas por alguém que assistiu Top Hat apenas seis vezes, no máximo (o roteiro é tão medíocre, escreveu Epstein) e se apóia firmemente em referências e citações escritas por outros. A certa altura Epstein nos conta que Astaire provavelmente ensaiou mais do que o necessário, em outro momento ele se pergunta por que Astaire precisava ensaiar tanto.

Nenhum dos dois livros faz referência a outro clássico, o filme Romantic Comedy in Hollywood: From Lubitsch to Sturges, de James Harvey, que coloca claramente Astaire e Rogers no total contexto de um filme e nos oferece muito mais para ver e considerar. As duas novas publicações tampouco traçam reflexões sobre a complexidade barroca dos inúmeros espetáculos dentro do filmes e dos dramas contidos nos dramas ¿ tornando-os tão enriquecedores.

O fato de que Fred e Ginger estão sempre representando papéis (dentro de seus próprios papéis) nestes filmes deveria torná-los mais artificiais, mais forçados.  O que vemos, porém, é uma maior profundidade e complexidade em suas atuações e nos diferentes aspectos de amor expressados por eles. Muitas vezes, ao contracenarem em uma cena de dança ensaiada (segundo nos conta a trama do filme) e se apresentarem diante de uma plateia (que os aplaude), eles acabam se tornando muito mais espontâneos e tocantes, e seu amor parece ainda mais real. Hyam está certa: Precisamos continuar revendo estes filmes. Geralmente hilários e envolventes, eles sempre merecerão estudos minuciosos.

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