Após 30 anos, reforma da Times Square será concluída

Revitalização de ponto histórico da cidade fez criminalidade diminuir e atraiu empresas e turistas

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No próximo mês, o número 11 da Times Square, um novo prédio de escritórios de 40 andares, será inaugurado formalmente com o seu primeiro inquilino. Comparado com a metamorfose que ocorreu em torno dele, não há nada de extraordinário sobre o edifício, exceto o fato de que sua conclusão assinala oficialmente o fim da longa e tortuosa reforma da Times Square, um processo que começou há 30 anos.

O plano, de reformar radicalmente mais de 13 hectares entre a Broadway e a Oitava Avenida, principalmente diante da rua 42, sobreviveu a três prefeitos, quatro governadores, duas expansões imobiliárias e duas recessões. Ele enfrentou zombaria generalizada no início, de nova-iorquinos desconfiados de grandes planos. Ele enfrenta escárnio ocasional de nova-iorquinos que falam da antiga Times Square com um carinho recém-descoberto.

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Pedestres caminham entre cartazes e placas de cinemas e teatros na Times Square
O projeto incorporou tanto o orgulho do planejamento de desenvolvimento urbano quanto suas possibilidades e mostrou o valor de abandonar os planos e começar de novo no meio do caminho. E tem sido uma experiência primordial para uma cidade que está construindo, ou tentando construir, vários projetos de bilhões de dólares, incluindo o Marco Zero.

"Muitas vezes, as pessoas dizem que Nova York já não pode construir projetos de grande escala ", disse Lynne B. Sagalynn, professora de finanças imobiliárias da Universidade de Columbia e autora de Times Square Roulette: Remaking the Ciy Icon" (Roleta da Times Square: A Reconstrução de um ícone, em tradução livre). “Mas a Times Square é um exemplo de como a cidade foi capaz de pensar em grande escala e concretizar”, disse Lynne. ''Pode demorar uma década ou duas para a visão completa se tornar realidade. Mas aqui isso aconteceu”.

O sucesso é evidente. A criminalidade caiu significativamente desde os dias em que cafetões, prostitutas, drogados e traficantes dominavam a área. O número de turistas aumentou 74% desde 1993, chegando a um total estimado de 36,5 milhões no ano passado, e a participação em shows da Broadway subiu para quase 12 milhões.

Empresas

Morgan Stanley, Allianz Global Investors, Viacom e Conde Nast agora têm suas sedes corporativas ali. As lojas pagam aluguéis de até US$ 1,4 mil por metro quadrado, perdendo em preço apenas para aqueles em trechos das chiques Quinta Avenida e Avenida Madison.

E enquanto muitos outdoors na Times Square estavam em branco em 1979, hoje a área é um caleidoscópio de imagens em movimento, retratando as instituições financeiras, montadoras e empresas da moda, com os melhores pontos na fachada do número 1 da Times Square valendo até US$ 4 milhões por ano.

''A ironia é que este lugar representa em muitos aspectos o epítome do capitalismo de livre mercado", disse Tim Tompkins, presidente da Times Square Alliance. "Mas a sua transformação se deve mais à intervenção do governo do que qualquer outro empreendimento no país”.

A Times Square, é claro, tem certas qualidades únicas que nenhum dos projetos atuais da cidade tem: a praça fica no meio de Manhattan, tem uma história rica e secular e é reconhecida internacionalmente como a principal encruzilhada do mundo.

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Foto mostra Times Square em 1976
Mas o renascimento muitas vezes doloroso também adotou perseverança e uma abordagem de longo prazo, características raras em uma cidade obcecada por fazer as coisas acontecerem em um “minuto nova-iorquino”.

Histórico

O esforço começou em 1980 quando, depois de anos de queixas e largadas falsas, o prefeito Edward I. Koch e oficiais do Estado anunciaram a reforma da Times Square.

A construtora George Klein, que mais tarde formou uma joint venture com a Prudential, foi escolhida para construir quatro arranha-céus no famoso cruzamento da rua 42, na Broadway, com a Sétima Avenida. O Estado assumiria os teatros decrépitos, expulsaria os programas de sexo ao vivo e cinemas pornográficos e restauraria a antiga dignidade da região. As estações de metrô seriam renovadas e um enorme centro de compras seria construído na Oitava Avenida, entre as ruas 40 e 42, em frente ao terminal rodoviário da Autoridade Portuária.

O plano previa o uso do domínio eminente e os proprietários dos teatros e edifícios de escritórios nas proximidades, como a família Durst, resistiram.

Também houve críticas às grandes isenções fiscais concedidas às construtoras e lojistas atuantes na Times Square. A Sociedade de Arte Municipal, um grupo privado de preservação e planejamento urbano, chegou a estimar que a reforma necessitaria de mais de US$ 1 bilhão em isenções fiscais “desnecessárias” e outros benefícios como mudanças de zoneamento que permitiriam a construção de prédios mais altos.

Quando o Estado conseguiu rechaçar as 47 ações judiciais movidas contra o projeto, uma severa recessão atingiu o país em 1991. No ano seguinte, pela primeira vez, o governador Mario Cuomo não mencionou a Times Square em seu discurso.

Rebecca Robertson, então presidente do projeto de construção da rua 42, temia que todo o plano seria abandonado. A Prudential, que já tinha colocado US$ 241 milhões em terrenos, ameaçou abandonar o projeto se fosse forçada a construir prédios em um momento no qual seria difícil encontrar inquilinos. Mais tempo foi dado ao projeto.

Mas mesmo o período sombrio, segundo Robertson, também provou ser uma oportunidade para revisar um plano de desenvolvimento muito criticado, cujos quatro enormes arranha-céus foram projetados mais para enterrar o passado sórdido do que para comemorar a ligação da Times Square com a cultura popular.

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Foto de 1986 mostra Rua 42 com a Oitava Avenida, na Times Square
Robertson, em conjunto com o arquiteto Robert A. M. Stern e o designer gráfico Tibor Kalman, conceberam um plano provisório enfatizando o entretenimento, grandes outdoors, uma mistura eclética de inquilinos e elegantes prédios de escritórios com lobbies de entrada que parecem fluir para a calçada ao invés de empareda-la.

''Para mim, o problema no mercado foi uma época maravilhosa para repensar o projeto", disse Robertson, referindo-se a um crash da bolsa em 1987. "Nós não poderíamos ter começado o nosso plano em um mercado aquecido. As pressões teriam sido fortes demais. Todo mundo discutiria o grande arrendatário que iríamos conseguir e não a restauração da cultura popular e do entretenimento”.

Disney

A frequente queixa sobre a Disneyficação da Times Square, por vezes, perde de vista o fato de que foi a Walt Disney Company, mais do que qualquer outra empresa, que ajudou a iniciar a recuperação da região.

A Disney queria o seu próprio teatro na Broadway, mas temia ser um posto avançado solitário em uma região hostil. Uma negociadora feroz, apesar de sua imagem associada ao dócil Mickey Mouse, a Disney chegou a um acordo para assumir o teatro New Amsterdam nos últimos dias da posse do prefeito David Dinkins, e conseguiu um empréstimo de juros baixos por parte do Estado e encorajou oficiais a assinar acordos com o museu Madame Tussauds e os cinemas AMC, que tomaram o restante do quarteirão.

O teatro restaurado já está em funcionamento e teve duas peças de grande sucesso da Disney, O Rei Leão, que mais tarde mudou-se poucos quarteirões abaixo para o Teatro Minskoff, e agora Mary Poppins.

A economia se recuperou e, em seguida, outros empreendimentos tomaram conta da região, como o Hotel Westin, mais teatros e o BB King Blues Club and Grill. Douglas Durst, um adversário, construiu o prédio do número 4 da Times Square, o edifício onde hoje fica a editora Conde Nast, em terreno que adquiriu da Prudential. Seguiu-se a construção dos prédios da Reuters, Ernst & Young, onde antes ficavam apenas lojas de pornografia e carrinhos de cachorro quente.

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Reforma da Time Square sobreviveu a diferentes gestões municipais e estaduais
O número 1 da Times Square, o edifício de onde cai a bola comemorativa na véspera de Ano Novo, agora é o espaço publicitário mais caro do mundo, vendido por US$ 110 milhões em 1997, quatro vezes o que tinha pedido apenas dois anos antes, após passar por uma desapropriação.

Mesmo sob protestos dos proprietários, o Estado condenou um quarteirão que continha 55 empresas, incluindo uma escola técnica, uma loja de chapéus e sex shops, para construir a terceira sede do New York Times no bairro em um século.

E há o número 11 da Times Square, na última região a ser reconstruída, um sinal do progresso, mas também dos desafios à frente da Times Square. Ele foi construído de forma especulativa, sem inquilinos, e agora está buscando preencher seus andares em meio à concorrência com outros edifícios, incluindo aqueles que estão sendo construídos no Marco Zero. A Proskauer Rose, um grande escritório de advocacia, seu primeiro ocupante, deve se mudar no próximo mês.

Um dos últimos remanescentes da antiga Times Square é Jimmy Glenn, o proprietário do Jimmy's Corner, um bar na rua 44 com a Sétima Avenida. Antigo treinador de boxe, Glenn foi o dono da Academia Times Square, que ficava no primeiro andar de um prédio na rua 42 – lutadores de boxe como Ali, Frazier e Tyson subiram sua longa escada para treinar em seu ringue.

Aos 80 anos, Glenn não sente falta dos viciados em drogas, das lojas de pornografia e dos criminosos. ''Todo mundo ama a Times Square agora”, disse.

*Por Charles V. Bagli

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