Após 22 anos, menino refugiado do Sudão volta para casa

Garotos do sul do país, espalhados pelo mundo por conflito com o norte, começam a retornar para votar referendo sobre separação

The New York Times |

Joseph Gatyoung Khan prometeu a si mesmo, no banco de trás de um Land Cruiser em uma estrada de Nyal, enquanto se dirigia para casa pela primeira vez em 22 anos: "Eu não vou chorar".

Ele não havia visto seus pais por duas décadas. Não havia pisado em sua aldeia desde que foi embora em 1988 quando era um menino de 8 anos e prestes a embarcar, descalço, em uma odisseia através de uma das piores guerras civis da África.

Sua história se repetiria milhares de vezes e uma geração de garotos do sul do Sudão, espalhados pelo conflito, viria a ser conhecida como os Meninos Perdidos.

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Khan (C) é recebido de volta ao vilarejo de Nyal, no sul do Sudão
A maioria havia sido expulsa por suas famílias, no auge do conflito, e acabou caminhando centenas de quilômetros através de pântanos, desertos e territórios hostis – muitas vezes em bandos e, às vezes, perseguidos por bombardeiros do governo e comerciantes de escravos, frequentemente forçados a ser soldados.

Milhares deles, incluindo Khan, foram reassentados nos Estados Unidos onde passaram por outro processo difícil: se encaixar.

Khan passou os últimos sete anos trabalhando para progredir, do turno da madrugada em um cassino a aluno honorário da Universidade de Iowa. Ele enfim conseguiu comprar um Isuzu Rodeo. Mas agora está voltando para casa, no momento em que o sul do Sudão está finalmente concluindo sua própria trajetória épica.

Referendo

No dia 9 de janeiro, o povo do sul do Sudão vai votar em um referendo para decidir se eles vão se separar do norte e formar seu próprio país. A eleição será o ponto crucial em uma luta de libertação que já dura 50 anos na qual mais de 2 milhões de pessoas foram mortas, conforme a parte cristã e animista do sul do país lutava contra os governantes árabes no norte.

Tal como em Darfur, o governo permitiu que milícias fizessem seu trabalho sujo, e essas milícias arrasaram vilas, estupraram mulheres, massacraram civis e sequestraram crianças do sul para vender como escravos.

O referendo deve ser aprovado, desenhando assim uma nova linha no mapa e reorganizando alianças comerciais e políticas em todo este trecho do continente.

O recenseamento eleitoral já teve início, com postos alocados nos Estados Unidos, Europa e até na Austrália para os sudaneses do sul que vivem no exterior.

Ainda assim, muitos Meninos Perdidos estão voltando para votar em sua terra natal. "Queremos estar no Sudão, sentir essa conexão, olhar para as sepulturas e pensar naqueles que caíram", disse Valentino Deng Achak, cuja vida em fuga foi tema do livro best-seller "What Is the What?". "Tudo aquilo foi em nome de uma coisa: autodeterminação. Agora é a hora".

Mas a alegria de seu regresso é misturada com a ambivalência, a incerteza e o medo. Será que o norte realmente deixou o sul em paz? Será que vai haver outra guerra? "Eu tenho medo", disse Khan.

*Por Jeffrey Gettleman

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