Após 20 anos, declínio da antiga Alemanha Oriental continua

HOYERSWERDA, Alemanha - Neste ano, o 20º desde a queda do Muro de Berlim, o governo da chanceler Angela Merkel se prepara para uma série de comemorações que vão marcar a data em novembro.

The New York Times |

Mas fora de grandes cidades como Dresden, Leipzig ou Berlim, em lugares como Hoyerswerda, uma pequena e antiga vila mineradora, a história de declínio mudou pouco na Alemanha Oriental.

Quando oficiais do governo alemão apresentaram, em junho, seu relatório anual sobre o estado da unificação e as tentativas da antiga Alemanha Oriental em alcançar o desenvolvimento do ocidente, a imagem que retrataram foi esmagadoramente positiva, mas longe de completa.

O governo revelou com exatidão o investimento de US$ 60 bilhões no apoio a negócios e reformas de infraestrutura apenas entre 2006 e 2008. A atividade econômica por pessoa aumentou de 67% para 71% ao longo da última década.

"O vão está menor", disse Wolfgang Tiefensee, ministro responsável pelo desenvolvimento de Estados da antiga Alemanha Oriental.

Mas o estreitamento se deve parcialmente ao fato de os líderes exportadores que foram os principais atingidos pela crise econômica estarem localizados no ocidente, o que nivela os dois blocos por baixo e não por cima.

O desemprego na antiga Alemanha Oriental permanece o dobro do registrado no ocidente, e em algumas regiões o número de mulheres entre 20 e 30 anos caiu mais de 30%. No geral, cerca de 1.7 milhões de pessoas deixaram a antiga Alemanha Oriental desde a queda do Muro de Berlim, cerca de 12% da população.

O declínio da população está perto de piorar: o índice de nascimentos na antiga Alemanha Oriental caiu drasticamente nos primeiros e incertos anos, tanto que a queda é comparável apenas a épocas de guerra, de acordo com Reiner Klingholz, diretor do Instituto de Desenvolvimento e População de Berlim.

O jornal Frankfurter Allgemeine Zeitung reportou recentemente que, apesar de 14 mil jovens se formarem no ensino médio este ano na Saxônia, no ano que vem o número será de apenas 7.500. Desde 1989, cerca de 2 mil escolas fecharam em toda a região da antiga Alemanha Oriental devido à falta de crianças.

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A cidade de Hoyerswerda perdeu 40% da população desde 1989

A cidade de Hoyerswerda perdeu 40% da população desde 1989

Assim, em Hoyerswerda, antes uma cidade modelo da Alemanha Oriental comunista com o maior índice de nascimento do país, a média de idade aumentou, como em muitas cidades pequenas, de 35 anos em 1989 para 48 anos hoje.

O vazio é o sentimento dominante durante um passeio pela cidade, que perdeu mais de 40% de seus moradores desde a queda do muro, com a população caindo de 70 mil pessoas para menos de 40 mil.

Franziska Kalkbrenner, 18, pretende trabalhar na Nova Zelândia no próximo ano, e depois espera fazer faculdade. Ela ainda não sabe em que lugar, mas não em Hoyerswerda, onde não existem instituições de ensino superior.

Como muitas moradoras, porém, ela não descreve a si mesma como alguém que deixa Hoyerswerda feliz, mas, sim, por necessidade. Eu gostaria de poder morar aqui. Cresci neste lugar e gosto da cidade, disse ela.

A maioria das pessoas que deixa a cidade, como Kalkbrenner, o faz em busca de trabalho. De acordo com o governo municipal, o complexo industrial de Schwarze Pumpe costumava oferecer 13 mil vagas de emprego em Hoyerswerda nos tempos do comunismo, mas agora só oferece 4.500. As minas próximas, que chegaram a empregar 5 mil pessoas, hoje têm 500 vagas ou menos.

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Ex-moradora observa abandono da cidade de Hoyerswerda

Judika Zirzow observa abandono da cidade de Hoyerswerda

O governo está demolindo apartamentos para tentar acompanhar a diminuição da população. Em uma cidade que chegou a ter 21 mil apartamentos, 7.500 foram derrubados e outros 2 mil já têm data para ser demolidos.

Vinda da cidade onde mora atualmente, Karlsruhe, para uma visita a Hoyerswerda, Judika Zirzow ficou parada em uma extensão de terra cheia de marcas de escavadeira. O árido local foi, no passado, um edifício de apartamentos, um dos pilares do antigo Wohnkomplex, ou projeto habitacional, da Alemanha Oriental. Além disso, foi o lugar onde ela cresceu.

Sempre que visito meus pais, dirijo por Hoyerswerda e vejo uma nova casa que foi demolida, disse Zirzow, 24, que trabalha em um banco. A cara de Hoyerswerda está diferente.

Ela disse estar ciente de que tem oportunidades que não teria sob o regime comunista, como uma recente viagem à Tailândia com seu namorado australiano. Mas isso não muda o que ela sente quando volta à cidade. É triste pensar que, se tiver filhos, nunca vou poder dizer a eles: foi aqui que eu cresci, disse Zirzow.

A mãe dela, Andrea Zirzow, tem apenas 46 anos mas já viu mudanças suficientes para toda uma vida. Eu vi a construção do apartamento onde as crianças cresceram, disse ela. Eu estava feliz quando mudamos para um dos prédios mais novos da cidade. Foi como se tivesse ganhado na loteria.

Agora, ela e o marido vivem em uma pequena casa em uma vila fora da cidade. Seu filho de 22 anos, Felix, foi com a irmã para Karlsruhe, onde trabalha para a Siemens. As pessoas do leste se transformaram em nômades, disse Andrea Zirzow.

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