Apesar dos riscos, petisco viciante alimenta cidade chinesa

Fonte de euforia se chama ¿binglang¿, fruta seca da palmeira areca, por vezes chamada de noz de bétele, que agita sistema nervoso

The New York Times |

Se os moradores de Xiangtan, na China, parecem animados, mesmo nos dias mais quentes ou nas noites mais frias, verifique suas bocas. O cheiro mentolado e o som crocante vêm de um perfumado energético que homens, mulheres e até crianças mastigam do café da manhã até a hora de dormir.

A fonte de sua euforia se chama “binglang”, uma fruta seca da palmeira areca, por vezes chamada de noz de bétele, que agita e aquece o sistema nervoso, especialmente depois de um grande banquete.

“Ele ajuda na digestão e resolve a embriaguez”, disse Xie Shuo, um reparador de telefones celulares que disse consumir 100 dessas frutas por dia.

Ele sorriu e revelou gengivas enegrecidas e dentes manchados, um dos efeitos colaterais menos atraentes da mastigação da fruta. “Eu sou viciado em binglang, mas realmente amo essa fruta e por isso não acho que seja um problema”, disse.

Esse é um sentimento compartilhado por muitos dos cerca de 1 milhão de habitantes de Xiangtan, cuja adoração pelo petisco tem alimentado a prosperidade da cidade.

Localizada na província de Hunan, Xiangtan é a maior produtora comercial de binglang da China. Seus fabricantes importam os ingredientes frescos, principalmente da província insular de Hainan, e vendem suas cascas secas em Hunan – e, em menor escala, em outros lugares.

A indústria de US$ 1.18 milhões emprega mais de 100 mil pessoas no condado de Xiangtan. Mas esse vício tem uma desvantagem: ele arruína as bocas que mastigam a fruta e suja calçadas por ser cuspido aleatoriamente.

Em muitas partes da Ásia, a noz de areca é mastigada fresca, às vezes envolta em folhas de bétele ou com o tabaco, um hábito que tem sido associado a maiores taxas de câncer oral.

Moradores de Hunan preferem comer só a casca preservada, o que parece deter os efeitos cancerígenos da fruta, de acordo com estudos recentes. Mas médicos e dentistas locais denunciam a prática, dizendo que ela pode causar outras doenças da boca.

Ainda assim, o binglang é um símbolo de orgulho para os moradores, líderes empresariais e autoridades locais, que repelem as sugestões de que o fruto seja prejudicial à saúde.

“O binglang ajudou Xiangtan a ser conhecida”, disse Li Lihua, 60, mascador veterano que vende sacos de binglang por US$ 0,75 cada. “É como a goma de mascar, mas mais forte, e mata parasitas”.

O caso de amor entre Hunan e o binglang começou há mais de 300 anos, quando, segundo a tradição local, um magistrado promoveu a fruta como uma cura para a praga que assolava a região.

Durante as reformas econômicas da China da década de 1980, Xiangtan começou a transformar o passatempo em lucro e atualmente processa mais de 700 toneladas do produto por ano, de acordo com a Associação Binglang de Hunan.

Por Dan Levin

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