Apesar dos perigos, Fukushima atrai trabalhadores do Japão

Funcionários passam a viver temporariamente em cidades próximas como o reduto de águas termais Iwaki-Yumoto, quase sem turistas após a crise nuclear

The New York Times |

Logo depois das seis horas na sonolenta cidade de Iwaki-Yumoto, trabalhadores com os olhos turvos deixam suas pousadas prontos para subir em dois ônibus fretados e retomar a sua batalha diária para conter a crise na usina Fukushima Daiichi.

Alguns homens são técnicos locais que trabalharam na usina por muitos anos. Outros são operários da construção civil que vieram de diferentes regiões do Japão para remover fragmentos radioativos, consertar o vazamento de tubulações e preencher a necessidade cada vez maior de mão de obra no local, devastado no terremoto seguido de tsunami que atingiu a região no dia 11 de março.

Apesar dos perigos de Fukushima, trabalhadores de todo o Japão têm viajado até a usina em busca de trabalho no momento em que o país passa por dificuldades econômicas. Alguns trabalhadores que agora vivem temporariamente no reduto de água termais de Iwaki-Yumoto chegaram de lugares tão distantes como Kyushu, a mais de 800 quilômetros de distância, transformando esse pequeno resort de águas quentes em um centralizador de trabalhadores imigrantes.

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Ruas de Iwaki-Yumoto estão desoladas durante o dia, com os turistas afastados pelo medo da radiação
A prolongada batalha para estabilizar a usina expõe as práticas de trabalho de uma indústria que há muito tempo depende de contratos de trabalho informais para muitos de seus trabalhos mais perigosos. Dos cerca de 2,5 mil trabalhadores da usina, apenas 300 deles não eram terceirizados que têm recebem pouco respaldo de segurança de emprego, benefícios ou seguro por lesões ou efeitos da radiação.

No final do dia de trabalho, os trabalhadores descreveram o árduo dia que passaram envoltos em roupas de proteção e máscaras asfixiantes. Eles verificam constantemente os níveis de radiação em aparelhos portáteis e são perseguidos pelo medo de acidentes nos reatores ainda instáveis.

No mês passado, um trabalhador terceirizado de 60 anos desmaiou ao transportar equipamentos pesados em um prédio de eliminação de resíduos da usina. A Tokyo Electric Power Co., operadora da usina, disse que não havia detectado níveis de radiação perigosos no seu corpo – outros trabalhadores especulam que ele tenham desmaiado por causa do calor.

"Debaixo da sua roupa e máscara, você fica encharcado de suor”, disse um trabalhador de 20 anos de idade, ainda usando seu uniforme azul claro, enquanto lavava meias e roupas íntimas em uma pequena lavanderia. Ele, como outros trabalhadores, não deu seu nome ou o da empresa para a qual trabalha para evitar represálias.

Sua empresa hospeda cerca de sete trabalhadores por quarto em uma pousada nas proximidades, ele disse. Na Fukushima Daiichi, ele ajuda a construir andaimes em torno do reator n º 4. Seu turno é curto, apenas cerca de três horas por dia – algo comum para quem trabalha em usinas nucleares – mas a viagem até o local dura uma hora e ele demora cerca do mesmo período para colocar e tirar as roupas de proteção.

"Você acorda, vai até a usina, volta, come, toma banho, dorme. Não há tempo para mais nada", disse. Ainda assim, ele se disse feliz de ter um emprego – há poucos empregos em sua cidade natal Fukuoka. No começo deste mês, dados do governo mostraram que a economia japonesa voltou a entrar em recessão. O desemprego está aumentando rapidamente.

Embora os trabalhadores entrevistados estivessem relutantes em falar sobre salários, uma pesquisa na internet revela que os empregos em Fukushima Daiichi pagam pouco, cerca de 200 mil ienes por mês para uma posição como a de "operador do robô remoto" e "trabalhador geral", ou algo em torno de US$ 30 mil por ano.

Em contraste, o salário médio de um trabalhador da Tokyo Electric é de US$ 94 mil, de acordo com o site de pesquisa online Nensyu Labo.

Riscos

Esse arranjo permitia que a Tokyo Electric os transferisse para empresas terceirizadas e seus funcionários mal pagos e mal treinados, colocando sua saúde e a segurança nas 55 usinas do Japão em risco, disse Takeo Kinoshita, especialista em trabalho pela Universidade Showa, em Tóquio. "Não existe nenhum trabalho em uma usina nuclear que não envolva riscos de radiação", disse Kinoshita. "A Tokyo Electric passa o risco para empresas menores, que são menos capazes de garantir a segurança de seus trabalhadores”.

Em meio à contínua confusão na usina Fukushima Daiichi, houve acompanhamento mínimo da exposição à radiação. A Associação dos Efeitos da Radiação, um corpo ligado ao governo encarregado de controlar os níveis de exposição à radiação dos trabalhadores japoneses, diz que não tem sido capaz de controlar totalmente a exposição à radiação entre os trabalhadores da usina depois do dia 11 de março.

Ainda assim, os trabalhadores continuam chegando. Em Iwaki, um trabalhador de 35 anos disse ter viajado de Hamaoka, na região central do Japão, onde trabalhava em uma usina nuclear recentemente fechadas pelo primeiro-ministro Naoto Kan por causa das preocupações advindas do tsunami. Ele é um veterano na indústria e já trabalhou em outras quatro usinas nucleares.

"A radiação é apenas parte do trabalho", disse ele. "Um bombeiro não fica longe de uma casa em chamas por ter medo de fogo".

Mas, cada vez mais, a usina de Fukushima Daiichi precisa competir com outros trabalhos de construção conforme tem início a reconstrução das áreas afetadas pelo tsunami. Os anúncios de emprego na internet listam vagas que oferecem até 1,2 milhões de ienes, ou US$ 15 mil por mês, embora as autoridades do trabalho alertem que algumas ofertas são fraudulentas.

Na luta para conter a crise, os funcionários da Tokyo Electric também foram enviados para as linhas de frente em alguns casos. Na semana passada, a empresa disse que dois funcionários da fábrica tinham sido expostos a até 580 millisieverts nos primeiros dias da crise, mais de duas vezes o limite permitido pelo governo. Altos níveis de exposição podem corresponder a maiores riscos de câncer.

Takeshi Tanigawa, professor de saúde pública na Universidade Ehime, que aconselha a Tokyo Electric, descreveu recentemente as duras condições de trabalho na usina nos primeiros dias após o acidente: 500 pessoas dormindo lado a lado em tatames colocados em um ginásio próximo, sem chuveiros e com pouca comida.

Goshi Hosono, um conselheiro do primeiro-ministro, reconheceu que os trabalhadores não podem ter sido devidamente protegidos. "Em nossa resposta inicial, não tínhamos um sistema para gerenciar os riscos da radiação", disse ele.

Em Iwaki-Yumoto, as ruas estão desoladas durante o dia e ainda mais silenciosas à noite, com os turistas afastados pelo medo da radiação. Algumas tabernas tradicionais atraem a nova população de trabalhadores da cidade, mas muitos dizem que preferem levar cerveja e caixas de shochu, uma bebida destilada barata, para seus quartos.

Vantagens

Alguns trabalhadores apontam algumas vantagens em seu trabalho: eles mergulhar em águas termais todas as noites e as pousadas, muitas vezes, servem sashimi no jantar. Eles têm um trabalho constante e camaradagem.

Ainda assim, os trabalhadores mais velhos também confessam estar aqui porque não esperam encontrar outras linhas de trabalho. Outros são vítimas do tsunami e não têm uma casa para onde voltar.

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Trabalhador da usina nuclear de Fukushima Daiichi em lavanderia de Iwaki-Yumoto, na província de Fukushima
Um trabalhador de 60 anos disse que ele estava no reator número 5 de Fukushima Daiichi, perto dos motores a diesel, quando o tsunami atingiu a usina. Ele ouviu os motores ligarem – eles seriam posteriormente abalados pelo tsunami, em uma cadeia de eventos que desencadeou a maior crise nuclear já enfrentada.

Ele fugiu, não de medo, mas de preocupação com sua família que vivia em Ishinomaki, cerca de 200 quilômetros ao norte da usina. Após dirigir por estradas danificadas, ele finalmente chegou em casa por volta das 22h. Seus quatro irmãos e irmãs estavam a salvo. Mas a sua casa havia sido destruída.

Agora sem-teto, ele vive em Iwaki-Yumoto e trabalha na usina de carvão da Tokyo Electric, cerca de 20 quilômetros ao sul de Fukushima Daiichi.

Mas ele diz que está disposto a voltar à usina nuclear, se encontrar um emprego que pague melhor ali.
"Com a minha idade, é tarde demais para fazer outra coisa", disse ele. "E haverá muito trabalho por aqui por um bom tempo”.

*Por Hiroko Tabuchi

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