Novo sistema antifoguetes e mudança políticas regionais, como a queda de Mubarak no Egito, fazem Israel ter mais cautela

Confrontos entre israelenses e grupos militantes palestinos chegaram ao quarto dia em 5 de março, com o número de palestinos mortos aumentando devido a ataques aéreos israelenses e mísseis dos militantes penetrando cada vez mais longe em Israel.

No entanto, não houve nenhum sinal de que Israel ou o Hamas, o grupo militante islâmico que governa Gaza, queiram se engajar em um confronto total. Na manhã de 6 de março, reportagens citando autoridades egípcias disseram que o Egito havia mediado um acordo de cessar fogo. Mas autoridades israelenses e palestinas não confirmaram os relatos emitidos pela Associated Press e pela Reuters.

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Para Israel, o sucesso de seu Iron Dome, um sistema antifoguetes que foi implementado no país, teve um certo impacto. De acordo com oficiais do Exército israelense, desde que as hostilidades começaram em 2 de março, o sistema conseguiu interceptar 54 dos cerca de 70 mísseis palestinos destinados a atingir as principais cidades do sul do país.

Área destruída por ataque aéreo de Israel na Cidade de Gaza (14/3)
AP
Área destruída por ataque aéreo de Israel na Cidade de Gaza (14/3)
A prevenção de danos e mortes em massa reduziu a pressão sobre os líderes do país para que possam embarcar em uma grande operação militar em Gaza e também deu a eles mais tempo para pesar as opções, de acordo com autoridades israelenses e peritos no assunto.

"Há uma séria mudança estratégica acontecendo", disse Dan Meridor, ministro da Inteligência e Energia Atômica à Rádio Israel. "Há alguns anos, não era tão simples incorporar à doutrina militar de Israel à grande importância de organizar sua defesa."

As mudanças regionais que aconteceram no ano passado também estão influenciando os planos de Israel e de grupos islâmicos.

Aliado regional

Desde a queda do presidente Hosni Mubarak do Egito, um aliado próximo de Israel, e a ascensão de partidos políticos islâmicos na região, Israel tem estado consciente de que há menos tolerância no Cairo para uma grande ofensiva israelense contra Gaza. O tratado de paz entre Israel e o Egito já está atualmente sob enorme pressão.

"A situação provisória no Egito, é clara", disse Ehud Yaari, pesquisador israelense do Instituto Washington para Política do Oriente Próximo. "Israel não tem interesse em testar os egípcios."

A Jihad Islâmica, grupo que foi responsável pela maioria dos mísseis lançados nesta recente rodada de violência, está desafiando o Hamas em Gaza. O chefe da Jihad Islâmica, que tem apoio do Irã, continua na Síria. A liderança do Hamas recentemente abandonou sua base no país e manifestou seu apoio ao povo sírio em sua luta contra o presidente sírio, Bashar al-Assad.

Mkhaimar Abusada, professor de ciência política na Universidade de Al-Azhar, em Gaza, disse que o Hamas, como o poder dominante na Faixa de Gaza, sente que tem mais responsabilidade do que outros grupos e sabe que qualquer confronto com Israel pode lhe custar muito. A Jihad Islâmica, acrescentou, quer demonstrar que não está mudando de lado e que não irá abandonar a Síria.

O chefe do gabinete militar de Israel, o tenente-general Benny Gantz, alertou nos últimos meses que caso os atos de violência que ocorreram no sul continuem então Israel será forçado a realizar outra operação militar em grande escala em Gaza.

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O Ministro das Finanças Yuval Steinitz também disse no dia 11 de março que "Israel não poderá aceitar um regime da Jihad Islâmica e do Hamas em Gaza a longo prazo e que, mais cedo ou mais tarde, teremos de cortar o mal pela raiz".

Momento certo

Mas o sentimento predominante em Israel é que agora não é o momento. Alguns políticos israelenses têm alertado que uma grande conflagração poderia potencialmente desviar a atenção do mundo do que Israel considera uma ameaça mais pertinente que é a de um Irã nuclear.

Oficiais israelenses confirmaram que o Hamas enviou mensagens via o Egito pedindo para restaurar o tratado informal de cessar-fogo que havia entrado em vigor desde a última rodada de combate.

Israel disse que continuará a agir em Gaza enquanto for necessário. Um porta-voz da Jihad Islâmica implicitamente criticou o Hamas por ter continuado a gerar um conflito após uma trégua ter sido realizada, dizendo no dia 5 de março que "a resistência iria impor condições para qualquer trégua."

Entretanto, ainda havia um risco de que as hostilidades poderiam se intensificar ainda mais, porém de maneira não intencional.

Palestinos do Comitê de Resistência Popular, grupo responsável pelo sequtesro de Gilad Shalit (13/3)
AP
Palestinos do Comitê de Resistência Popular, grupo responsável pelo sequtesro de Gilad Shalit (13/3)
Mais de 150 misseis foram lançados em território israelense desde 2 de março, e oficiais de Gaza disseram que pelo menos dois dos 24 palestinos que morreram no dia 5 eram civís.

Dois dos misseis palestinos explodiram perto de Gedera, em Israel, cerca de 27 kms ao sudeste de Tel Aviv. Outro atingiu o centro de Ashdod, uma grande cidade portuária israelense, causando pânico generalizado, quebrando muitas vitrines de lojas e danificando edifícios e carros.

O secretário-geral da ONU, Ban Ki-moon, disse estar "seriamente preocupado". Ele disse ao Conselho de Segurança que os ataques de mísseis contra civis israelenses são "inaceitáveis", mas pediu para Israel "ter o máximo de paciência possível".

*Por Isabel Kershner e Fares Akram

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