Apesar de derrota, Brown pode continuar como premiê

Com nenhum partido com maioria total no Parlamento britânico, atual primeiro-ministro pode tentar coalizão para manter-se no poder

The New York Times |

AP
Gordon Brown, atual premiê pelo Partido Trabalhista
Os liberal-democratas esperavam que isso pudesse acontecer. Os conservadores alertaram que poderia levar à catástrofe. E o Partido Trabalhista potencialmente pode usar isso para permanecer um pouco mais no poder.

A Grã-Bretanha acordou com o chamado "hung Parliament" (Parlamento enforcado, em tradução livre) tido pela primeira vez desde a década de 1970, situação em que nenhum partido tem maioria absoluta e, assim, não pode legislar sem o apoio de outra legenda. Não está claro o que esse cenário relativamente pouco comum causará, mas há uma série de possibilidades.

Primeiro, os conservadores, que em todas pesquisas pré-eleitorais foram considerados vencedores da maioria das cadeiras, podem tentar formar uma coalizão com um ou mais pequenos partidos. O principal rival desse plano seria o partido Liberal Democrata, o terceiro maior da disputa, que teria a oportunidade de jogar cartas mais altas, mas têm sido discreto sobre como agirá nessa situação.

Como alternativa, os conservadores podem fazer acordos com membros individuais de todos os pequenos partidos no Parlamento - Sindicalistas Ulster, Partido Nacional Escocês, Plaid Cymru e outros. Alguns desses partidos são tradicionalmente opositores ideológicos dos conservadores, e não está claro se os votos de todos os pequenos partidos somados seriam suficientes para que os conservadores consigam as 326 cadeiras necessárias para formar uma maioria.

Parece pouco provável que os trabalhistas e os liberal-democratas conseguirão cadeiras suficientes para formar uma maioria mesmo por meio de coalizão. Mas eles poderiam se unir para formar um governo de coalizão de partidos minoritários.

Isso é o que aconteceu em 1976, com resultados desastrosos, quando James Callaghan se tornou primeiro-ministro em um governo trabalhista de minoria depois que seu antecessor, Harold Wilson, deixou o cargo. O Partido Trabalhista teve de negociar com inúmeros partidos pequenos, que usou seu inesperado poder para paralisar e dificultar a aprovação de nova legislação. Atolado em uma crise econômica, o governo finalmente teve de pedir um resgate ao Fundo Monetário Internacional (FMI).

O principal azarão da disputa é o Partido Liberal Democrático. Favorecido por uma inesperada melhora na opinão pública durante a campanha de seu líder, Nick Clegg, o partido já indicou estar relutante em fechar um acordo formal com outro partido, mas disse que poderia considerar legislar caso a caso. Ele também afirmou que o partido que tiver a maioria dos votos terá o "apoio" de seu partido, apesar de não ter explicado o que isso realmente significa.

Muitos elementos do programa legislativo de Clegg, que inclui acabar com o pagamento por universidades e reformar o sistema eleitoral parlamentar, são anátema para os outros partidos e não se sabe que tipo de reivindicações Clegg poderia fazer.

Uma mudança interessante, segundo especialistas na política britânica, é que Gordon Brown, como atual primeiro-ministro, tem o direito de permanecer no cargo até que outro partido possa provar que tem a confiança do Parlamento - ou seja, que conseguiria votos suficientes para aprovar as legislações.

Tal esforço pode ser embaraçoso e arriscado, como o primeiro-ministro conservador Edward Heath descobriu nas eleições gerais de 1974, que também resultaram em um "hung Parliament". Naquele caso, o governo conservador perdeu a eleição para a oposição trabalhista, mas tentou permanecer no governo negociando um acordo com o Partido Liberal.

Mas o esforço fracassou, e Heath foi forçado a renunciar apenas quatro dias mais tarde, abrindo caminho para Wilson e seu mal fadado governo trabalhista de minoria.

Muitos países europeus são comandados sem percalços por coalizões de diferentes partidos, mas o sistema britânico não acomoda coalizões confortavelmente. Sua câmara legislativa foi fisicamente criada para que o partido do governo se sente de um lado e a oposição, do outro. E mesmo que os partidos parlamentares estejam inclinados a fazer acordos, os dirigentes podem ter dificuldade em convencer os membros da comunidade a seguir sua liderança.

Como último elemento de imprevisibilidade, uma vez que o primeiro-ministro pode pedir eleições quando quiser, é impossível planejar uma cooperação em longo prazo em qualquer tipo de agenda legislativa, uma triste perspectiva para o membro mais jovem de uma coalizão.

Por Sarah Lyall

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