Apesar de apreensões, túneis ilegais continuam a corroer subsolo mexicano

Túneis construídos para transportar drogas para os EUA se tornaram parte do ambiente da cidade de Tijuana, no México

The New York Times |

Agachado e suando dentro do mais recente túnel usado para o transporte de drogas encontrado em Tijuana, cidade de fronteira no México, ficou fácil de entender o espanto manifestado pelas autoridades mexicanas e americanas. Esse túnel era realmente assustador.

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Túnel descoberto embaixo de um armazém em Tijuana, no México, era usado para o transporte de drogas para os EUA

O túnel percorre quase um quilômetro, com tábuas de madeira segurando a terra em todos os lados. Lâmpadas ecônomicas iluminavam o caminho. Um trenó motorizado sobre trilhos de metal garantia uma passagem rápida, enquanto um elevador de aço escondido sob o piso de um armazém fazia a descida de 12 metros até a entrada do túnel, como uma queda lenta em uma mina não regulamentada.

E, no entanto, aqui está o simples fato obscurecido por superlativos como "o mais elaborado" e "o mais sofisticado", que os oficiais parecem destilar a cada nova descoberta. Túneis são Tijuana. Eles se tornaram inevitáveis e parte da operação constante da cidade, tão entrincheirados como farmácias baratas e clubes de strip tease. Os moradores locais já dão de ombros.

"Se você tem muito dinheiro, você pode fazer qualquer coisa", disse Blanca Samaniego, 36 anos, enquanto caminhava pelo armazém onde as autoridades mexicanas encontraram o túnel na quarta-feira. "Isso nunca vai mudar. Isso nunca vai parar."

O solo sob seu bairro, localizado nas colinas - perto do aeroporto e da atualizada cerca da fronteira, patrulhada 24 horas diariamente por agentes dos Estados Unidos - foi perfurado incessantemente ao longo dos anos. Quase todo o tipo de construção tem sido usada para ocultar uma operação logística implementada tanto pelo gosto americano pelas drogas quanto pela remoção discreta de terra.

Apenas algumas semanas atrás, abaixo de um armazém mais rudimentar, as autoridades encontraram um túnel diferente, com um sistema de ventilação elaborado. A poucos quarteirões daquele existia um outro, sob um albergue vazio, onde o concreto espesso agora tampa uma passagem descoberta pelas autoridades no ano passado. Mais ao leste, os moradores encontraram um túnel em 2008 e depois do próximo grande cruzamento, há mais dois túneis: um em uma pequena casa e os outros abaixo de uma bodega em frente a uma fábrica.

Outros túneis foram encontrados no centro, perto da fronteira principal. Na verdade, onde quer que haja uma cerca alta na fronteira parece ter havido uma tentativa de cavar por baixo dela, geralmente até um estacionamento na Califórnia, onde as drogas podem ser transportados através de uma tampa de bueiro ou para um negócio que quase parece legítimo.

No caso mais recente, o túnel seguia até o Armazém Hernandez, uma empresa de frutas e vegetais na Califórnia, cujo único produto disponível era verde e melhor quando fumado.

Luis Ituarte, 69 anos, um artista que dirige uma galeria aqui chamada La Casa del Tunel - onde um túnel foi encontrado há cerca de dez anos - disse que as autoridades de Tijuana seriam inteligentes de ir além de divulgar seus achados subterrâneos e, em seguida, fechá-los.

Ele argumentou que Tijuana deve aproveitar a sua identidade histórica como uma cidade que tem servido vícios desde 1907, quando o presidente Porfírio Diaz, legalizou o jogo, ou 1920, quando os Estados Unidos fizeram do álcool uma substância ilegal. "Las Vegas, Tijuana e Havana foram cidades construídas pelo mesmo tipo de pessoas", disse Ituarte. "Só Vegas assumiu sua má reputação."

Não que essa seja a direção para a qual as coisas estão caminhando. O prefeito de Tijuana recentemente rejeitou as exigências de grupos culturais pedindo para assumir La Ocho, a famosa prisão que havia sido desmantelada.

Durante uma turnê pelo elaborado túnel essa semana, as autoridades mexicanas pareciam mais focadas no triunfo da descoberta. "Essas são realizações que aumentam a segurança pública", disse o general Gilberto Landeros, de pé na entrada do túnel, conforme repórteres locais tiravam fotos uns dos outros na frente do buraco escuro. "Estamos batendo na economia do narcotráfico."

No mínimo, ele tinha muita maconha para mostrar. Tijolos do material, bem embrulhados em plástico laranja e verde, o cercavam quando ele anunciou a descoberta do túnel no interior do armazém vazio aqui em Tijuana. No total, 32,4 toneladas, com um valor de rua de cerca de US$ 65 milhões - um recorde para uma apreensão relacionada a um túnel, de acordo com autoridades dos Estados Unidos.

Mas quantas toneladas foram movimentadas antes que a carga fosse encontrada?

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Fotógrafos registram imagens de um elevador que leva ao túnel descoberto no México

As evidências em torno do túnel - chuteiras de futebol desgastadas, ventiladores empoeirados, garrafas de água vazias - sugeriam que a operação vinha acontecendo há meses, uma suposição que as autoridades mexicanas não negaram. Nesse ritmo, centenas de toneladas de maconha no valor de centenas de milhões de dólares teriam sido transportadas através deste túnel durante sua vida útil.

Muito provavelmente em algum lugar próximo, em um outro túnel, o fluxo continua. O próximo anúncio e turnê de notícias pode estar a apenas algumas semanas de distância.

Por Damien Cave

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