Apesar das críticas, ONGs aprendem com vídeo 'Kony 2012'

Sucesso de campanha sobre líder guerrilheiro de Uganda provoca inveja e aprendizado no mundo das organizações não governamentais

The New York Times |

O vídeo uniu jovens americanos, inspirou uma enxurrada de doações e provocou duras críticas. Mas para alguns no setor de organizações sem fins lucrativos, a reação ao sucesso sem precedentes de um vídeo sobre o líder guerrilheiro africano Joseph Kony pode ser resumido em uma palavra: inveja.

"As pessoas estão atormentadas com o potencial que o vídeo sugere," disse Suzanne Nossel, diretora-executiva da Anistia Internacional nos Estados Unidos. Durante a semana passada, o vídeo foi tema quente entre os líderes do setor, disse. "Nos últimos anos, chegamos a esta escala, mas não com um único assunto, uma única ação ou um único vídeo."

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AP
Foto de 2006 mostra Joseph Kony, líder do Exército de Resistência do Senhor, grupo guerrilheiro de Uganda

O vídeo, produzido por uma organização sem fins lucrativos da Califórnia, a Invisible Children (Crianças Invisíveis, em tradução livre), conquistou a internet depois que foi publicado em 5 de março, atraindo uma audiência global de milhões de pessoas em poucos dias.

Seu sucesso também atraiu uma reação negativa de autoridades humanitárias, que disseram que o vídeo havia simplificado demais uma questão complexa, e de pessoas na Uganda e outros países afetados pelo grupo de Kony, o Exército da Resistência do Senhor, que se ressentiam do fato de que no vídeo jovens brancos americanos se reúnem para salvar os africanos.

Mas, em meio a críticas, muitos foram tomando notas.

No início, a propagação do vídeo foi mais rápida entre pessoas com menos de 25 anos, fato que surpreendeu Marc Dubois, diretor executivo do escritório britânico da instituição Médicos Sem Fronteiras. Ele disse que a Invisible Children demonstrou o potencial de idealismo da juventude não apenas em criar consciência em relação a uma causa, mas também em arrecadar dinheiro para ela.

"Sempre visamos a classe mais alta, que lê e viaja para o exterior", disse ele sobre o setor sem fins lucrativos. "Os jovens não vão fazer uma doação de US$ 10 mil como nossos principais doadores, mas podem conseguir doar um pouco e fazer com que outras pessoas façam o mesmo".

A campanha arrecadou milhares de dólares em seu primeiro dia. "A lição que as organizações sem fins lucrativos podem aprender é a de que a mídia e o marketing importam", disse Dan Pallotta, presidente de publicidade da Advertising for Humanity, uma empresa com fins lucrativos que trabalha em causas beneficentes. Ele disse que a resistência a "qualquer coisa que pareça ser comercial" tem impedido organizações estabelecidas de gastar mais para promover a sua mensagem.

A combinação do vídeo "Kony 2012" com uma campanha em mídias sociais com foco em celebridades que se alistam para participar da ação, incluindo Oprah Winfrey e o pop star Justin Bieber, serviu para alcançar os jovens e representa outra lição para os grupos mais estabelecidos, segundo especialistas. A Invisible Children também mostrou uma vontade rara de se envolver com as pessoas nas mídias sociais, mesmo quando a conversa se tornou mais crítica.

Veja o vídeo "Kony 2012":

"A maioria das organizações sem fins lucrativos literalmente se esconde disso", disse Lucy Bernholz, pesquisadora visitante no Centro de Filantropia e Sociedade Civil de Stanford. "Essa é a pior coisa que podem fazer - estabelecer uma conversa quente e depois sair da sala."

Os especialistas enfatizaram que as mídias sociais por si só não criariam o fenômeno do vídeo, que se beneficiou de uma grande e diversificada rede construída pela Invisible Children ao longo de anos de conferências, visitas e divulgação do mundo digital - em outras palavras, organização comunitária à moda antiga.

"Essas crianças são como eu", disse um jovem defensor do vídeo, Marcelo Jaimes-Lukes, 14, do Brooklyn. "Como adolescentes, muitas vezes ouvimos: 'Você não pode fazer isso, você é muito jovem'. Mas este vídeo capta que você realmente pode fazer a diferença."

Ou como DuBois descreveu sobre a reação que sua sobrinha de 16 anos teve ao vídeo: "Ela realmente acha que eles são legais - e isso é uma mensagem para nós. Esse tipo de pensamento é o que existe lá fora."

Por J. David Goodman

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