Apartheid ainda reflete na Universidade da Cidade do Cabo

Melhor universidade da África do Sul está envolvida em debate sobre limite da implantação de cotas raciais

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A Universidade da Cidade do Cabo já foi a principal instituição de privilégio branco nas encostas do majestoso Pico do Diabo. No auge do apartheid (sistema de segregação racial), a instituição admitiu alguns alunos negros ou mestiços, mas eles eram banidos dos dormitórios do campus e até mesmo proibidos de frequentar as aulas de medicina pós-mortem realizadas em cadáveres de brancos.

A melhor universidade da África do Sul é agora multirracial, mas também está envolvida em um debate sobre quão intensa deve ser a implantação de cotas raciais para curar as feridas de uma história de opressão, ecoando conflitos semelhantes nos Estados Unidos, onde meia dúzia de Estados já proibiram o uso de preferências raciais nas admissões em universidades.

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Cotas da Universidade da Cidade do Cabo tentam amenizar feridas deixadas por segregação racial
"Estamos aqui porque somos negros ou estamos aqui porque somos inteligentes?" perguntou Sam Mgobozi, 19 anos, estudante negro de classe média que frequentou uma escola de primeira linha em Durban e acha a premissa da cota racial ofensiva, mesmo que admita que os candidatos negros pobres ainda possam precisar dela.

A Universidade da Cidade do Cabo deveria ter resolvido esse debate no ano passado, quando seus professores – sete em cada 10 deles homens brancos – apoiaram uma política que concedia a admissão com preferências baseada em categorias raciais estabelecidas durante o apartheid, como negros, mestiços e indígenas. Em vez disso, o desconforto com a atual abordagem foi percebido ao longo do ano passado, em acaloradas discussões em páginas editoriais de jornais e plataformas formais de debate.

Dezesseis anos após a ascensão política da maioria negra, o dilema da universidade ressoa através de uma sociedade em conflito sobre a melhor forma de conseguir reparação racial, seja em salas de reuniões corporativas ou de aula.

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Estudantes que entraram por cotas raciais na melhor universidade sul-africana
O principal defensor da cota estudantil no campus é Max Price, vice-chanceler que chegou a ser detido quando estudante e ativista antiapartheid, em meados da década de 70. Price, que cresceu como uma criança de privilégio branco, alega que as preferências com base em classificações raciais da era do apartheid fornecem um meio para ajudar os que foram prejudicados por esse sistema a obter oportunidades educacionais.

A universidade tem uma política abertamente declarada de admitir negros que tenham pontuações significativamente inferiores aquelas obtidas pelos brancos, mas ainda assim os brancos são mais numerosos que os negros - 45% versus 25% - entre os 20, 5 mil estudantes sul-africanos na universidade.

Na África do Sul, 79% da população é negra e apenas 9% é branca. E mesmo com extensos programas de compensação no campus para ajudar os alunos mais desfavorecidos, pouco mais da metade dos estudantes negros se formou em cinco anos nos últimos anos, enquanto quatro em cada cinco brancos completou seus estudos no mesmo período, revelam estatísticas da universidade.

Como outros prósperos estudantes negros entrevistados aqui, Mgobozi é profundamente ambivalente sobre a cota. Ele disse que teria entrado na universidade sem ela e explica: "Os alunos negros trabalham o dobro para provar que estão aqui pelo mesmo mérito que seus colegas brancos".

*Por Celia W. Dugger

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