Aos 46, Evander Holyfield diz que continuará no ringue

ATLANTA - Ele não vai a lugar algum. Seu auge passou há muito tempo, mas o famoso lutador não pretende jogar a toalha. Evander Holyfield: dedicado ou iludido? Corajoso ou louco?

The New York Times |

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Aos 46, o lutador não se importa com a opinião dos fãs do boxe. Para os que pedem que ele vá atrás de outra vida ou adote uma certa normalidade, seja por temer por ele ou querer vê-lo pelas costas, ele diz: "Eu respeito isso, mas essa é sua opinião. Eu tenho a minha opinião".
Sua opinião diz que ele ainda tem a chance de dar alguns bons golpes. O lutador usará isso em uma luta em Zurique no sábado contra Nikolai Valuev, um russo de 2m15.

Em jogo está o cinturão de peso pesado da Associação Mundial de Boxe. Caso ganhe, Holyfield o colocará em uma cintura que não mudou muito desde seu primeiro título profissional em 1990. Este seria o quinto título peso pesado do lutador, ampliando seu recorde e marcando sua carreira como o homem mais velho a conseguir o título. Ele passaria George Foreman, que conseguiu o feito contra Michael Moorer aos 45 anos em 1994.

Holyfield insiste que essa distinção não o motiva a perseguir sua vocação até sua última gota de suor. Nem o dinheiro, apesar de viver momentos de dificuldades. Tampouco lhe importa o orgulho ou o restabelecimento de seu nome, algo que não seria pouco para alguém longe da fama, com exceção de sua participação no programa "Dancing With the Stars".

Essa luta, segundo ele, é sobre dar uma lição continua de perseverança a seus 11 filhos, principalmente ao mais velho.

Evander Jr. tinha oito em 1992 quando seu pai pensou em se aposentar, depois de perder em uma decisão unânime para Riddick Bowe seu título de peso pesado. "Meu filho não parava de chorar por causa disso", disse Holyfield, que decidiu seguir em frente porque abandonar sua carreira seria uma mensagem errada para seu filho. "Aquilo me assustou muito".


Holyfield garante que ainda não é hora de parar / AP

Sete anos depois, Holyfield, combatendo doença e Lennox Lewis, pensou em deixar o ringue no meio de uma luta até que viu seu filho na plateia e mudou de ideia, ele conta, temendo a possibilidade de seu menino ter que um dia ouvir, "Você vai ser como seu pai e desistir quando houver muita pressão".

Duas de suas filhas recentemente imploraram que ele abandonasse o esporte. Ele ouviu, e respondeu: "Eu controlo minha vida. Tomo minhas decisões. Não perderia meu tempo fazendo algo se achasse que não posso fazer".

Holyfield distribui socos e ganchos desde que tinha oito anos, quando um treinador de um clube do Alabama lhe disse que um dia ele poderia ser campeão da divisão peso pesado. Uma carreira sitiada por dificuldades físicas e marcada por incidentes bizarros não o perturba. Sua longevidade é produto de muita luta, não apenas dentro dos ringues. 

Holyfield sofreu um golpe quando os dentes de Mike Tyson removeram um pedaço de sua orelha. Outro quando um paraquedista caiu no ringue no meio de uma luta. Ele teve disputas adiadas quando um lutador pegou hepatite e outro foi preso por estupro. 

Em 1994, seu médico informou que ele tinha um buraco no coração, levando o curador Benny Hinn a realizar uma cirurgia espiritual. (Médicos da Clínica Mayo depois concluíram que o defeito nunca existiu.) A Comissão Atlética do Estado de Nova York suspendeu sua licença depois de uma perda causada por um problema na articulação do ombro. 

Mas Holyfield, cuja habilidade de permanecer calmo em momentos de caos pode ser sua maior força, nunca perdeu o charme.

Houve momentos em que Lewis o acusou de hipocrisia por jurar cristianismo e conceber filhos fora do casamento. Como ele resolvia isso? Prevendo a queda de Lewis no terceiro round e depois dizendo que essa arrogância foi desnecessária.

Lutas raras

A aposentadoria não chegou a Holyfield, que luta raramente mas adora treinar. Música gospel para inspiração ecoa por sua academia e Holyfield canta sozinho ao passar pelo ritual de treinamento.

AP
Holyfield: dores são inveitáveis
Ele admite que as dores são inevitáveis conforme a idade avança e, às vezes, cancela uma sessão ou opta por terminar mais cedo.

"Eu não consigo mais manter o ritmo de antes, eu costumava fazer tudo na potência máxima todos os dias", ele disse. "Mas meu corpo já não se recupera tão rapidamente".

Em seus dias de glória, Holyfield disse que buscou ajuda divina apenas no dia da luta. Agora, ele pede que o Senhor o ajude durante os treinos também. "Eu estou pagando um preço extra", ele disse, "porque eu quero fazer isso nessa idade".

Além disso, motivação "é mais difícil quando o dinheiro é alto há algum tempo", disse Tim Hallmark, seu treinador e nutricionista de todas as lutas nos últimos 23 anos.

Holyfield receberá entre US$600 mil e US$750 mil para lutar contra Valuev, um trocada para alguém que lucrou mais de US$200 milhões ao longo de sua carreira, incluindo US$35 milhões por uma noite memorável contra Tyson. O pagamento por sábado, ainda que modesto os padrões do boxe, chamam atenção para a necessidade monetária que pode ter mantido Holyfield dentro das cordas do ringue.

Há dois meses ele enfrentou a possibilidade de prisão por atrasar o pagamento da pensão de seu filho de 11 anos. Holyfield, casado novamente, chegou a um acordo que fará com que gaste US$500 mil ao ano em pensão para seus filhos.

No último verão documentos de desapropriação foram divulgados e o leilão marcado para sua mansão, com 17 banheiros e três cozinhas, em um terreno de 953m² em Atlanta. Ken Sanders, conselheiro financeiro de Holyfield, reconheceu que o lutador quase perdeu sua casa e brincou com a ideia de falência.

"Ele está em algumas dificuldades", disse Sanders, que foi o primeiro agente de Holyfield e voltou ao posto para essa luta. "Ele tem algumas situações que precisa resolver e isso levará algum tempo".

Sanders se recusou a oferecer detalhes sobre o assunto, citando um possível litígio. Holyfield acusa antigos sócios que, segundo ele, usaram procurações para pedir empréstimos acima do valor da propriedade. "Isso me atrasou", disse Holyfield, "mas agora está tudo bem".
Mas ele diz ainda: "Se eu tivesse cem milhões de dólares, duzentos milhões de dólares, ainda assim iria lutar porque tenho um objetivo".
O objetivo é recuperar todos os três cinturões peso pesado reconhecidos até o final de 2009. "As pessoas dizem 'Você não está pensando. É o seu ego'", disse Holyfield.

Mas o lutador, que é muito mais popular na China e em outros países do que nos Estados Unidos, atacou o estilo de vida americano: "É um pecado envelhecer neste país. As pessoas param de te respeitar. Eu sei como a vida de boxeador deveria acabar, mas para mim será no topo".

Hallmark, diz estar confiante que a carreira de Holyfield não terminará em uma ambulância. "Se eu achasse que Evander não está fisicamente capaz de lutar, eu seria o primeiro a dizer isso", disse Hallmark. "Eu não vi nada que possa me preocupar".

Por MIKE TIERNEY

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