Ao tentar preservar o passado, Iraque tropeça no presente

País volta a escavar e reparar sítios históricos, mas moradores que fixaram residência no local se recusam a deixar suas casas

The New York Times |

Em uma nação na qual reis assírios já reinaram, um fazendeiro iraquiano chamado Araf Khalaf examinava o pequeno pedaço de terra que alimentou três gerações de sua família. Trata-se de pouco mais do que uma cabana de barro e uma horta improvisada, mas o terreno tornou-se um campo de batalha entre os esforços para preservar os antigos tesouros antigos do país contra os pobres que vivem ali.

Com a diminuição da violência, arqueólogos iraquianos e internacionais voltaram a escavar e reparar sítios históricos do país. Mas eles estão enfrentando um sério problema: milhares de iraquianos fixaram residência entre as ruínas mal guardadas da Mesopotâmia, em casas, estufas, lojas e garagens construídas ilegalmente. E eles não querem sair. "Meu pai cresceu aqui", disse Khalaf. "Esta terra é nossa."

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Família é vista em sua casa na antiga cidade de Nineveh, em Mosul, no Iraque (28/02)

O problema é conhecido para outras nações com coleções de antiguidades não protegidas, como o Egito. Para as autoridades iraquianas, os moradores não são nada mais do que ocupantes ilegais que precisam ser removidos.

As autoridades dizem que eles representam a mais recente ameaça a um patrimônio arqueológico que já foi saqueado por ladrões, surrado por décadas de guerra e desfigurado pelas renovações de Saddam Hussein.

Até agora, autoridades de Bagdá e outras províncias fizeram quase nada sobre o assunto. Os políticos e os arqueólogos locais dizem não ter controle sobre a terra designada como parte do patrimônio nacional do Iraque. Os membros do conselho de antiguidades nacionais dizem que não têm os recursos necessários para proteger os sítios. E as autoridades segurança afirmam que expulsar moradores ilegais não é seu trabalho.

Qais Rashid, líder do Conselho Estadual de Antiguidades e Patrimônio, diz que o Iraque tem cerca de 800 policiais designados para proteger mais de 12 mil sítios arqueológicos, tornando a tarefa impossível. A negligência permitiu o saque de artefatos raros e que os iraquianos invadissem os locais sem nenhum obstáculo.

"Isso machuca", disse Rashid em um recente painel de discussão sobre sítios históricos ameaçados. "Nos dói muito ver quão poucas pessoas estão cuidando desses lugares."

Mas Khalaf disse que sua família foi parte do fluxo da história. Ele vai partir se o governo o obrigar, mas mesmo se sua casa for demolida e sua horta abandonada, ele ainda vai se sentir atraído pelo local.

"Se uma pomba voa para longe, ela sempre volta para casa", disse ele. "É a mesma coisa para nós."

Por Jack Healy

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