Ao tentar deixar EUA, imigrantes passam por revistas na fronteira

Deixar o país em direção ao México está se tornando cada vez mais complicado, dados os esforços para reduzir fluxo de armas e drogas

The New York Times |

Um agente de imigração subiu os degraus de um ônibus prestes a cruzar a fronteira entre Estados Unidos e México recentemente e pediu para ver os documentos de todos a bordo. "Documentos!", ele gritou, olhando os passageiros com cautela enquanto andava para cima e para baixo do corredor.

Esse tipo de controle não é surpreendente dada toda atenção focada na imigração ilegal atualmente. Mas o ônibus cheio de imigrantes estava deixando os EUA, e não entrando no país.

Uma série de leis imigratórias no Arizona e outros Estados foram criadas para tornar a vida tão difícil para os imigrantes ilegais que eles fazem as malas e voltam para casa. Mas a realidade na fronteira é que deixar o país se tornou mais complicado do que nunca – levando algumas pessoas a temer que os controles de saída não apenas poderiam dissuadir os imigrantes ilegais de deixar o país, mas também colocá-los em uma espécie de limbo no qual ninguém vence, odiados se ficarem e potencialmente presos se tentarem sair.

NYT
Analleli Rios Ramirez está voltando para o México para viver perto de seus parentes
Entrar no México, seja de San Diego, El Paso, Texas ou Nogales, era uma moleza, sem escrutínio do lado dos EUA da fronteira e quase nenhum do lado do México. Mas os esforços do governo Obama para reduzir o fluxo de armas e dinheiro de drogas que entram do México para nos EUA mudaram isso nos últimos anos.

Agentes de imigração regularmente sobem a bordo de ônibus em direção ao sul, transporte comumente usado pelos imigrantes que voltam para suas cidades e aldeias. Nos postos de controle permanentes criados nas fronteiras, eles também param veículos e confrontam pedestres indo para o sul a pé.

Ao questionar as pessoas que deixam o país sobre possível contrabando ilegal, os agentes frequentemente encontram imigrantes que não estão envolvidos no contrabando, mas não têm permissão para estar nos EUA. Alguns com fixa limpa são liberados. Outros têm impressões digitais e fotografias tiradas para registrar a entrada ilegal e só então podem continuar seu caminho. Uma vez que estão no banco de dados do governo, enfrentam penalidades mais rigorosas caso sejam pegos nos EUA novamente. Imigrantes que têm antecedentes criminais enfrentam um tratamento mais agressivo. Eles podem ser presos e depois deportados formalmente.

A intenção, dizem as autoridades, não é desanimar os imigrantes ilegais de deixar o país. Pelo contrário, é conter o fluxo de contrabando. Em um relatório semanal recente, a Agência de Proteção da Fronteira do Arizona disse ter apreendido US$ 22.102 em dinheiro sendo contrabandeados para fora do Estado entre 18 e 24 de julho. Durante o mesmo período, seis armas e 5.943 cartuchos de munição foram recuperados. Agentes detiveram 1.606 imigrantes ilegais, embora isso inclua tanto aqueles que iam quanto aqueles que vinham.

Motivos

Em entrevistas, os imigrantes de partida ofereceram diversas razões para deixar o Arizona. Leis mais rigorosas e uma polícia que tornou a vida menos suportável. A crise econômica tornou tudo mais difícil diante das despesas. Além disso, também existe uma série de preocupações pessoais.

Para Analleli Rios Ramirez, 24 anos, foi a morte de seu cunhado em Cuernavaca que levou ela e seu marido a decidir viver mais perto dos parentes. "Nós apenas decidimos que queremos viver em nosso próprio país", afirmou Rios, que era gerente assistente de uma loja de pretzel em um shopping perto de Phoenix.

Algumas pessoas questionam o motivo de se verificar os documentos dos imigrantes que estão deixando o país. A crítica vem daqueles que consideram os imigrantes ilegais como bandidos e daqueles que simpatizam com sua luta para melhorar suas vidas.

NYT
Papeis de Analleli e seu cunhado são checados em Nogales, no Arizona
"Por que queremos gastar recursos prendendo pessoas que estão saindo do país de qualquer maneira?", perguntou Jennifer Allen da Rede de Ação de Fronteiras, um grupo de direitos humanos com sede em Tucson que ajuda os imigrantes no sul do Arizona. "Já ouvi falar de pessoas que querem deixar o país e se questionam se devem arriscar. Isso está na cabeça das pessoas quando elas estão decidindo se vão ou não embora".

A possibilidade de que uma política de governo possa desencorajar os imigrantes ilegais de partir levou alguns grupos que defendem controles mais rígidos de imigração a pensar duas vezes sobre o escrutínio na fronteira sul. "Isso é a única situação em que nós defenderíamos que nossas leis de imigração sejam minimizadas", disse William Gheen, presidente do Americanos pela Imigração Legal, no ano passado em uma declaração pedindo ao governo Obama para aliviar o controle de imigração para o sul. "Queremos incentivar os ilegais a deixar a América por conta própria e, portanto, pedimos que Obama lhes forneça uma passagem segura para fora da América."

Dificultar a saída do país, disse Gheen, pode encorajar os imigrantes a deixar o Arizona ou outros Estados com leis de imigração rigorosas para regiões mais hospitaleiras dos Estados Unidos.

Apesar da hesitação, o governo afirma que a sua política faz sentido. "Não estamos tentando desencorajar ninguém de partir, mas queremos enviar a mensagem de que há consequências quando se vai contra as leis de imigração", disse um funcionário do governo, que não estava autorizado a falar publicamente sobre o assunto

Apesar de milhares de imigrantes terem sido detidos em direção ao sul, oficiais disseram não saber exatamente quantos foram detidos por estar ilegalmente no país e quantos foram por violações de contrabando. Alguns imigrantes disseram estar confusos com a política.

Quando se preparava para cruzar a fronteira recentemente e se juntar ao marido que havia atravessado meses antes, Rios ficou ansiosa, sabendo que ela não tinha seus documentos em ordem e que poderia ser presa. Ela havia entrado ilegalmente no país mais de uma década atrás, como uma criança de 11 anos, segurando na mão de sua mãe. Agora ela estava voltando para um país que ela mal conhecia.

"Eu pensei que era isso que o Arizona queria, que eu fosse embora", disse ela enquanto empacotava suas coisas em Chandler, Arizona, antes de se dirigir para o sul. "E agora eu tenho que me preocupar se eles me pegarem na saída". No fim, ela e sua picape cheia de pertences pessoais cruzaram a fronteira sem problemas.

Agentes de imigração disseram que não têm como verificar todos e usam discrição quando analisam os documentos de imigrantes que deixam o país. Teodora Martinez, a mãe de Rios, havia deixado o país meses antes e não tinha documentos quando um agente subiu a bordo de seu ônibus. Ela apresentou um cartão de identificação emitido pelo Consulado do México em Phoenix, o que não prova residência legal. Seu marido, Cesar Valle Martinez, mostrou uma identidade falsa.

O agente levantou as sobrancelhas enquanto inspecionava os seus papéis e, em seguida, se reuniu com um colega que também havia entrado no ônibus. O casal estava viajando com vários filhos pequenos, no entanto, e eles tinham passaportes americanos.
"Vá em frente", disse o agente, finalmente, devolvendo os documentos, saindo do ônibus e deixando a família retornar para o México.

*Por Marc Lacey

    Leia tudo sobre: méxicoeuaimigrantesimigraçãofronteira

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG