Ao fugir de conflitos, refugiados se deparam com limbo na Itália

Tunisianos e líbios deixam países de origem em busca de alento, mas se frustram com oportunidades escassas em território europeu

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Em uma escura tarde, sob nuvens de chuva, um grupo de cerca de 10 imigrantes pulou a cerca de arame fino ao redor do acampamento improvisado em Manduria, na Itália, e correu até um bosque de oliveiras em busca de liberdade. Eles poderiam ter andado.

"Ah, deixe-os ir", disse em voz alta um policial à paisana que estava em pé perto do portão do acampamento de refugiados, com seu distintivo visível no bolso do peito.

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O refugiado tunisiano Adam Ben Amar pula cerca do campo de Maduria, na Itália
O governo italiano construiu esse acampamento às pressas na região de Puglia, no calcanhar da bota da Itália, na semana passada para ajudar a hospedar os imigrantes que foram retirados de Lampedusa, uma pequena ilha italiana ao sul da Sicília, que foi tomada por milhares de refugiados do norte da África que têm atravessado o Mediterrâneo em barcos de pesca e agora dormem ao ar livre.

O centro de Puglia, acampamento que acomoda cerca de 1,3 mil pessoas, é um exemplo dos desafios logísticos que a Itália – e a Europa – enfrentam conforme se preparam para receber os milhares de imigrantes que fogem da agitação na África. Até agora, a maioria deles é formada por tunisianos em busca de trabalho, mas agora chegam também os barcos da Líbia carregando somalis e eritreus que trabalham na Tunísia.

Para alguns italianos, o acampamento é tanto uma declaração política quanto uma realidade humanitária, o produto de um governo de centro-direita que tem a intenção de demonstrar que a situação da imigração tornou-se uma emergência que requer uma resposta europeia conjunta. Se as autoridades queriam dramatizar o problema, dizem alguns, o que poderia ser melhor do que fotografias de imigrantes fugindo de acampamentos lotados?

Outros veem o acampamento como moeda de troca em um impasse diplomático entre a Itália e a França, a antiga metrópole colonial da Tunísia e o lugar para o qual a maioria dos tunisianos diz querer ir.

Solidariedade

Sob a lei da União Europeia, o país onde os imigrantes chegam é responsável por determinar o seu status. A Itália defendeu que não deve suportar o peso dos recém-chegados sozinha apenas por estar tão perto do norte da África. Em uma entrevista, o ministro do Exterior italiano, Franco Frattini, criticou a França por sua "falta de solidariedade" depois de o país ter devolvido mais de 500 imigrantes para a Itália assim que eles foram pegos tentando cruzar a fronteira entre os países.

"É uma declaração política para a França: ‘Você quer começar a guerra na Líbia? Nós vamos lhes entregar os imigrantes’", disse Tonio Tondo, jornalista que tem acompanhado a situação da imigração para o jornal La Gazzetta del Mezzogiorno. A Itália, que colonizou a Líbia no início do século 20, deve perder bilhões de dólares em investimentos na região por causa da intervenção aliada, que foi defendida pela França.

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Conflitos no mundo árabe levaram mais imigrantes ao campo de refugiados em Maduria
De qualquer maneira, a crise funciona a favor de Roma, segundo os críticos. As autoridades locais certamente parecem indiferente às fugas. Questionados por que as autoridades italianas parecem fazer tão pouco para impedir a fuga dos imigrantes, Giuseppe Caruso, chefe de polícia de Palermo e comissário especial para a emergência da imigração, perguntou retoricamente: "O que devemos fazer? Devemos matá-los?"

Mas o acampamento está rapidamente se tornando um problema. Os moradores locais protestaram pedindo que ele seja fechado, pois muitos imigrantes já tinham fugido. Então, tanto o prefeito quanto o vice-Ministro do Interior italiano, Alfredo Mantovano, apresentaram suas renúncias após o primeiro-ministro Silvio Berlusconi afirmar em uma visita a Lampedusa que outros 1,4 mil imigrantes seriam trazidos para Manduria. No dia anterior, Mantovano havia prometido que o acampamento não ia aguentar mais de 1,4 mil no total.

Com suas fileiras de barracas azuis sobre cascalho recém-colocado e dezenas de funcionários uniformizados, o acampamento mostra o poder do Estado italiano. Mas ele também revela as limitações desse poder. No acampamento não há lei. O status dos recém-chegados – são eles imigrantes ilegais, refugiados ou requerentes de asilo? – é incerto. E é quase impossível para as autoridades italianas processá-los, repatriá-los ou detê-los.

Antes do intenso fluxo começar, em janeiro, trazendo cerca de 18 mil pessoas por meio de Lampedusa, os imigrantes que chegavam na região eram detidos na ilha por alguns dias antes de serem enviados à imigração formal ou centros de asilo no continente. O Ministério do Interior agora diz que os centros estão quase lotados e a Itália luta com um atraso burocrático.

Segundo a lei italiana, os imigrantes podem ser mantidos por até 180 dias até que seja determinado o seu estatuto e muito mais se pedirem asilo. Se a sua chegada for considerada ilegal e eles não forem sujeitos a perseguição em seus países de origem, eles podem ser enviados para casa. Mas acordos de repatriamento entre a Itália, a Tunísia e a Líbia foram desfeitos.

"Estamos à espera de uma orientação", disse Antonio Calcagni, chefe do escritório de imigração do Departamento de Polícia da cidade portuária de Taranto, diante do acampamento de Manduria. "Diferentes países estão trabalhando nisso", acrescentou.

Frustração

Os imigrantes também estão cada vez mais frustrados. "Nós estamos aqui há três dias", disse o tunisiano Omar Naim, 24 anos, enquanto olhava em direção à cerca. "Eles não fizeram nada por nós".

Na semana passada, autoridades italianas viajaram para a Tunísia, que ainda carece de um governo funcional, para convencer as autoridades do país a honrar os acordos de repatriamento.

"Qual é o estatuto jurídico do acampamento? Essa é uma boa pergunta ", disse Nichi Vendola, o presidente da região de Puglia e um destacado membro da oposição de centro-esquerda. "É um lugar para determinar quem é um imigrante ilegal? Um lugar para receber os requerentes de asilo? Um lugar híbrido?" Ele acrescentou: "A confusão é fruto de preconceitos ideológicos da Liga Norte, que domina o governo de Berlusconi".

Esse partido, o mais poderoso da coalizão governista de centro-direita, há muito estabeleceu medos a respeito da imigração ilegal no país. Questionado na terça-feira sobre o que deve ser feito a respeito dos imigrantes, o líder da Liga Norte, Umberto Bossi, usou uma frase que traduz polidamente como "devemos tirá-los da nossa frente". O ministro do Interior Roberto Maroni, membro da Liga do Norte, foi mais diplomático, mas tem dito repetidamente que os Estados Unidos abandonaram a Itália.

O governo italiano não está sozinho na busca por uma resposta mais coordenada a nível europeu. Laura Boldrini, porta-voz do escritório do Alto Comissariado da ONU para os Refugiados na Itália disse que é importante distinguir entre os "imigrantes econômicos" da Tunísia que estão à procura de trabalho na Europa e os que fugiram dos combates na Líbia. "No caso de um afluxo maciço de requerentes de asilo provenientes da Líbia, a ONU recomenda que os Estados-membros os recebam e ofereçam proteção temporária", disse Boldrini. "Seria bom ter um sinal positivo da Europa", acrescentou. "Isso também pode ajudar a reduzir as tensões e acalmar a situação na Itália".

De volta a Manduria, enquanto tratores trabalhavam a terra e caminhões posicionavam geradores, o acampamento parecia cada vez menos temporário. Calcagni, parecendo resignado, citou um ditado frequentemente utilizado pelos italianos: "Não há nada mais definitivo do que algo provisório".

*Por Rachel Donadio

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