Antigos elos da CIA colocam em xeque agência no mundo árabe

Em busca de informações sobre Al-Qaeda no norte da África, CIA atuou juntamente com serviço de inteligência do líbio Muamar Kadafi

The New York Times |

Nunca houve uma instituição americana mais hostil ao governo de Muamar Kadafi que a Agência Central de Inteligência americana, a CIA. O órgão perdeu seu vice-chefe do escritório de Beirute quando agentes da inteligência líbia explodiram o voo 103 da Pan Am na Escócia, em 1988.

Mas com os ataques do 11 de Setembro veio um novo grupo de inimigos. Nos últimos anos, a CIA atuou juntamente ao serviço de inteligência de Kadafi para obter informações sobre agentes da Al-Qaeda no norte da África.

AFP
Opositores de Kadafi na cidade petrolífera estratégica de Ajdabiya, na Líbia
Agora, a revolta contra o líder da Líbia, junto com as revoltas que expulsaram os presidentes da Tunísia e do Egito, além daquelas que ameaçam outros governantes, revelaram as relações estreitas entre a agência americana de inteligência e governos árabes autocráticos e muitas vezes violentos.

A CIA enfrenta questionamentos sobre tais elos terem prejudicado sua percepção sobre as correntes de dissidência que eclodiram na região, além de possivelmente danificarem a posição dos Estados Unidos com os novos governos democráticos destes países.

Oficiais americanos de alto escalão dizem que os laços da CIA com a Líbia trouxeram benefícios importantes: o desmantelamento do nascente programa de armas nucleares de Kadafi e uma parceria para rastrear células terroristas no país.

Mas Dennis C. Blair, ex-oficial chefe da inteligência americana, disse que enquanto os serviços de espionagem em lugares como a Líbia e o Egito estavam cooperando com os Estados Unidos contra a Al-Qaeda, eles estavam "suprimindo a dissidência de seus próprios países, muitas vezes de forma agressiva".

"Esses relacionamentos de inteligência não apenas interferiram em nossa capacidade de compreender as forças da oposição, mas aos olhos dos cidadãos desses países, eles frequentemente relacionaram os Estados Unidos com as ferramentas de opressão", disse Blair, que serviu até maio do ano passado como presidente diretor da inteligência nacional de Barack Obama. Ele disse ainda que as revoltas recentes oferecem uma oportunidade para "alinhar nossas relações de inteligência com os nossos valores nacionais".

Choque

A aparente colisão de interesses americanos ficou evidente em 2009, quando o relatório de direitos humanos do Departamento de Estado sobre a Líbia não passou de um inventário macabro de desaparecimentos e tortura.

Meses antes, no entanto, um dossiê diplomático obtido pelo WikiLeaks, chamou o governo Kadafi de um "forte parceiro na guerra contra o terrorismo" e declarou que o relacionamento com o serviço de espionagem da a Líbia era "excelente".

Michael Scheuer, que passou duas décadas da CIA em operações de contraterrorismo, disse que é um absurdo acreditar que esse trabalho possa ser feito sem a ajuda de aliados intragáveis. "A política externa e a inteligência não têm nada a ver com valores", disse Scheuer. "Tem a ver com interesses materiais e de segurança. Ficaríamos cegos na maior parte do mundo se nós só lidássemos com pessoas boazinhas".

Vincent Cannistraro, ex-chefe da sucursal da Líbia da CIA, disse que Kadafi muitas vezes tentou retratar seus inimigos políticos como terroristas e que a CIA foi "obrigada" a trabalhar com um governo cruel porque a agência de espionagem estava desesperada. "Eu entendo que para obter informações sobre as pessoas ruins você não pode apenas lidar com freiras e escoteiros", disse Cannistraro. "Mas no caso de Kadafi, estamos falando em lidar com um assassino".

*Por Mark Mazzetti e Scott Shane

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