Antigos dissidentes, artistas criam belo espetáculo olímpico na China

PEQUIM - Durante grande parte do último quarto de século, o diretor chinês Zhang Yimou fez filmes que retrataram a luta de seu país contra a pobreza, a guerra e os erros políticos para o mundo exterior (filmes que a maior parte dos chineses nunca viu).

The New York Times |

Inúmeras vezes, os épicos breves e desafiadores de Zhang foram proibidos pelos censores do governo por retratarem o lado feio da China. Quando ele ganhou um prêmio no Festival de Cinema de Cannes em 1994, as autoridades o impediram de ir à cerimônia. Concorrente ao Oscar num ano, os oficiais fizeram lobby para retirar seu filme da competição.

Mas quando a Olimpíada começar nesta sexta-feira no Estádio Olímpico, com a presença dos presidentes Hu Jintao, Bush e outros líderes mundiais, além de quase 1 bilhão de pessoas acompanhando pela televisão, Zhang irá presidir a cerimônia de abertura .

Com quase dois anos de preparações, seu espetáculo busca mostrar ao mundo a nova face da China através de encenações e pirotecnia que segundo os organizadores não tem comparação na história dos jogos. De qualquer forma a festa ressaltará uma das realidades de uma China em crescimento: muitos artistas do país agora trabalham com o Partido Comunista e não contra ele.

O crescente nacionalismo e orgulho na emergência da China como uma potência econômica, além de um robusto apoio do Estado aos artistas que se afastam da oposição política, transformaram o cenário cultural do país a partir do início desta década. Hoje, diretores, escritores e pintores que buscam expor o lado mais sombrio do governo autoritário não apenas irritam os censores, mas também se vêem fora de um mercado lucrativo para a arte, literatura e cinema chineses. Por outro lado, muitos dos que encontram um viés menos político para seu talento conseguem enriquecer.

"As pessoas realmente estão vendendo seu talento em troca de dinheiro", disse Ai Weiwei, um artista internacionalmente conhecido que vive em Pequim. "Eles realmente sabem que se trabalharem com o governo terão benefícios".

Mudança

A cerimônia de abertura irá representar um momento de particular conversão para Zhang, cujas experiências durante os horrores da Revolução Cultural de Mao pareciam inspirar diversas de suas produções internacionalmente aclamadas (e nacionalmente proibidas), como "Ju Dou" e "Viver".

Zhang disse numa entrevista recente que nunca teve objetivos políticos. Seus defensores afirmam que o Partido Comunista é que se tornou mais sofisticado, buscando alimentar os principais talentos do país e adotar uma postura mais ampla em relação à cultura nacional.

Mas os críticos acusam Zhang de fazer um pacto com uma liderança política que tem um longo histórico de restrição da liberdade artística, aceitando o papel de um artista cortesão favorecido (uma espécie de Leni Riefenstahl chinês, criando imagens belas para governantes punhos de aço).

"Ele passou de um cineasta renegado que era banido em seu próprio país e visto como um problema pelo governo chinês a uma espécie de animal de estimação do governo, aos olhos de algumas pessoas", disse Michael Berry, que ensina cultura contemporânea chinesa na Universidade da Califórnia, em Santa Barbara. "Sua posição hoje é quase completamente oposta a do começo de sua carreira".

Novos aliados

Outros artistas, inclusive alguns que fugiram para o exílio depois do confronto na Praça da Paz Celestial em 1989, agora parecem procurar novas formas de também se aliarem a Pequim.

O compositor vencedor do Oscar Tan Dun e o celebrado pianista Lang Lang se apresentam para os líderes do país no novo Teatro Nacional de Pequim e atuam como embaixadores culturais em outros países. Xu Bing, pintor e caligrafista cujo trabalho nos anos 1980 era visto como subversivo, agora é vice-presidente da Academia de Belas Artes de Pequim. Ele recentemente criou uma enorme instalação para a nova Embaixada Chinesa em Washington.

No entanto, poucos artistas adotaram o governo como Zhang. Ele atuou como conselheiro artístico de Pequim, promoveu a imagem da nação no exterior e produziu um curta-metragem para ajudar o país a sediar os Jogos de 2008. Agora ele é membro da Conferência Consultora Política do Povo da China, o principal corpo político do país.

Em retorno, Pequim promoveu Zhang, dando a seus últimos filmes estréias em datas favoráveis que geraram lucros nas bilheterias. As autoridades cinematográficas do país permitiram que uma de suas produções recentes estreasse no Grande Centro do Povo e as autoridades culturais chegaram a fazer lobby com executivos de Hollywood para conquistar um Oscar para o filme de artes marciais de grande orçamento "Herói".

Alguns críticos chineses classificaram "Herói" como uma homenagem implícita ao governo autoritário. Apesar de não ter ganhado o Oscar, o filme se tornou a maior bilheteria estrangeira no mercado americano.

Seu sucesso ajudou na rápida ascensão da comercialização e despolitização da arte chinesa.  O cenário cultural chinês agora está repleto de dramas históricos de grande orçamento, leilões de arte que movem milhões de dólares, espetáculos de ópera e dança patrocinados pelo governo, tudo isso sugere uma fusão entre arte, cultura, poder e orgulho nacional.

Por DAVID BARBOZA

Leia mais sobre China

    Leia tudo sobre: china

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG