Antigos apoiadores de Kadafi mudam de lado na nova Líbia

Em vez de escolher o caminho da vingança, o governo interino trabalha com os mesmos funcionários médios do antigo regime

The New York Times |

Khalid Saad trabalhou durante anos como uma leal engrenagem na máquina de propaganda de Muamar Kadafi, providenciando transporte para levar jornalistas estrangeiros a comícios, garantindo que eles nunca deixassem seus hotéis sem escoltas oficiais e levantando a sua própria voz para elogiar o líder líbio.

No dia em que os rebeldes tomaram Trípoli, Saad mudou de lado imediatamente.

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Mosaico de Muamar Kadafi que adornava a capital da Líbia, Trípoli, é destruído por balas

Agora, ele trabalha para o governo provisório dos ex-rebeldes, coordenando transporte para seus oficiais e insistindo que seu antigo apoio a Kadafi era apenas negócios.

"Meu tio e meu filho foram soldados da revolução", disse. "Todo mundo vai ficar feliz agora. Tudo mudou agora. Todo mundo está livre."

Conforme se fecham as cortinas da Trípoli de Kadafi, muitos de seus atores coadjuvantes estão correndo para adotar novos papéis com os ex-rebeldes, os mesmos que há pouco tempo atrás eram obrigados a chamar de "ratos". Muitos líbios dizem que a facilidade com que então apoiadores do  antigo líder mudaram de lado é um testemunho do cinismo generalizado da era de Kadafi, quando a dissidência significava prisão ou morte, oportunidades de trabalho dependiam de conexões políticas, e quase todo mundo aprendeu a usar duas faces para sobreviver dentro do sistema.

Esse cinismo pode agora vir a ser a salvação de Trípoli. Depois de meses de uma repressão brutal e uma guerra civil sangrenta em um país com um histórico de pouca unidade, onde brigadas autônomas ainda rondam a capital, os cidadãos têm parecido inesperadamente dispostos a deixar de lado suas queixas contra oficiais do governo Kadafi. Todo mundo sabe que quase todos que estavam fora das prisões durante as quatro décadas de domínio de Kadafi foram, de certa forma, cúmplices.

Na verdade, a fina camada de apoio ajuda a explicar porque as forças de Kadafi que aterrorizaram a cidade desmoronaram tão rapidamente, quando ficou claro que o fim estava próximo, evitando o violento confronto esperado. Embora os apoiadores de Kadafi ainda resistam em alguns locais do país e tenham havido episódios de violência e saques, Trípoli, a capital, mudou de mãos e voltou para a paz em questão de dias.

"A forma como o sistema funcionava determinava que todos tinham que fazer parte dele – todos nós", disse Adel Sennosi, ex-funcionário do Ministério das Relações Exteriores de Kadafi que agora está trabalhando para o Ministério dos Negócios Estrangeiros do Governo Provisório. "Se dissermos: ‘vamos nos livrar de quem fazia parte do sistema', teríamos que nos livrar de toda a população."

Agora, ele disse, muitos dos ex-apoiadores de Kadafi "são mais revolucionários do que qualquer outra pessoa!".

Aqueles que estavam envolvidos no movimento rebelde disseram durante meses que iriam tentar evitar os erros cometidos no Iraque depois da queda de Saddam Hussein, quando autoridades dos Estados Unidos dissolveram o exército e proibiram todos os ex-membros do governante partido Baath – muitos dos profissionais mais experientes do Iraque – de trabalhar em qualquer emprego público.

Em vez disso, os ex-rebeldes disseram que vão buscar vingança em um tribunal apenas contra os oficiais mais notórios do governo de Kadafi, que supervisionaram a prática da tortura ou de assassinatos, enriqueceram às custas do povo ou, no caso da apresentadora de televisão capturada Hala Misrati, levaram a propaganda da guerra para a televisão estatal.

O ex-rebeldes se comprometeram a receber de volta a maioria dos burocratas e outros oficiais de médio escalão e até agora ex-oficiais do governo de Kadafi dizem que o governo provisório tem mantido sua palavra. Para ressaltar esse ponto, ex-rebeldes realizaram uma cerimônia na terça-feira para entregar o controle de uma usina de gás natural de grandes proporções ao mesmo gerente que foi responsável pela sua segurança sob o governo de Kadafi.

"Há poucos casos de vingança", disse Abdulmajeed el-Dursi, o ex-chefe da operação de mídia estrangeira de Kadafi, enquanto tomava um café em um estabelecimento cheio de ex-rebeldes e falava em abrir uma empresa de mídia.

"Tudo o que eles têm feito é legítimo – a liberdade de imprensa, o Estado de Direito", acrescentou Dursi. "Nós sempre pensamos que seria a coisa certa a se fazer."

Oficiais dos antigos centros de detenção de rebeldes disseram ter enviado dezenas de ex-soldados e apoiadores de Kadafi de volta para suas casas depois que eles entregaram suas armas, e até mesmo alguns dos ex-soldados agora insistem que são revolucionários no coração.

Ahmed el-Naeli era um soldado de Trípoli quando foi capturado e preso por rebeldes semanas atrás nas montanhas de Nafusah, onde um repórter do The New York Times lhe deu um cartão de visita. Na terça-feira, ele ligou para dizer que também tinha mudado de lado. Após sua captura, Naeli disse: "Eu mudei e entrei para a revolução."

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Cidadãos líbios se reúnem no hall do Congresso Geral durante evento organizado pelo Conselho Nacional de Transição, órgão político dos rebeldes

Oficiais nas delegacias de polícia locais dizem que centenas de policiais estão retornando ao trabalho, geralmente nos bairros onde moram, sem nenhum incidente.

Eles são "bem aceitos" porque os moradores locais entendem que eles eram apenas uma parte do sistema, disse Abdou Shafi Hassan, 34, um ex-oficial que começou a trabalhar com os rebeldes meses atrás, contrabandeando armas e explosivos plásticos para que eles até que foi capturado e colocado na prisão.

Agora ele é o chefe de polícia de seu bairro, Tajura, onde está recrutando dezenas de ex-oficiais para voltarem ao trabalho.

"São eles que estão trazendo a segurança de volta para a cidade", disse.

Assistente do principal porta-voz do governo de Kadafi, Moussa Ibrahim deixou de lado qualquer pretensão de lealdade quando se ofereceu para vender a um jornalista ocidental uma série de gravações secretas que tinha feito de seu ex-chefe tentando subornar jornalistas para favorecer sua cobertura.

O traidor mais famoso foi o general Albarrani Shkal, um oficial sênior que estava no comando de uma grande unidade do exército que combatia os rebeldes. Cerca de um mês antes de Trípoli cair, segundo oficiais do novo governo provisório, Shkal começou secretamente a colaborar com os rebeldes. Os rebeldes o instruíram a permanecer em seu trabalho de modo que quando suas tropas entrassem em Trípoli, ele poderia ordenar seus próprios soldados a dispersar.

"Ele salvou muitas vidas", disse Sennosi, do Ministério das Relações Exteriores.

Mais de 50 embaixadores da Líbia servindo no exterior abandonaram Kadafi assim que o levante teve início, e Sennosi disse que muitos outros tentaram desertar nos meses seguintes. Os líderes rebeldes disseram que eles poderiam fazer mais para a causa se permanecessem em seus postos de trabalho, disse.

"Assim, tanta gente mudou de lado que realmente acabou sendo uma verdadeira revolução popular", disse Sennosi.

Youssef M. Sherif, um dos escritores mais proeminentes da Líbia, disse que acompanhou os últimos dias do governo de Kadafi pelos salários que pagou aos jovens para saudar o governo na frente das câmeras de televisão estatal. No começo, ele disse, eles receberam cerca de US$ 360, então US$ 140, depois US$ 35 e, no final, o dinheiro acabou.

Quando o dinheiro acabou, o mesmo aconteceu como as multidões.

Sheriff disse que perguntou a esses "figurantes" por que elas aceitaram esse dinheiro de um tirano.

"'É melhor eu gastar esse dinheiro do que ele!'", diziam.

Salem el-Ajelli, 39, um desempregado morador do bairro de Salim Abu, onde os rebeldes lutaram ferozmente para erradicar o último bastião de apoio a Kadafi na cidade, disse que ele e seus vizinhos, às vezes, recebiam US$ 30 por dia para torcer publicamente pelo coronel.

"Na maioria, nós somos apenas pessoas normais que não se importam muito com Kadafi", disse Ajelli. "Nós apenas nos preocupamos com a vida do dia a dia."

* Por David D. Kirkpatrick

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