Antiga prisão é transformada em hotel no sul do Iraque

Empresas iraquianas tentam ganhar dinheiro dando novo uso a centenas de bases militares recém-abandonadas pelos americanos

iG São Paulo |

A estrada que leva ao hotel Portal de Basra, no sul do Iraque, passa por uma paisagem tão cheia de lixo e petróleo derramado, que brilha em gigantes piscinas de areia, que é difícil imaginar qualquer turista por ali.

Quando chegam, os hóspedes são recebidos por um amontoado de blocos de concreto, sacos de areia e arame farpado no portão da frente do hotel. Em vez de um porteiro, o Portal de Basra tem um atirador.

Ele sorri e puxa para trás o arame farpado, acolhendo os viajantes neste hotel improvável, que abriu dentro do que costumava ser a prisão Camp Bucca, operada pelos Estados Unidos com uma reputação notória entre os iraquianos.

Leia também: EUA devolvem quartel-general em Bagdá ao controle do Iraque

NYT
Trailers usados por soldados foram transformados em quartos de hotel no sul do Iraque

O Portal de Basra é um dos esforços de empresas iraquianas para fazer uso comercial das centenas de recém-abandonadas bases militares americanas - geralmente construções de concreto desoladas e localizadas nas margens das cidades. O Grupo Kufan, responsável pelo hotel, espera atrair executivos do petróleo e de empresas de serviços que operam nos campos próximos. Os quartos custam cerca de US$ 190 por noite e podem ser reservados apenas com semanas de antecedência.

"O sonho que temos é transformar isso em um oásis comercial", disse Maythem H. al-Asadi, presidente do Kufan. "É só uma questão de tempo."

Os negócios da empresa, como com os de outras que assumiram bases dos Estados Unidos, contam com centenas de trailers residenciais militares, conhecidos como CHUs - sigla em inglês para unidades habitacionais em contâiners. Antes elas acomodavam guardas. Trabalhadores do Kufan instalaram água encanada em algumas, criando os quartos. Além das poucas melhorias nos trailers, a prisão permanece inalterada e estranhamente vazia.

Os militares dos Estados Unidos entregarão todas as suas bases para o governo iraquiano até o final do ano. Apenas cerca de meia dúzia das 505 bases no Iraque ainda estão nas mãos dos americanos.

A maioria irá se tornar base militar iraquiana, com algumas exceções. O antigo palácio de Saddam Hussein no Complexo da Base Vitória, perto de Bagdá, foi usado por generais americanos, por exemplo, mas pode se tornar um centro de convenções.

Outras bases deixadas pelos americanos foram prontamente saqueadas. Aparelhos de ar-condicionado e geladeiras que ficavam ali agora aparecem em feiras ao ar livre.

O Grupo Kufan comprou o Camp Bucca do governo iraquiano em um leilão com o objetivo de criar um hotel, um centro de logística e uma área de armazenamento de contêineres para a indústria petrolífera. À primeira vista, não parece ser um local próspero: o panorama de tempestades de areia e arame farpado se assemelha a nada mais do que a prisão de Guantánamo, em Cuba, e sua função anterior era similar.

Independentemente disso, o hotel foi inaugurado em 24 de novembro para coincidir com uma conferência sobre petróleo e gás em Basra. Amar Latif, gerente do hotel, disse que seus convidados apreciam "as paredes de muitas camadas de terra".

A transformação simboliza uma visão particularmente otimista, mantida por alguns empresários, do que o Iraque pode se tornar após a retirada dos Estados Unidos, apesar de persistentes tensões sectárias e da violência insurgente. O Iraque, dizem eles, está pronto para mover-se rapidamente para uma expansão do petróleo de proporções históricas que rapidamente inflacionará a economia e irá criar oportunidades excepcionais para as empresas que chegarem cedo.

A cidade de Basra, apesar de sua aparência empobrecida, fica localizada acima de uma imensa riqueza. A produção de petróleo, principalmente nos campos da região, deve ter um aumento mais rápido no Iraque do que em qualquer outro país no mundo ao longo dos próximos 25 anos, de acordo com projeções da Agência Internacional de Energia.

Se tudo correr bem, a produção no Iraque aumentará um adicional de 5 milhões de barris por dia até 2035, elevando o total para mais de 8 milhões de barris por dia. Para efeito de comparação, isso é mais de um terço de todo o petróleo consumido diariamente nos Estados Unidos, uma vasta fortuna em energia.

À medida que os militares americanos deixam o país, as empresas de serviços petrolíferos Halliburton, Baker Hughes, Schlumberger e Weatherford International estão expandindo suas operações, esperançosas com o crescimento econômico. A General Electric abriu três escritórios no Iraque em novembro, um mês antes de o último soldado americano partir.

Na antiga prisão americana, por exemplo, as empresas petrolíferas estão considerando alugar o espaço de forma permanente para seus funcionários, de acordo com o Grupo Kufan.

"A Exxon adorou", disse Latif sobre a antiga prisão. Seus representantes visitaram meia dúzia de vezes, disse ele, para examinar as medidas de segurança, analisando as proteções de arame farpado e muros de concreto e exclamando: "Nossa, é excelente!"

No lado negativo, a situação de segurança do Iraque ainda é tão desanimadora que uma antiga prisão parece sedutora como um hotel.

Cerca de 150 executivos ficaram hospedados no hotel quando estiveram na região para explorar oportunidades no negócio de petróleo no sul do Iraque durante uma conferência realizada no mês passado. O dia da abertura não correu bem. Em parte porque nem todos os executivos, que haviam reservado acomodações através dos organizadores da conferência, haviam sido informados que eles iriam ficar hospedados uma antiga prisão.

"As pessoas se queixaram", disse Loay Almalaieka, vice-presidente do Grupo Kufan, contando que o encanamento estourou em alguns quartos. "Não conseguimos atingir um grande nível de satisfação entre esses executivos, por razões óbvias."

Uma delegação de suecos, perturbados por ficarem hospedados em um hotel sinistro, partiram antecipadamente. Não está claro para onde eles foram, disse Almalaieka.

Os operadores reconhecem que o Portal de Basra é um trabalho em andamento. Afinal, os inquilinos anteriores não tinham direito a privilégios. "Estamos tentando criar uma atmosfera mais aconchegante", disse Andrew D. Quaile, um gerente de projetos da Corp Cater, uma empreiteira australiana que lida com o serviço de alimentação do hotel.

Ainda assim, o Grupo Kufan também pretende reabrir a parte ainda mais desoladora da antiga prisão, onde os presos viviam em barracas cercadas por paredes de terra. Em um sinal da mudança do Iraque, essa área pode ser usada agora por trabalhadores do sul da Ásia que atuam nos campos de petróleo, disse a empresa.

"Agora não chamamos as tendas de prisão", disse Latif. "Elas são acomodações de baixo custo e alta densidade."

Por Andrew E. Kramer

    Leia tudo sobre: iraqueguerraeua

    Notícias Relacionadas


      Mais destaques

      Destaques da home iG