Antes aliada do governo, Igreja Ortodoxa Russa defende protestos

Sacerdotes proeminentes se voltam contra Putin e seu partido depois das manifestações em massa contra resultados das eleições

The New York Times |

Entre as milhares de vozes que se levantaram contra o Kremlin após eleições parlamentares terem sido rejeitadas como fraudulentas, talvez a voz mais surpreendente tenha sido a do Patriarca Kirill I, o líder da Igreja Ortodoxa russa, que defendeu os protestos populares contra a corrupção.

Crise política: Líderes russos enfrentam dilema por conta dos protestos

NYT
Milhares de manifestantes realizam um protesto contra o resultados das eleições russas em Moscou (24/12/2011)

Sempre um pilar de apoio ao governo do primeiro-ministro Vladimir Putin e seu partido Rússia Unida, a poderosa Igreja Ortodoxa tem sido visivelmente - para alguns, de uma maneira chocante – crítica contra as eleições. Sem dúvida a única grande instituição nacional além do Estado, a igreja pode desempenhar um papel significativo enquanto a crise política e social se desenrola.

Kirill não é o único religioso crítico do governo desde as eleições , tampouco o mais severo. "As pessoas das mais variadas convicções agora estão reunidas na praça, mas elas estão unidas por uma coisa, a sua falta de vontade de viver assim por mais tempo", disse o Arcipreste Aleksei Uminsky, um padre de Moscou que apresenta um programa de televisão sobre a ortodoxia, em uma reunião pública na semana passada. "A mesma coisa está acontecendo agora na igreja."

Além de encorajar a igreja a iniciar uma discussão séria sobre a sociedade russa, Uminsky chamou a atenção para as injustiças que acontecem dentro da própria instituição. Ele citou o caso de um padre que morreu de um ataque cardíaco enquanto lutava para preservar a propriedade da igreja contra planos de construção do Kremlin.

"Não houve nenhuma reação de nenhum dos líderes da Igreja, nesse caso, e nem em outros casos perturbadores, mas algo está se mudando."

Outro sacerdote proeminente de Moscou, o reverendo Andrei Zuevsky, publicou um sermão em sua página no Facebook no último fim de semana em que criticava duramente a ordem existente - e foi rapidamente divulgado em blogs.

"Como resultado da maneira peculiar com a qual o poder é criado na nossa sociedade hoje, essa atitude arrogante com o povo se tornou algo considerado normal", disse Zuevsky. "Quem está no poder não é apenas arrogante, mas recusa a qualquer um que não sejam eles mesmos o direito de decidir o que é bom e o que é ruim."

As críticas têm sido tão fortes que Kirill, consciente da dependência da Igreja para com o Estado, se sentiu compelido a advertir os sacerdotes a tomarem cuidado com o que dizem na internet, dizendo que "declarações escritas sem muito cuidado e, às vezes intencionalmente provocativas por parte dos padres podem causar uma má impressão da Igreja".

No entanto, o patriarca, conhecido por misturar a tradição com a modernidade o suficiente para manter a si mesmo e sua igreja relevantes nos tempos modernos, não condenou a internet e tampouco as críticas expressas por padres, monges, freiras e até mesmo bispos que têm blogs e publicam suas opiniões no Facebook. Cada paróquia de Moscou, segundo ele, deve se manter em sintonia com os tempos, tornando-se acessível aos jovens através de uma página na internet.

Esses comentários, que fizeram parte de uma assembleia diocesana na sexta-feira, seguiram a declaração da última semana em que Kirill apoiou o direito de protestar e os sermões feitos nos dias 17 e 18 de dezembro no qual pediu ao governo que preste atenção à ira popular.

Ao mesmo tempo, ele fez alusão à Revolução Bolchevique de 1917 e a "quase-destruição da igreja” pelos comunistas, alertou para os perigos da revolução na Rússia e da internet em manipular as massas, e ressaltou que todos os russos devem trabalhar em sua própria transformação pessoal para que a sociedade também possa mudar.

"Não temos mais o direito de sermos divididos", disse ele, pedindo um diálogo civilizado. "O sangue que foi derramado no século 20 não nos dá esse direito."

Particularmente notável desde as eleições foram as declarações feitas por padres, incluindo as de Uminsky, publicadas pelo Pravmir, um site de notícias ortodoxas. Kirill - ao mesmo tempo que elogiava medidas oficiais, como indicações feitas pelo presidente Dmitri Medvedev para altos cargos governamentais, ou as suas promessas de mudança – fez questão de elogiar também a cobertura feita pelo Pravmir da sociedade e da igreja.

O reverendo Dmitri Sverdlov, um jovem padre que costumava trabalhar no setor financeiro, atraiu um público amplo e a admiração dos liberais seculares muitas vezes cínicos sobre o papel da igreja por conta de seu voluntariado como observador eleitoral em Moscou e por ter testemunhado a alteração de urnas a favor do Rússia Unida.

A assembleia diocesana, desde então, proibiu sacerdotes de agirem sem autorização, como observadores eleitorais, e advertiu que é "extremamente perigoso" para os clérigos violar a regra geral da Igreja contra sua participação em campanhas eleitorais.

Ainda assim Pravmir e o recente envolvimento da igreja nas discussões sobre as eleições têm surpreendido os russos seculares. Dmitri Gubin, jornalista e ateu confesso que tinha dito que o silêncio da igreja o estava levando a considerar a Igreja Ortodoxa russa como um ramo do Estado, disse que ficou "estupefato".

"Pela primeira vez na Rússia, eu tenho uma visão religiosa clara a respeito de um problema secular", ele escreveu na Ogonyok, uma revista local.

Andrei Zubov, um historiador que estudou as relações entre Igreja e Estado, disse que a Igreja Ortodoxa russa hoje se baseou no modelo do Kremlin - "A igreja está construindo aproximadamente o mesmo tipo de sistema autoritário que foi construído pelo regime de hoje" - e mesmo assim foi ganhando legitimidade por causa do espaço perdido pelo Kremlin.

Isso permite que Kirill possa parecer como portador de uma voz moderada, um tipo de posicionamento encorajado pelas autoridades. "Suas declarações estão assumindo mais e mais uma posição de moderação, que pode, ele pensa, acalmar uma situação que dependendo da forma com que for conduzida pode causar uma divisão completa da sociedade e do regime, e com isso causar uma grande crise política", disse Zubov.

AP
Milhares protestam contra fraudes na eleição parlamentar russa na capital, Moscou (24/12/2011)

O arcipreste Vsevolod Chaplin, presidente do departamento religioso que governa as relações entre igreja e sociedade, tem dito nas últimas semanas que se encontrou regularmente com representantes de vários partidos políticos, incluindo o Partido Comunista.

Chaplin, uma figura controversa que protesta publicamente contra a política do governo, mas também frequenta um clube de Moscou conhecido por tocar música indie e por ter debates movidos a álcool, disse que agora há fiéis ortodoxos entre os comunistas, que estão em segundo lugar em meio aos partidos políticos oficialmente sancionados na Rússia, após o Rússia Unida.

Por enquanto, a Igreja não está negociando com nenhum partido político não sancionado. "Até agora, a oposição radical não veio até nós com propostas de facilitar um diálogo com as autoridades", Chaplin disse em uma entrevista.

O patriarca e Chaplin têm enfatizado que a divisão na Rússia não é apenas entre o Kremlin e os manifestantes nas ruas, argumentando que o diálogo deve incluir todos: a elite, os trabalhadores e camponeses, os liberais e conservadores, os oficiais e soldados, e os intelectuais criativos.

Por Sophia Kishkovsky

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