Análise: Quando os religiosos complicam a vida dos políticos

NOVA YORK - Não seria bom se em nome do ecumenismo certos religiosos pudessem chegar a um acordo sobre o motivo da morte de mais de 3000 pessoas no dia 11 de setembro de 2001? A maioria dos nova-iorquinos nunca imaginou que as vítimas sabiam seu destino. Mas alguns religiosos parecem discordar.

The New York Times |

O reverendo Jeremiah A. Wright, ex-pastor do senador Barack Obama, sugeriu mais uma vez que os Estados Unidos causaram o ataque ao realizar terrorismo em outros países.

Pelo menos ele é consistente. Pouco depois da queda do World Trade Center como as muralhas de Jericó, Wright disse que "as galinhas da América vieram almoçar em casa". Se essas palavras parecem estranhamente familiares pode ser porque foram usadas em 1963 por Malcolm X ao descrever o assassinato do presidente John F. Kennedy.

As políticas de Pat Robertson são completamente opostas às de Wright. Mas o televangelista de direita já expôs suas opiniões sobre como as mortes em massa no prédio em Nova York e no Pentágono foram merecidas. Feministas, "abortadores", gays e lésbicas deixaram Deus bravo, ele e o falecido reverendo Jerry Falwell concordaram dois dias após os ataques.

Mesmo assim, Robertson concedeu seu apoio à candidatura do ex-prefeito Rudolph W. Giuliani, um verdadeiro pecador aos olhos de muitos, defensor dos direitos ao aborto que passou dias na casa de um casal gay quando seu segundo casamento chegou ao fim. Giuliani, o próprio Sr. 11/9, aceitou feliz a benção menos que útil.

(Gays e lésbicas parecem ser a causa de muitas pragas da modernidade. Eles são a razão pela qual Deus enviou o furacão Katrina para punir Nova Orleans, ou assim sugeriu o reverendo John C. Hagee, um televangelista que defende o senador John McCain na corrida presidencial.)

É difícil para uma pessoa comum diferenciar as diversas explicações para calamidades de tamanha magnitude. Então os ministros poderiam fazer um favor a todo mundo e propagar unidos os motivos teológicos do 11 de setembro. Nunca é tarde demais.

No entanto, é mais provável que os políticos queiram se unir para discutir como irão se livrar do que Henry II, caso ainda estivesse por aqui, trataria como religiosos intrometidos.

Precisamos acreditar que Obama, com sua indicação democrata enfraquecida pela sabotagem retórica que sofreu, adoraria se livrar de Wright. No lado republicano, McCain tentou se distanciar de Hagee, que foi citado se referindo à Igreja Católica Romana como "a grande prostituta da Babilônia". Essa é muita bagagem quando se espera conquistar os votos de 64 milhões de católicos americanos.

Então, essa semana, praticamente do nada, foi a vez de Giuliani ser decepcionado por um religioso. Ele se viu em subitamente no canil canônico do arcebispo de Nova York, Cardeal Edward M. Egan.

O erro de Giuliani, na opinião do cardeal, foi receber a comunhão na missa celebrada pelo Papa Bento 16 na Catedral de St. Patrick há duas semanas. Durante anos Egan disse que "um acordo" existia de que Giuliani "não deve receber a eucaristia por causa de seu apoio ao aborto".

O cardeal está no fim de seu mandato em Nova York. Mas ao invés de sair calmamente, ele decidiu atacar a figura pública católica mais conhecida da cidade.

Giuliani não reagiu publicamente à acusação de Egan, mas um porta-voz afirmou que a religiosidade de Giuliani é "um assunto muito pessoal".

Não que o próprio tenha sempre sido escrupuloso sobre a privacidade de sua fé. Quando concorria a seu segundo mandato em 1997, ele criticou sua oponente, Ruth W. Messinger, por perder uma missa no Dia de Colombo na St. Patrick - mesmo que Messinger seja judia. O prefeito foi forçado a um raro reconhecimento de culpa.

Entre as linhas pode-se notar que Giuliani tem um problema com Egan. Talvez ele, McCain e Obama devessem ter uma conversar sobre seus problemas com os religiosos. Um restaurante italiano não é uma má idéia. Eles poderiam falar sobre o assunto e se deliciar com tijelas de strozzapreti.

Strozzapreti é um tipo de macarrão. Na Itália, onde sentimentos anti-religiosos podem ser fortes, significa "estrangulador de padres".

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