Análise: protestos e chama Olímpica, agora e sempre

Eu estava na praça vermelha durante os jogos Olímpicos de 1980 em Moscou quando algum pobre manifestante aparentemente tentou por fogo em si mesmo. Nunca soubemos quem ele era ou o que realmente aconteceu por causa da impressionante reação das autoridades, filmada por um turista.

The New York Times |

A primeira cena mostra uma enorme chama e turistas em choque. Na próxima, um camburão avança pela praça, então um homem de meia-idade é enfiado na parte traseira do veículo. Mas nas cenas subsequentes, a atenção da multidão está em outros lugares - todos os seguranças da área estão pegando as câmeras e abrindo sua proteção para expor o filme. O turista do filme que eu vi estava atrás de uma árvore e longe da ação. Eu suspeito que o seu registro seja o único sobrevivente da ação. A maioria das testemunhas lembra apenas do fogo e das câmeras expostas.

Essa foi uma impressionante demonstração da determinação das autoridades soviéticas em não deixar nada manchar seu grande espetáculo. "Esporte, você é paz", era o slogan alardeado em pôsteres, souvenires, camisetas, mas os jogos já haviam aberto sob a sombra de um boicote liderado pelos Estados Unidos por causa da invasão do Afeganistão. Isso pareceu apenas redobrar os esforços do Kremlin em apagar qualquer minúsculo sinal de dissidência.

No final, os jogos de 1980 revelaram muito mais sobre a paranóia e agressividade de um Estado autoritário do que sobre suas habilidades em organizar uma competição atlética - pelo menos para o ocidente. Agora, da mesma forma, estamos aprendendo muito sobre a China. Da mesma forma que muito russos naquela época não conseguiam ver uma ligação entre as políticas de seu Estado e os jogos, muitos chineses de hoje parecem genuinamente bravos e convencidos que "inimigos estrangeiros" estão deliberadamente tentando arruinar sua festa.

Eu suspeito que o Comitê Olímpico Internacional também não tenha compreendido direito que uma ligação possa ser feita entre a postura de um país em relação aos direitos humanos e seu direito de sedear os jogos.

Há limites, é claro, para os paralelos que se pode traçar entre o campo militar que era a União Soviética há 28 anos e a rica, florescente China de hoje. Mas isso apenas torna as similaridades nas reações dos dois partidos Comunistas ainda mais chocantes.

O ocidente pode ver a China como a potência econômica e militar do século 21, onde presidentes e magnatas vão para conseguir alguma ação. Ainda assim, o partido no poder permaneceu ignorante das regras das sociedades abertas com as quais lida e ainda mais impressionantemente inseguro diante dos dissidentes do Tibete ou Uighr, todo ativista de direitos humanos e todo crítico ocidental. Um Estado que sentencia um dissidente como Hu Jia à prisão por "incitar subversão do poder do Estado" por ligar os Jogos aos direitos humanos não é um muito auto-confiante.

Criada em uma cultura sigilosa, desconfiada, paternalista e altamente burocratizada, a elite do Partido Comunista só consegue presumir que a elite ocidental é como eles, que os protestos a respeito de Darfur, Tibete ou da perseguição de dissidentes são cínicas manobras políticas.

Os ataques à tocha olímpica, então, não passam do trabalho de "inimigos". E eles estão em todos os lugares. No dia 17 de abril, a agência de notícias do Estado de Xinghua realizou uma matéria sobre um grupo alemão que pedia protestos a respeito do Tibete. Isso, dizia, "reforça a impressão de que um show de fantoches está ocorrendo ao longo da passagem da tocha Olímpica, com o Dalai Lama e seus defensores no palco e forças anti-chinesas por trás da cortina", acrescentando que "esses são os mesmos truques que as forças anti-China têm usado contra o crescimento do país."

Declarações como essa alimentam o a noção ocidental que protestos e boicotes apenas radicalizam ainda mais a posição da China e colocam seu povo a favor do partido. "Diplomacia silenciosa", na escola do raciocínio, seria uma postura mais útil. Certamente é mais útil para os governos e empresas que precisam de contratos na China. Mas funciona? Um diplomata ocidental que deu a entender que libertar um dissidente seria bom para a imagem chinesa pode apenas alimentar a idéia de que direitos humanos não passam de relações públicas.

No final, debater se protestos em massa ou diplomacia silenciosa são mais efetivos não é importante. Os protestos ao longo da passagem da tocha Olímpica, inclusive os que aconteceram no domingo na Coréia do Sul, não foram concebidos por especialistas alemães, mas são uma expressão de raiva genuína de pessoas que vivem em sociedade livres. Isso pode não persuadir os chineses do valor dos direitos humanos, mas eles podem aprender que o custo do cinismo pode ser alto.

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